pub

Fotografia: Direitos Reservados

A lenda do jazz nasceu no dia 29 de Agosto de 1920.

100 anos de Charlie Parker: avistar o génio nas contracurvas da vida

Fotografia: Direitos Reservados

Parker. Charlie Parker. Não, não é por se tratar de um agente secreto que nos apraz apresentá-lo desta forma, mas, sim, por ser alguém que — tal como o fictício personagem britânico a quem se associa esta idiossincrasia — marcou a cultura tão indelevelmente que o seu nome ressoará perenemente nos ecos do tempo.

Apesar desta familiaridade com o nome do lendário saxofonista, muitos lhe desconhecem a obra e, a grande maioria, desconhece-lhe a vida. Charles Christopher Parker Jr. nasceu há 100 anos, na cidade do Kansas City, no Kansas, destinado a tornar-se tornar um dos maiores saxofonistas de sempre e, pelo caminho, desenvolver, juntamente com outros ilustres do seu tempo como Dizzy Gillespie ou Bud Powell, aquela que seria a sonoridade sucessora do swing — o bebop. Assim, falar de jazz implica, obrigatoriamente, falar de duas épocas: tal como no mundo actual se usam as siglas a.C. e d.C. para denominar as eras antes e depois de Cristo, no jazz poderíamos, igualmente, recorrer às mesmas abreviaturas para falar do tempo antes e depois de Charlie. Isto porque Parker foi um desse músicos que marcou a história da música e deixou um legado tão profundo que é impossível, mesmo passado largas décadas, não referenciar o seu nome com frequência quando se fala de jazz: a sua música continua a ser (re)editada e escutada; a sua influência é sentida, de forma mais ou menos inteligível, em muito do jazz contemporâneo; as composições e temas que celebrizou são usados como provas de ingresso nas mais reputadas universidades.

No entanto, e apesar do indubitável génio musical, Parker era, também, uma personalidade altamente complexa, com um talento criativo de dimensão comparável à sua tentação para actos de descomedido hedonismo. Para o descrever, nada melhor que recorrer às palavras do médico que o tratou aquando do seu colapso mental, em 1946, e que recordava Charlie Parker como “um homem que vive de momento a momento. Um homem que se rege pelos princípios do prazer, música, comida, sexo, drogas, pontapés, e que tem a personalidade retida num estágio infantil. Um homem quase sem sentimentos de culpa e apenas com o menor e mais atrofiado nó de consciência. […] Mas com Charlie Parker é o factor musical que faz toda a diferença. Essa é realmente a única razão pela qual estamos interessados ​​nele…”

E porque a música é a razão que basta para sermos acometidos por dito interesse, os curiosos em saber mais sobre a vida de Charlie poderão ler o livro Bird Lives!: The High Life and Hard Times of Charlie, de Ross Russel, ou ver um dos vários documentário sobre a vida e obra do músico (aqui ou aqui). Entretanto, e como forma de homenagem, celebramos o centenário do saxofonista recordando cinco momentos da sua vida.



[A participação nos grupos de Jay McShann]

Charlie era um saxofonista autodidacta (havia, inclusive, começado por tocar barítono) e, como qualquer músico em início de carreira, passou por alguns momentos menos agradáveis, como a célebre e embaraçosa situação com a Count Basie Orchestra. Porém, foi na banda do pianista Jay McShann, à qual se juntou pela primeira vez em 1937, que Parker começou a ser notado e ganhou a experiência e bagagem que fariam com que se tornasse numa lenda da música. Foi com este grupo que Parker realizou a primeira tour da sua vida, por Chicago e Nova Iorque, em 1938. Foi também com a banda de Jay McShann que Parker realizou as primeiras gravações, em 1940, eternizadas nos temas “Oh, Lady Be Good” e “Honeysuckle Rose”. E por fim, mas não menos importante, foi durante esta época que Parker ganhou a alcunha de “Bird”, diminutivo de “Yardbird”. Existe muita especulação sobre qual será a origem do nome “Bird”, porém, a versão mais próxima da verdade talvez venha do próprio Jay McShann, que relembra: “Estávamos a ir para um trabalho no Nebraska quando o nosso carro embateu numa galinha. Charlie gritou: ‘afasta-te! Acertaste numa galinha [yardbird]!’ Ele saiu [do carro] e levou-a para Lincoln, onde a cozinhou e comeu!”



[Bird e Diz]

Bird e Diz, ou Charlie Parker e Dizzie Gillespie, são conhecidos por serem o zénite do bebop. Apesar da total atribuição da criação deste sub-género do jazz à dupla poder ser considerada injusta, é indubitável que ambos tiveram uma influência primordial na evolução do jazz na década de 40 e na afirmação do bop como tendência prevalente. A colaboração entre os dois músicos iniciou-se quando Parker foi viver para Nova Iorque, cidade onde estabeleceram profícuos laços musicais e realizaram vários concertos e jam sessions. Os frutos desta partilha de ideias materializaram-se, em 1945, com as primeiras gravações feitas em conjunto, nas quais foram tocados temas como “Dizzy Atmosphere”, “Groovin’ High”, “Salt Peanuts” e “Shaw Nuff”. Ademais, foi com Diz que Bird realizou a famosa tour de seis semanas, em Los Angeles, que culminou com o internamento de Parker num hospital psiquiátrico.

A relação entre os músicos, apesar de ser pautada por mútua admiração, nem sempre foi fácil, principalmente pelo ressentimento que Bird tinha em relação ao facto de Diz ser muito mais famoso que ele (Parker foi amplamente ignorado ao longo da sua vida). Ainda assim, a simbiose da dupla ficou para sempre registada no álbum Bird and Diz (1952), uma gravação que, embora em grande parte desprovida de clássicos do bebop, é um importante pedaço de história. Curiosamente, esta foi a única sessão de que há registo em que a dupla se juntou ao pianista Thelonious Monk (para além de Curly Russell no contrabaixo e Buddy Rich na bateria) — um disco essencial, portanto.



[O quinteto e as composições de Parker]

Embora seja predominantemente conhecido pela forma singular como tocava o saxofone e pelas criativas interpretações de standards do jazz, Charlie Parker foi, igualmente, um prolífico compositor que escreveu temas que, também eles próprios, se acabaram por tornam standards como, por exemplo, “Ornithology”, “Parker’s Mood, “Scrapple from the Apple”, “Cool Blues”, “Ko Ko” e “Now’s the Time”. Muitas destas composições foram interpretados pelo seu quinteto — aquela que era a sua formação de banda favorita –, por onde passaram músicos como Miles Davis, Max Roach, Duke Jordan, Howard McGhee ou Tommy Potter. Ademais, foi neste formato que Parker gravou alguns dos melhores momentos da sua carreira, entre os quais se destacam o álbum One Night in Birdland (1950) ou a compilação Complete Studio Masters, que reúne as gravações do quinteto com Miles Davis.



[O concerto no Massey Hall]

Numa fase descendente da carreira de Parker em que este já carecia do fulgor, criatividade e energia de outros tempos, eis que um quinteto quintessencial, formado nada mais nada menos que por Dizzy Gillespie, Charles Mingus, Bud Powell, Max Roach e, pois claro, Charlie Parker, se juntou para realizar um histórico concerto no Massey Hall, em Toronto. Vivia-se o ano de 1953, altura em que o bebop já perdia vigor para as novas tendências do jazz da década de 50, tais como o cool jazz e o hard bop. Deste modo, o álbum Jazz at Massey Hall pelos The Quintet (assim se intitularam) — que, a propósito, foi gravado pelo próprio Mingus — é, não só, um registo histórico em que alguns dos maiores clássicos da época do bebop foram interpretados pelos seus principais intervenientes (e com grandes performances, justiça lhes seja feita!), mas, também, o momento que marca o final da época dourada do movimento.



[Os últimos anos de Bird]

Charlie Parker teve uma vida repleta de altos e baixos, altamente simbólica do dinamismo colorido e acelerado que impunha quando tocava o seu instrumento. No entanto, devido ao estilo de vida que possuía e que lhe provocava um enorme desgaste físico e psicológico — exacerbado por ser heroinómano desde a adolescência e pelos longos períodos alcoolismo –, os últimos anos de Bird não foram propriamente felizes, tendo sido marcados por problemas de saúde, instabilidade psicológica e familiar (que, aliás, foram uma constante ao longo da sua vida), e tentativas de suicídio. Parker acabaria por morrer a 12 de Março de 1955, em casa da baronesa Pannonica de Koenigswarter, num episódio melodramático em que sufoca devido ao próprio riso. A causa oficial da morte foi pneumonia lobar. Para as subsequentes gerações deixou um mítico legado de interpretações, composições, técnicas e histórias que ainda são prova viva do carisma e génio do saxofonista.

Bird é um impressionante exemplo de que associado a um grande talento e criatividade encontra-se uma personalidade complexa e problemática. Deste modo, e independentemente de algumas das suas (questionáveis) opções de vida, Parker foi um génio musical e a sua obra e influência estão sulcadas na firme eternidade.


pub

Últimos da categoria: Ensaios

RBTV

Últimos artigos