[Fotos]: ©Vera Marmelo
Nada parece alheio à essência performativa da banda que desde 2009 tem feito avançar o rap a um patamar de experimentação genuinamente inovador e em constante mutação. O papel dos detalhes – por mais insignificantes que possam parecer – adquirem ao vivo uma dimensão expressiva, quase tão importante quanto os próprios instrumentos de criação musical. No fundo, como se cada um destes elementos não-musicais tivesse uma influência relativamente vital na estrutura do espectáculo perante a perspectiva de evocar ou criar um ambiente propício ao fluir da sua música. O brilho dos panos orientais que emanava do palco, os vários objectos dispostos sobre as duas mesas de apoio e a luz que foi propositadamente tornando-se escassa ao longo do concerto contribuíram, à sua forma, para um magnífico ritual como apenas os grandes magos conseguem.
Escassos minutos antes da banda se apresentar, escutou-se uma introdução reveladora de onde afinal os Shabazz Palaces têm o coração e a mente colocados. “Space Is The Place”, o sumptuoso clássico de Sun Ra, ecoou assim na sala aquário alertando de que algo imenso estava prestes a explodir. E foi com a melodia serpeante dos primeiros momentos de “Forerunner Foray” que se iniciou uma majestosa comunhão de duas horas e meia, uma duração raríssima nos seus concertos e uma clara prova de amor a quem se deslocou ontem à noite à Zé dos Bois, em Lisboa, para os ver e escutar.
A cor intensa da cumplicidade entre o anfitrião Ishmael Butler e o mais discreto Tendai Maraire enche todo um palco com uma facilidade desarmante. Historicamente, trata-se de duas figuras relevantes num certo circuito artístico: o primeiro enquanto membro dos inesquecíveis Digable Planets; o segundo enquanto multi-instrumentista omnipresente em inúmeras colaborações e encarnações.

Perante o público demonstraram uma entrega sem adornos desnecessários, oferecendo passos de dança e uma coreografia singular em doses certas, sem nunca ofuscar a atenção para o rumo que a nave Shabazz Palaces seguia. Entre os dois álbuns amplamente celebrados – Black Up (2011) e o mais recente Lese Majesty (2014) -, houve espaço para temas mais obscuros e um conjunto de galáxias sonoras ainda por definir e registar, fruto da improvisação habitual destes titãs. Ainda que o rap seja a raíz das suas composições, a árvore genealógica é tão plural quanto díspar, fazendo da banda uma espécie de sonho molhado para melómanos.
Se é verdade que por aqui paira muita da visão afro-futurista de Afrika Bambaataa, George Clinton ou do supra-citado Sun Ra, também é certo que essa parcela convive de modo entrelaçado com o shoegaze mais abstracto patenteado por uns My Bloody Valentine ou Loop, reservando ainda lugar cimeiro para linguagens sonoras fora do mundo ocidental. O resultado é um objecto irremediavelmente mestiço e sobre-humano, ainda mais vivaço e incontrolável ao vivo. Neste sentido, é curiosa, mas lógica, a fusão observada entre o digital e o orgânico que o duo investe nas suas performances: ao lado do laptop e dos pads, estão as congas e o prato de choque, prontos a interagir com as máquinas.
“They Come In Gold” e “An Echo From The Hosts That Process Infinitum” protagonizaram alguns dos pontos altos mais físicos do serão, num registo negro e musculado. Porém, e recuperando a noção de que um dos naipes da banda continua a ser a diversidade de atmosferas libertadas pelos seus poros, houve a meio do concerto um instante de absoluto transe – daqueles que merecem uma devoção colectiva incondicional – em que Maraire interpreta na sua mbira uma peça ao sabor do momento, simultaneamente doce e melancólica, levando a plateia a sobrevoar os vestígios de uma África ancestral profunda; tudo a vapor lento e em plena indução espiritual num dos retratos mais tocantes da noite.
Sala lotada, atenta e profundamente agradecida pela ocasião, este regresso dos Shabazz Palaces a Lisboa sublinhou a voz que detêm hoje em dia na música contemporânea (e a curiosidade do que ainda poderão acrescentar num futuro próximo). Ainda que o termo se tenha banalizado, existem motivos mais que suficientes para acreditar que esta foi uma passagem interestelar não menos que épica em todos os sentidos possíveis.

Nuno Afonso
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