João Pedro Brandão descreve o Festival Porta-Jazz como “um gesto de resistência cultural”. A frase não pede enquadramento: é já um programa. Num tempo em que a cultura é empurrada para a lógica do evento-relâmpago, do nome grande e da atenção curta, a Porta-Jazz insiste numa ideia de comunidade que se constrói com trabalho continuado, com presença e com risco. E é aí que entra a imagem que dá título a esta 16.ª edição: “A Terra Vista do Ar”. Subir o olhar para desfazer hierarquias, para perceber relações em vez de estrelas isoladas, para entender que o sentido de uma cena se lê melhor como mapa do que como pódio. Como diz Brandão, num cartaz destes “não existe a figura do artista isolado”. O que existe é uma massa viva, “grande, muito colorida”, feita de ligações reais e de música tocada como quem conversa, em tempo real, frente a frente.
A edição de 2026 decorre entre 5 e 8 de fevereiro e começa, com uma coerência exemplar, no lugar onde a Porta-Jazz se faz durante o ano inteiro: a sua sede, na Praça da República. Só depois a maratona se muda para o Teatro Municipal do Porto — Rivoli, onde os blocos ocupam salas diferentes e obrigam o corpo a deslocar-se dentro do edifício, como se o público também tivesse de fazer parte da coreografia colectiva. Não é um festival que se “vê” sentado; é um festival que se atravessa.
O primeiro momento, a 5 de Fevereiro, acontece no Espaço Porta-Jazz às 21h30 e funciona como uma espécie de chave emocional para a semana inteira. Miguel Rodrigues estreia Antídoto, projecto que nasce de um impulso quase terapêutico: em tempos de ansiedade e desconfiança, a música serve de gesto curativo e transformador, capaz de reorganizar o caos sem o negar. Ou, como refere no programa oficial o próprio Miguel Rodriges: “Vejo na música um poder transformador e curativo, uma experiência imersiva e emotiva que possibilita doses de reflexão e renovação. Antídoto surge como reflexo desta convicção, procurando, através da improvisação em grupo, do diálogo musical e da mistura de diferentes cores e sons, espelhar a liberdade, cooperação e a capacidade de criar beleza no caos”. O quarteto — José Soares no saxofone, André Fernandes na guitarra, Demian Cabaud no contrabaixo e o próprio Rodrigues na bateria — trabalha a improvisação como prática de cooperação, um diálogo em que as decisões não são impostas, mas negociadas ao segundo, numa escuta que é também ética. A noite completa-se com w.d.c.a (“We Don’t Care About…”), num encontro em parceria com a AMR de Genebra que traz para dentro do clube a escala do large ensemble e o espírito nómada de quem não se fixa num só lugar: Florence Melnotte no piano, Anthony Buchlin no trombone, John Menoud no saxofone alto, Gregor Vidic no tenor, Ludovic Lagana no trompete, Brooks Giger no contrabaixo e Nelson Schaer na bateria formam um ensemble que alterna entre arranjos cuidados e explosões de energia, com uma secção rítmica a empurrar os sopros para a frente como se o som fosse um corpo em corrida permanente.
No dia 6 de Fevereiro, o festival entra no Rivoli com o Bloco 1, às 18h15, no SubPalco, e a escolha do espaço não é inocente: começar por um lugar de proximidade, dentro do teatro, como quem recusa a pompa e mantém a pele do clube. José Vale apresenta “Summer School”, uma experiência que convoca Thelonious Monk e Ornette Coleman não como dogma, mas como atitude. Nessa proposta há, cetamente, melodias angulares e silêncios tensos, há harmonia desconcertante e vontade atonal, mas acima de tudo há uma ideia de presente: os temas servem como ponto de partida e tudo o resto acontece como ritual de resposta colectiva e instantânea, sem estruturas rígidas, só impulsos e escuta. Vale traz a guitarra e os efeitos, Gil Silva surge no saxofone tenor e Gonçalo Ribeiro segura a bateria, compondo uma pequena máquina de fricção onde forma e liberdade batem uma na outra até produzirem faísca. No mesmo bloco, o Littorina Saxophone Quartet apresenta Leaking Pipes, numa parceria com a Improdimensija, e o quarteto é, por si só, uma metáfora do tema do festival: quatro improvisadores do arco do Mar Báltico — Maria Faust, Mikko Innanen, Fredrik Ljungkvist e Liudas Mockūnas — ligados por um mar que é tanto geografia como memória. A música surge como espelho dessa ligação e pode ser agre ou doce, energética ou calma, límpida ou tóxica, mudando de estado como a própria água, e pedindo ao ouvido que aceite que a beleza também pode vir do desequilíbrio.
Ainda a 6 de fevereiro, o Bloco 2 começa às 21h30 no Palco do Grande Auditório e põe em evidência duas formas distintas de pensar o colectivo: uma pela multiplicação de convidados dentro de um universo composicional e outra pela reunião de uma multidão que se assume como corpo único. Mané Fernandes estreia ao vivo o álbum sQuigg: playground_etiQuette, um disco conceptual onde o “playground” é método e metáfora traduzindo-se como um espaço elástico, colorido e absurdo, no qual composição e improvisação se contaminam num ciclo contínuo que passa pela gravação e pela pós-produção e volta a abrir-se em palco. O trio-base, com Mané na guitarra e efeitos, Luca Curcio no contrabaixo e sampler e Simon Albertsen na bateria e sampler, expande-se com José Soares no saxofone alto, José Diogo Martins no piano e sintetizador, Ricardo Coelho na percussão, Mariana Dionísio na voz e Almut Kühne também na voz, criando um objecto artístico que atravessa jazz, electrónica e outras margens sem pedir licença às etiquetas. Depois, Ursa Maior regressa como ensemble com marca Porta-Jazz e, se a palavra “monumental” pode ser usada sem exagero será aqui: uma pequena multidão de músicos ligados à associação, reunida para reflectir a ambição e o fervilhar de uma comunidade que existe porque se encontra. Nesta segunda edição do projeto, a voz torna-se foco e ferramenta, com todos os integrantes convocados a usá-la, como um gesto de comunhão mais do que de virtuosismo. A noite prolonga-se às 23h30 no Café-Concerto do Rivoli com ESMAE + Jam, e essa passagem do palco grande para o espaço de convívio é, de certa forma, o festival a lembrar-se de si mesmo: no fim, tudo volta à conversa.
O dia 7 de fevereiro abre com o Bloco 3 às 16h00 no Grande Auditório, e é um daqueles momentos em que a programação parece desenhada para pôr o ouvido a mudar de pele dentro do mesmo sítio. Almut Kühne, João Pedro Brandão e Marcos Cavaleiro apresentam Stones and Seeds em modo lançamento, num concerto que trata a ressonância como matéria existencial com o som a refletir o espaço, a emoção a moldar a vibração, a presença a deixar vestígios. As pedras carregam memória; as sementes apontam futuro; e o trio trabalha essa tensão como se a música fosse um campo onde passado e amanhã se encontram, não como narrativa, mas como sensação física. No mesmo bloco, SATT surge com Olga Reznichenko, numa parceria Bezau Beatz que troca a contemplação por uma espécie de êxtase elétrico. Jo “Beatdenker” Wespel manipula guitarra e um arsenal de samples, Christian Weber empurra o baixo e os efeitos para zonas imprevisíveis, Alfred Vogel injeta energia na bateria e percussão, e a presença de Reznichenko no piano e teclados abre janelas harmónicas dentro de um som psicadélico e catártico, sempre no limite do que parece controlável. Aqui, a improvisação é risco frontal e acto que resulta do presente.
Ainda a 7, o Bloco 4 acontece às 18h15 no Pequeno Auditório e muda de escala para dentro, como quem abre uma janela num corredor mais silencioso do edifício. Pedro Neves apresenta Northern Train, juntando ao trio José Marrucho na bateria, Miguel Ângelo no contrabaixo e o trompetista galego Javier Pereiro. O concerto propõe, como explica o programa, uma viagem que não é geográfica, mas emocional pelo espaço-tempo de evasão que convoca imagens, memórias, afectos difíceis de nomear, e que, ao contrário do “consumo” fácil, pede ao ouvinte participação activa que implica fazer o seu trabalho de casa e tornar-se cúmplice da invenção. No mesmo bloco, o Ensemble Mutante, dirigido por Zé Stark, apresenta Go Tell It On The Mountain, dialogando com o romance de estreia de James Baldwin para construir um concerto sobre auto-descoberta, confronto social, espiritualidade e procura de integração. Stark surge na bateria, Fábio Mota na percussão, Yudit Almeida no contrabaixo e voz, Ricardo Moreira no piano e teclados, Fernando Brox na flauta e Lucas Oliveira no sax alto, formando um corpo onde influências musicais e literárias se cruzam sem hierarquia, como se a narrativa pudesse ser dita por timbres diferentes em simultâneo.
À noite, o Bloco 5 começa às 21h30 no Grande Auditório e é, de certa forma, uma aula sobre como um festival pode ser plural sem perder identidade. Ricardo Coelho apresenta KOHELET, o primeiro disco do vibrafonista lançado com o carimbo Porta-Jazz em 2025, e a música parte de um horizonte quase bíblico: eclesiastes, sementeira e colheita, a ilusão do futuro, o conselho de lançar a semente mesmo sem garantias. Com José Soares no saxofone alto, José Diogo Martins no piano, Romeu Tristão no contrabaixo e João Sousa na bateria, o quinteto constrói um lugar onde contemplação e inquietação convivem, como se a luz do texto sagrado tivesse sempre uma sombra ao lado. Depois, Vera Morais apresenta EUPNEA, também em modo lançamento, e o ar do auditório parece tornar-se instrumento com um ensemble de vozes e flautas que celebra as semelhanças entre timbre, tessitura e produção do som, criando uma música de câmara despretensiosa e imersiva. Morais conduz na voz, composição e texto, juntando Līva Dumpe e Sarah van Eijk nas vozes, Teresa Costa na flauta e piccolo e Ketija Ringa-Karahona na flauta, flauta alto e piccolo. EUPNEA soa menos a “grupo” e mais a organismo: um órgão de tubos humano a respirar interdependência. Nessa noite, o espaço do Café no Rivoli receberá ainda uma jam session precedida de DJ set a cargo de Rui Miguel Abreu, director do Rimas e Batidas e devoto das rodelas negras de sete polegadas.
O domingo, 8 de fevereiro, começa com o Bloco 6 às 16h00 no Pequeno Auditório e traz duas propostas que olham para contradições como motor criativo. Sérgio Tavares e Renato Diz apresentam Between Time and Now, obra construída a partir de dezoito anos de cumplicidade, onde cada momento evolui na confluência de mentes absortas e cristaliza memória ao mesmo tempo que abre espaço para surpresa e inquietação partilhada. Diz trabalha piano e técnicas estendidas; Tavares faz o mesmo no contrabaixo, numa música que oscila entre permanência e inflexão, sombra controlada e silêncio intocável. No mesmo bloco, João Martins apresenta Oxímoro, um álbum que mergulha em paradoxos — caos e harmonia, planeado e inesperado — e celebra a beleza que também existe na imperfeição. Fábio Almeida surge no saxofone tenor, Gabriel Neves no soprano, Nuno Trocado na guitarra, Laura Rui na voz e sintetizador, João Salcedo no piano e sintetizador, e Martins na bateria, compondo paisagens imprevisíveis onde a dissonância pode resolver-se em beleza e a calma pode explodir em intensidade.
Ao fim da tarde, o Bloco 7 começa às 18h15 no Palco do Grande Auditório e devolve o festival à ideia de narrativa como construção comunal. AP apresenta Lado Umbilical, o seu trabalho mais recente, desafiando-se em ferramentas composicionais e improvisacionais mais ousadas, com a tónica no ritmo e na exploração de sons e texturas, mas sem abandonar a escrita e o desejo de contar uma história. A maturidade do grupo é também a maturidade de uma rede: AP na guitarra e composição, João Pedro Brandão na flauta, Miguel Meirinhos no piano, Gil Silva no sax tenor, sax soprano e flauta, e Gonçalo Ribeiro na bateria, fazendo a mesma narrativa soar diferente de cada vez que é enunciada. No mesmo bloco, Hristo Goleminov apresenta Diagonal Shift, em parceria Orbits, com um quarteto só de madeiras que reúne improvisadores de várias gerações ligados à cena de Amesterdão. Goleminov conduz no sax tenor, Ketija Ringa-Karahona surge na flauta e flauta alto, Michael Moore no clarinete e Federico Calcagno no clarinete baixo, construindo espaços enigmáticos onde as ideias se interligam e florescem como se o ar entre instrumentos fosse também matéria musical.
O Bloco 8 encerra o festival às 21h30 no Grande Auditório e, como convém a um tema sobre ver a Terra do ar, termina com música que fala de arquitectura invisível e de espaços que se desenham no intervalo entre intenção e possibilidade. Hery Paz apresenta “Fisuras”, em parceria com o Guimarães Jazz, um trabalho que vive na tensão suave entre presença e ausência, onde a poesia transcende a linguagem e o som habita o espaço entre palavras. Paz traz sopros de madeira, claves e voz, Pedro Melo Alves assume percussão, João Carlos Pinto opera teclado e electrónica, Demian Cabaud circula entre baixo, flauta e bombo legüero, e Maria Mónica cria feitiçaria visual ao vivo, fazendo do concerto uma constelação de gestos e memórias em transformação contínua. Depois, Felix Hauptmann apresenta Serpentine, em parceria NICA, combinando abstracção e estética em dois espectros contrastantes da música de câmara, do denso ao reduzido, com ambivalência entre complexidade rítmica e pulso firme. Jorik Bergmann na flauta, Fabian Dudek no saxofone, Samuel Mastorakis no vibrafone, Hauptmann no piano e composição, Ursula Wienken no baixo eléctrico e Leif Berger na bateria criam espaços sonoros independentes, carregados de melodias líricas e rigor técnico ao serviço da liberdade. E, quando a sala grande finalmente se calar, o festival fechará como vive: às 23h30, no Café Rivoli, Pedro Tenreiro conduz a jam session final, devolvendo a música ao seu lugar mais essencial: o do encontro, conversa e comunidade.
No fim, talvez seja isso “A Terra Vista do Ar”: perceber que um festival não é um alinhamento de atrações, mas um mapa de relações. E que a resistência cultural de que fala João Pedro Brandão é uma prática diária, que durante quatro noites se torna visível, audível e, sobretudo, partilhável.