Prison Religion: os “criminosos espaciais” que querem “gritar como bebés”

[TEXTO] Vasco Completo [FOTO] Direitos Reservados

Tal e qual uma nave sónica que podia albergar ilustres como Death Grips ou JPEGMAFIA, mas ainda outros estetas sonoros menos convencionais, o duo oriundo de Richmond, Virgínia, “aterrou” em Portugal para se apresentar hoje na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa.

Warren Jones e Parker Black formam os Prison Religion, estando ligados por dois elos: o do campo visual e da produção musical. O resultado? Electrónica abrasiva, noise e industrial. A motivação? A procura intensa pelo “barulho” ritmado e pelas fronteiras entre o som, o ruído e a música, conceitos que são maleáveis na sua produção. A constante exploração de novos pedaços de áudio para samplar e de novos métodos para processar som são parte importantíssima da constante evolução composicional do grupo.

Para o próximo disco, BEACHHEAD, espera-se uma abordagem diferente, na qual instrumentos acústicos ganham novo espaço — XNT NFC/ B.O.O.T”, com Eartheater e “Candy”, com a participação de Rabit, dispõem de momentos mais espaçosos e ponderados, virando as costas às expectativas que se possam ter em relação ao maximalismo caótico que pontuava O FUCC IM ON THE WRONG PLANET, por exemplo. Um disco sobre compressão cultural e sónica, como nos confessam, mas também sobre contrastes. Além da abertura à exploração do som, pretendem também abrir a porta para mais colaborações, deixando esta de ser uma produção só a quatro mãos. 

Em conversa com o Rimas e Batidas, a dupla falou sobre o próximo longa-duração, a dinâmica de composição, o processo criativo e a produção.



O espaço e a abdução são temas que vocês pensam bastante, considerando a citação na descrição do Bandcamp para o single “xNT NFC/ B.O.O.T.” e a forte inspiração que obtiveram ao ver o lançamento do Falcon Heavy da SpaceX. Sentem que o espaço é tão agressivo como o vosso som? Como expressam essa influência?

Os humanos, ao brincarem com o desconhecido, são realmente crianças, numa perspectiva mais ampla. O conforto na tranquilidade terrena parece fútil para o progresso, e nós queremos gritar como bebés.

Como é a dinâmica criativa do duo? Atribuem certas funções a cada um ou é algo mais instintivo e livre?

É como a Millenium Falcon: eficiente na prática e execução, mas, em última análise, conduzida por criminosos espaciais.

Na vossa música alcançam uma grande amplitude de géneros musicais — ou é mais correto dizer que chegam a uma larga paleta de sons? Quais são as vossas maiores influências?

Sim, andamos a pintar. Começam a ser dissolvidos os limites entre uma classificação heurística e pomposa [da música], e aquilo que realmente é. O que é sequer música ou som? Como se comprime um sentimento ou um conceito numa forma comunicável? Depois de respondermos a isso, os géneros soam mais a morte.

Costumam usar alguns samples estranhos nas vossas músicas. Como funciona o vosso digging?

A maior parte da produção vem do P, o que envolve demasiadas horas na Internet e a explorar novos métodos de processamento, principalmente digital. Por exemplo, enviar um singelo e simples sample de um para o outro até se formarem artefactos digitais, ou processar por via de vários softwares não-DAW. Ou qualquer coisa que produza um som usável e interessante, o que, às vezes, pode ser muito mais simples do que isso. Construir uma simples biblioteca de sons quebrados ou empilhados também ajuda a criar uma base mais rica.

O BEACHHEAD também apresenta elementos acústicos instrumentais que eu decidi processar menos, mas com um monumental contraste ao material digital/eletrónico. É-lhe dado propósito pelo enquadramento, em vez do ocultamento.

Nos singles que lançaram para o BEACHHEAD, há momentos sem batida, apenas um instrumento (piano ou guitarra) a ser tocado e processado. Ambos são um pouco mais calmos e etéreos do que parte do vosso trabalho anterior, deslizando também para uma estética mais minimalista. O que podemos esperar do vosso próximo projecto?

O BEACHHEAD é sobre compressão, tanto cultural como sonoramente. Nele, existem explorações do que isso significa para a música e a composição, daí os momentos vazios ao lado de outros de extrema densidade. A forma é frequentemente revelada através de compressão repetida até que a essência não consiga resistir mais, ou até que surja um novo contexto. O duplo significado [de BEACHHEAD] serve de base temática, enquanto dispositivo estratégico de guerra e vadio queimado pelo sol. Ambos existem no mesmo espaço, o que muda e perde o contexto dependendo dos estímulos ambientais. Neste caso, nós somos os estímulos.

Podemos esperar mais algumas colaborações no álbum?

Neste disco, procurámos sair do vácuo em que temos estado a criar, e trazer outros para o nosso processo de construção de mundos. Além do Rabit e Eartheater, há produção adicional de Tropical Interface e uma participação de Mhysa. O resto é tudo nosso. O próximo lançamento poderá ser um álbum conjunto com DELI GIRLS, portanto fiquem à espera disso.

Concebem estas canções tendo em vista como soam ao vivo ou é o trabalho de estúdio o que mais vos interessa?

Ambos. O elemento ao vivo é o sangue. Qualquer pessoa que tenha ido a um concerto de PR sabe isso. Assim, a música é concebida para uma escuta cinemática ou catártica ao mesmo tempo que mantém o instinto de raiva para quando o volume está adequado e alto. É algo complicado.

E quanto ao conteúdo visual? O que aparece primeiro: o áudio ou o visual? Há um padrão?

A maior parte do trabalho visual vem do W, que passa por um processo igualmente intensivo de desenvolvimento. Nunca é seguir uma rotina, mas antes dar forma com o que se tem à mão. A imagética vista até agora tem sido centrada no arquivamento de eventos num passado alternativo ou num futuro alternativo. A produção musical é reflectida no modo de processar estes visuais. Ambos temos experiência em artes visuais, por isso é mais fácil de comunicar um com o outro através de som ou visual.

Mal podemos esperar por ir tocar aí. <333


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