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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 12/03/2026

Com uma nova fornada de discos.

O regresso da Loveland Music

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 12/03/2026

[Uma comunidade que gira em torno de Jakob Bro]

Antes de se afirmar em definitivo como um dos mais importantes músicos criativos contemporâneos, através dos cinco álbuns de estúdio — Gefion (2015), Streams (2016), Returnings (2018), Uma Elmo (2021) e Once Around the Room (2022), todos eles obras-primas — que editou pela ECM, Jakob Bro vinha já construindo um corpo de trabalho significativo, lançado pela sua própria editora, Loveland Music: a trilogia Balladeering (2009) / Time (2011) / December Song (2013) e, também, o projecto BRO/KNAK (2012). Ora, recentemente, Bro decidiu reactivá-la e expandir o seu âmbito: começando com a banda sonora que compôs para o documentário Music for Black Pigeons (2022), de Jørgen Leth e Andreas Koefoed, em Março de 2024, seguiram-se, a partir do final desse ano (e sem abrandar desde então), uma série de lançamentos de manifesto interesse.

Este regresso da Loveland Music vem pôr ainda mais em evidência algo já patente na discografia em nome próprio do músico dinamarquês: Bro não é apenas um compositor-guitarrista, mas um compositor-produtor de excepção. Por outras palavras, o seu trabalho enquanto produtor de álbuns de outros músicos (como, por exemplo, Mark Turner, Thomas Morgan ou Palle Mikkelborg) não deve ser visto como algo inteiramente distinto do seu trabalho enquanto compositor-guitarrista, mas antes como uma extensão deste último — isto é, como mais uma vertente, não menos fundamental, da sua visão artística sui generis. Já nos seus próprios álbuns se notava um meticuloso trabalho de produção, envolvendo decisões que diríamos sempre composicionais, a começar pela escolha dos músicos certos para articular essa visão. O mesmo acontece, agora, em álbuns em que não participa enquanto instrumentista.

De certa maneira, a Loveland não é apenas uma editora, mas a expressão de toda uma comunidade artística que gravita em torno de Bro: um conjunto de músicos criativos, todos eles dotados de uma voz distintiva, unidos por certas ideias de liberdade criativa, contenção, lirismo, timbre ou espaço. Comunidade essa que vem definindo aquele que poderá ser um novo capítulo na música criativa contemporânea, marcado por uma estética própria, pós-ECM, integrando elementos do jazz europeu (em grande medida, uma invenção americana), da ambient, do minimalismo ou de certas músicas ditas experimentais.



[Thomas Morgan: Around You Is A Forest]

De entre os vários lançamentos da Loveland no ano passado, talvez o mais signficativo — e por certo o mais singular — tenha sido Around You Is A Forest, de Thomas Morgan, um dos músicos-chave da referida comunidade. Considerado por muitos — não implausivelmente — uma espécie de herdeiro de Charlie Haden, Morgan é, sem dúvida, um dos mais importantes sidemen do século XXI e alguém que, num espaço de duas décadas, deixou já uma marca incontornável na história do contrabaixo jazz. A sua estreia em nome próprio era, pois, um acontecimento sobejamente aguardado. E, como se isso não bastasse, na capa do álbum — mais um belíssimo trabalho do pintor Tal R, responsável, juntamente com o designer Claus Due, pela identidade visual da Loveland — surgiam alguns dos principais nomes do jazz e da música criativa dos nossos dias, tais como Ambrose Akinmusire, Gerald Cleaver, Bill Frisell, Craig Taborn, Henry Threadgill, Dan Weiss e Immanuel Wilkins, além do poeta Gary Snyder, o que aguçava ainda mais as expectativas. 

Ecoando, em parte, o histórico Closeness (1976) de Haden, Around You Is A Forest é constituído por uma série de duetos, mas não certamente o tipo de duetos que esperaríamos. À semelhança de “Ellen David”, a extraordinária faixa de abertura de Closeness, que junta Haden a Keith Jarrett, o álbum começa com o contrabaixista a solo: reconhecemos de imediato o seu som amadeirado, tão profundo quanto preciso, assim como a sua pungência e inventidade melódica. Passados apenas 40 segundos, no entanto, dá-se uma enorme surpresa, com a entrada em cena de um som nunca antes ouvido e, ao mesmo tempo, estranhamente familiar: um som exótico, algures entre o orgânico e o digital, entre cordas e percussão. Trata-se do som do WOODS, instrumento virtual programado por Morgan, cuja concepção é explicada em detalhe no seu brilhante ensaio “A universe of possibilities within their resource constraints.” Around You Is A Forest não é, pois, um conjunto de duetos entre Morgan e os referidos convidados, mas entre eles (incluindo o próprio contrabaixista) e o WOODS.

De um ponto de vista filosófico, o interesse desta música é imenso. Independentemente dos seus méritos estéticos, Around You Is A Forest é uma obra visionária, que alimenta seriamente a discussão em torno de binómios como humano-máquina ou natural-artificial. A lição mais profunda que dela retiramos talvez se possa ver resumida do seguinte modo: não há interacção, propriamente dita, entre humano e máquina; há antes acção humana condicionada pelos parâmetros estabelecidos pela máquina — por sua vez, uma criação humana. 

Registados em 2016, todos os sons do WOODS que aqui ouvimos foram gerados independentemente das contribuições dos referidos músicos, gravadas a posteriori, como reacção àqueles. Trata-se, portanto, de uma relação unilateral: neste contexto, o WOODS é como um músico surdo, ao qual os outros se têm de adaptar, sendo indiferente a estímulos exteriores. E, talvez mais do que o próprio discurso do WOODS, criação de Morgan, interessa ouvir o modo como cada um dos músicos consegue ser criativo face a imposições tão específicas, mas que, por outro lado, deixam muito em aberto. 

De um ponto de vista estético, o conteúdo resultante destes vários “duetos” — ou, mais precisamente, destas várias sobreposições — é bastante variável, embora a presença constante do WOODS contribua para uma certa unidade do álbum. De entre as nove peças que o compõem, há várias contribuições interessantes, mas gostaria de destacar as do próprio Morgan, de Taborn e de Threadgill, reveladoras da imensa inteligência musical destes três artistas, igualmente capazes de ocupar uma perspectiva que diríamos panorâmica e de atentar no mais ínfimo detalhe. São eles que, a meu ver, melhor escapam à tentação de acompanhar o WOODS ou de, quando muito, simular um diálogo com este. 

Fazendo justiça ao título, Morgan consegue encaixar o discurso do seu contrabaixo entre o do WOODS, digamos, deixando-se envolver por este, como que rodeado por uma floresta. Taborn, por sua vez, apropria-se do discurso do WOODS e integra-o em todo um contexto mais vasto: um verdadeiro jardim sonoro composto por uma série de camadas sobrepostas, incluindo sintetizadores e field recordings, em que o instrumento virtual se torna apenas um entre muitos outros elementos, não obstante ter sido ele, numa primeira instância, o catalisador de toda a composição. Já Threadgill joga com duas camadas adicionais, uma flauta e uma flauta baixo, que se articulam na perfeição com a sonoridade exótica do WOODS, dotando a peça de uma especial organicidade. Em suma, julgo serem estas as três peças que mais convincentemente superam a unilateralidade da relação WOODS-músico, com cada um dos intervenientes a servir-se das contribuições do instrumento virtual para criar algo manifestamente seu e, portanto, humano.


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