A pluralidade sonora d’A Negra no Musicbox

[TEXTO] Miguel Santos [FOTOS] Teresa Lopes da Silva

“A Negra é a Sara Ribeiro e… todas as suas luzes e trevas. É um estado criador”, disse a própria num vídeo sobre si e sobre o seu novo projecto. E, no dia 11 de Janeiro, no Musicbox, em Lisboa, foi isso mesmo que a actriz, cantora, criadora e encenadora mostrou para uma sala a meio gás. Acompanhada por Hugo Novo (GNR, Loopless) nas teclas e por Márcio Pinto (Terrakota, Olivetreedance) na bateria, a artista, jocosa ou brincalhona, séria ou taciturna, jogou com emoções num concerto com vida e expressividade.

Ao longo de quase uma hora, a cantora deambulou entre géneros e mundos musicais diferentes com uma expressão sonora característica. Via-se “A Negra” projectado num ecrã a letras pretas e brancas, a decorar um palco minimalista com apenas uma árvore por trás do baterista. O concerto começou com os seus companheiros de palco a criarem um ambiente sonoro que por vezes lembrou as texturas sónicas de Nicolas Jaar e, passado algum tempo, Sara entrou, para cantar as primeiras notas graves de “Mother”. Há uma força rara nas palavras da artista, a maneira como se entrega ao instrumental demonstra que é mais do que cantar, é viver a voz durante a música.

O nevoeiro de “Mother” transitou para paisagens sonoras mais amenas e que deixaram clara a versatilidade de Sara. “Run, Bitch” mostrou um lado mais sombrio, negrume declamado sobre um instrumental que soava urgente. Tanto declamava uns versos num registo que se aproximava mais do hip hop como podia cantar a plenos pulmões, por vezes na mesma música, como no caso de “Sem Voz”. Os seus companheiros de palco também ajudavam a esta mistura de sonoridades: os seus dotes musicais engrandeceram a prestação de Sara, apresentando uma sonoridade envolvente que serviu fielmente a ambição vocal da cantora.

“A próxima música é para um homem que eu admiro muito… Donald Trump”, disse sarcasticamente e foi recebida com alguns risos da parte do público. Declamou versos sobre o capitalismo acérrimo, descrevendo com palavras assertivas a nossa realidade consumista acompanha por um instrumental que deslizou por trás dos seus versos. “Os vampiros querem muros à volta do sol”, declarou antes da música prosseguir para uma parte mais “violenta” e conclusiva. No final, embalou o público de xilofone com um tema de letra confessional, terminando a actuação de forma mais leve e suave.

Ficou claro que para Sara cantar é mais do que uma demonstração vocal. Ao longo do espectáculo, a artista moveu-se ao ritmo frenético da música de maneira incansável, preponderante e com uma interpretação digna dos sons que iam ressoando pelo Musicbox. Pelo meio mostrou várias facetas — mais calmas ou com direito a rugidos gritados ao microfone — possuída por um ambiente sonoro que se revelou em sintonia com a artista. Foi uma demonstração artística sóbria e séria, cruzando mundos de uma forma orgânica e provando que A Negra é um projecto sobre o qual ainda tem muito para nos contar.

 


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