Xksitu sobre o projecto Souldados: “Senti que o meu desafio na música passaria por um trabalho em equipa”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTOS] Cláudio Carvalho

Xksitu tem um novo projecto. Os Souldados são uma banda formada por músicos com escola no jazz, soul e funk e o MC da Linha da Azambuja é o frontman. Apresentada no final de 2018 com um videoclipe realizado por Bernardo Gramaxo, “Cliques” é a primeira canção a surgir do seio do colectivo.

A militar no hip hop português desde o início do milénio, Xksitu continua a veicular as suas ideias das mais diferentes formas. Estreou-se em 2004 com Vermes da Cidade e esteve envolvido na criação de crews/labels promissoras no circuito independente nacional, como são os casos da Headstard ou Top Dogs. Em 2016, o rapper lançou A Mixtape antes de se voltar a fechar em estúdio para arquitectar um novo projecto, que agora começa a gerar os primeiros frutos.

Os Souldados nascem de uma proposta feita pelo baixista André Alves, que se ofereceu para repensar A Mixtape num formato que funcionasse ao vivo, com banda. Dessa ideia nasceram os primeiros encontros entre Xksitu e os músicos Diogo Santos, Filipe Ferreira, Hugo Gama, Marta Martins e André Alves, que rapidamente geraram novos temas originais.

“Cliques” é a primeira amostra do colectivo, o primeiro de uma fornada de vários singles a que os Souldados se comprometem a editar, e que culminará com o primeiro LP da banda. A canção de estreia foi captada, misturada e masterizada por Pedro Ferreira, no Estúdio Nascer do Som, conta com participações de Sérgio Rodrigues, Jorge Ribeiro, Filipe Durães e Kaddy Xavier e teve produção de Francisco Rebelo, músico de créditos firmados que faz parte de bandas como Orelha Negra, Fogo Fogo ou Cais Sodré Funk Connection.

 



Antes de mais, quem são os Souldados e o que esteve na génese deste projecto?

Os Souldados são uma nova banda de hip hop cantado e tocado em português. O André Alves (baixista) ouviu a minha mixtape e abordou-me com o interesse em fazer arranjos para os temas e dar uns concertos. Eu, entretanto, senti que aqueles temas já estavam algo no passado e sugeri que, ao invés de fazermos a banda do Xksitu, fizéssemos uma banda com identidade própria, na qual eu fosse mais um elemento. Ele ficou entusiasmado e, como se mexe bem no meio, em poucas semanas reuniu os músicos e conseguiu um estúdio para ensaiar.

Numa era em que a indústria está dominada pelas tendências electrónicas e digitais, surgem vocês para contrariar aquilo que tem sido uma “regra” no panorama actual. O que te motivou a largar a sonoridade mais tradicional do hip hop para abraçar esta experiência de banda tão mais orgânica?

A minha primeira referência na música é o meu irmão mais velho. Ele sempre teve bandas e, por influência dele, aprendi música ainda em criança. O meio onde cresci era também dominado pelas bandas de metal. Entretanto na adolescência tive uma fase em que ouvi jazz, também por influência do meu irmão. A minha vida no rap, apesar dos colectivos em que tinha estado integrado, foi sempre algo solitária e, quando lancei a mixtape, senti que o meu desafio na música passaria pela partilha, por um trabalho em equipa. Como o desejo de ter uma banda era algo presente no meu imaginário, agarrei logo a oportunidade. Em relação à sonoridade, sinceramente nunca estive preocupado com o sucesso fácil. Acredito que estamos a trabalhar em algo com um valor próprio e que irá também captar a atenção de outro público, até agora mais outsider.

O que vos levou a abordar este tema das redes sociais e do seu envolvimento — às vezes até doentio — com os jovens?

É uma caricatura dos nossos dias, uma história de Romeu e Julieta algo ridícula. Queríamos ter um primeiro impacto marcante e, dentro da linha de apelar ao público generalista, o tema pareceu-nos engraçado.

É mais ou menos nesta linha que se vão desenvolver os próximos temas? Vão procurar tocar em mais destas temáticas ligadas à sociedade do presente?

A nossa sonoridade ainda está a ser construída, mas posso dizer que não vamos seguir sempre por aqui. Ao nível dos temas, sim, vamos falar de coisas muito simples e ligadas ao presente.

Que planos ou metas traçaram para 2019? Já têm mais temas cozinhados?

Já temos mais um single pronto e o videoclipe está a ser trabalhado. Estamos a trabalhar em temas para um álbum e já temos algumas datas em vista para tocar este ano. O objectivo é pôr o álbum cá fora e espalhar a nossa música ao máximo.

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira

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