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Big Apple Rappin’: arqueologia Hip Hop da Soul Jazz

[Texto] Rui Miguel Abreu [Foto] Direitos reservados (Cold Crush Brothers)

O som dos primeiros passos do hip-hop no seio da indústria discográfica é também o som do processo de uma descoberta. Quando, em 1979, foram impressos em vinil os primeiros temas de rap, a cultura hip-hop já tinha a referência de meia-dúzia de anos de experiências levadas a cabo em clubes, centros sociais e parques da zona sul do Bronx. A maior parte dos primeiros discos editados pouco mais representava do que tentativas mais ou menos frustradas de transportar a energia imparável das actuações de palco para a fria atmosfera dos estúdios. Os primeiros anos da década de 80 foram por isso mesmo tempos de construção de uma identidade própria e de afirmação de um rumo numa indústria onde hip-hop, disco sound, r&b e reggae eram por vezes apenas maneiras diferentes de dizer a mesma coisa.

Numa época em que o disco sound sucumbia estética e comercialmente, a complexa rede de editoras independentes que alimentava o mercado nova-iorquino viu no rap uma espécie de tábua de salvação. Paradoxalmente, foram executivos veteranos como Sylvia Robinson (que fundou a Sugarhill de propósito para editar hip-hop, mas que tinha carreira na indústria da soul desde a década de 50 – a executiva faleceu em 2011 e parece que está planeada uma biopic com a sua história) ou Bobby Robinson (outro veterano, sem relação com Sylvia, que desde meados dos anos 40 trabalhava no mundo da música negra, fundador da Enjoy) os primeiros a perceber o potencial de uma revolução em curso de que foram tomando conhecimento através das cassetes que os seus familiares mais jovens traziam das festas que animavam o Bronx. No entanto, não foram os protagonistas dessas cassetes os primeiros a colocar os pés nos estúdios de gravação, facto que se entende recordando um pouco da história do bairro onde o hip-hop nasceu.

South Side Story

big apple rappin

Único dos cinco grandes “boroughs” de Nova Iorque que está ligado ao continente por terra (os outros são ilhas, como Manhattan), o Bronx nem por isso deixava de ser na década de 70 o mais isolado. Nelson George, importante cronista da cultura negra norte-americana, cita no seu prefácio do livro Yes Yes Y’all – Oral History Of Hip Hop’s First Decade (ver caixa) um estudo estatístico que indicava que no Sul do Bronx, berço desta cultura, a média de rendimentos anuais de uma família era de 5 mil e 200 dólares enquanto nos restantes bairros de Nova Iorque esse número subia para perto dos 9 mil e 700 dólares. Junte-se a isto a epidemia de fogos postos no ano de 1975 (mais de 13 mil…) por senhorios sem escrúpulos à procura de compensações das companhias de seguro, cortes no orçamento municipal que faziam do Bronx a zona menos policiada da cidade e uma história de progressivo abandono político daquela área e facilmente se entenderá que o hip-hop nasceu numa zona à beira do abismo.

A ideia romântica que hoje temos das block parties com sound systems alimentados com a electricidade dos postes de iluminação pública, nasceu de facto de uma realidade crua e dura – essas festas só eram possíveis porque não havia autoridades para as impedir. Enquanto o resto de Nova Iorque se perdia na decadência disco do Studio 54, o Bronx avançava alheio a tudo, construindo uma linguagem própria a partir dos breaks de discos de funk. Esta auto-suficiência foi a razão fundamental para que durante muito tempo pontas de lança dessa cultura como Afrika Bambaataa ou Grandmaster Flash tenham ignorado o assédio das editoras. Afinal de contas, a vida corria-lhes bem – de inocentes e gratuitas festas nos parques públicos até um rentável circuito de clubes como o Disco Fever ou o T-Connection ia uma distância suficientemente grande para que as figuras-chave do hip-hop já se considerassem recompensadas pela sua dedicação.


 

https://www.youtube.com/watch?v=Mco_r8lkmh8


 

Grandmaster Flash chegou mesmo a comentar que o negócio de venda das cassetes gravadas durante as festas – “a buck a minute”, ou seja, 60 dólares por uma cassete de uma hora! – era tão favorável que nem sequer lhe passou pela cabeça dar o passo seguinte e gravar um disco. Por isso mesmo, o facto dos primeiros discos terem nascido fora do Bronx e terem sido feitos por estranhos ao movimento não chega a surpreender. Foi assim com os Fatback Band, grupo de funk oriundo de Brooklyn que recrutou o animador de rádio King Tim III para o clássico “Personality Jock”, e com os Sugarhill Gang, fruto da visão de Sylvia Robinson e de um oportuno (oportunista?…) casting não muito diferente daqueles que imaginamos serem feitos para as boys bands mais modernas. Big Bank Hank, um segurança de clubes onde as festas hip-hop aconteciam, foi um dos “premiados” nesse casting e não teve problemas em usar para “Rapper’s Delight” rimas que não eram da sua autoria, mas de Grandmaster Caz, dos Cold Crush Brothers. Ainda assim, “Rapper’s Delight” bateu recordes e tornou-se o maxi mais vendido de sempre quando foi editado em 1979 (o maxi era um formato comercialmente disponível desde 1975) e provocou, claro, uma corrida imediata aos estúdios para facturar em cima da novidade. A multi-milionária indústria hip-hop que hoje conhecemos nasceu nesse momento e Big Apple Rappin”, um  lançamento da incontornável Soul Jazz que data de 2005 e que está hoje descatalogado (embora facilmente alcançável no Discogs, por exemplo), é um documento que ilustra esses vibrantes dias em que o hip-hop se descobria e impunha como linguagem.



 

Os primeiros passos da indústria

Os primeiros discos de hip-hop, como alguns dos que estão representados em Big Apple Rappin’, resultaram de um olhar exterior ao Bronx. Será essa a razão principal para esses registos pioneiros terem ignorado o principal pilar dessa então ainda muito jovem cultura: o DJ. Editoras como a Sugarhill e a Enjoy estavam basicamente a aplicar métodos tradicionais a uma música que nasceu de um insistente quebrar de tradições. Com as cassetes por referência, gente como Sylvia Robinson pensou imediatamente em dar à banda residente em estúdio ordens para duplicar êxitos da época, como aqueles que os DJs utilizavam nas festas para criar bases para os MCs. No caso dos Sugarhill Gang foi o fantástico “Good Times” dos Chic. E se essa ordem tinha resultado em vendas, não havia razões para a alterar. Daí que em Big Apple Rappin’ se descubram temas em que o rap se apoia em melodias e ritmos bem familiares: “Dj Style” de Mr Q é executado em cima do enorme “Don’t Stop Til You Get Enough” de Michael Jackson, “When You’re Standing on Top” dos Super 3 cita descaradamente “Jesus Christ Superstar” de Andrew Lloyd Weber e “How We Gonna Make the Black Nation Rise”, um dos primeiros raps “conscientes” da autoria de Brother D, junta palavras fortes ao hino disco sound “Got to Be Real” de Cheryl Lynn.


 

https://www.youtube.com/watch?v=FUt6ljEC8QY


Além da já bem conhecida colagem do hip-hop primordial ao disco sound, Big Apple Rappin’ explora uma normalmente menos ouvida ligação ao reggae. Nova Iorque era desde o início da década de 70 um importante destino da emigração jamaicana e Kool Herc, normalmente apontado como o primeiro de todos os DJs de hip-hop, trouxe das Caraíbas para o Bronx a ideia do sound system como artefacto da revolução cultural. Pouco mais se conhecia dessa ligação Jamaica/Nova Iorque. No entanto, esta compilação esclarece que editoras como a Clappers ou a Joe Gibbs Music, operadas por veteranos do circuito jamaicano de sound systems, também quiseram capitalizar com a descoberta do filão de rap, o que até poderá ser considerado um passo natural para quem se tinha habituado a ouvir toasters debitarem rimas ao microfone nos sound clashes da Beat Street de Kingston. “Sure Shot” das Xanadu saiu na etiqueta de Joe Gibbs, mas optava pelo disco sound de recorte convencional para apoiar as rimas das MCs de serviço; “Rapping Dub Style” é uma versão de “Rapper’s Delight” em fumarento estilo dub assinada por General Echo; “Catch The Beat” é um clássico com carimbo de T/Ski Valley do Bronx, mas com produção de Glen Adams, outro veterano dos estúdios de Kingston que gravou com gente como Lee Perry; e “Rock the Beat” é interpretado por umas Jamaica Girls que têm aqui um bem conseguido compromisso entre disco e reggae.


 

https://www.youtube.com/watch?v=VdKSvcs7eGg


 

Johan Kugelberg, o responsável por esta compilação, sabe bem que a era do rap como novidade discográfica explorada por outsiders da cultura erguida no Bronx durou muito pouco tempo e por isso ignora a baliza temporal que a capa de Big Apple Rappin’ reclama para dar com o tema dos obscuros Masterdom Committee um vislumbre do futuro movido a caixas de ritmos: “Funk Box Party” tem data de 82. A Soul Jazz coloca assim na mesa mais uma peça no impressionante e gigante puzzle que tem vindo a construir há mais de uma década e que além de Kingston tem tido em Nova Iorque um dos seus destinos preferenciais: “Nu Yorica”, “Barrio Nuevo”, “New York Noise”, “The Gallery”, partes de “New Thing” e os olhares sobre as obras de Mantronix, ESG ou Arthur Russell têm na história única da Grande Maçã a sua grande razão de ser. Big Apple Rappin’ é mais um roteiro para ajudar à orientação nessa grande cidade.



(Texto originalmente publicado na revista Blitz em 2005 aquando da publicação original de Big Apple Rappin’)

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