Notas Azuis #6: Thundercat / Kassa Overall / Sam Gendel

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [ILUSTRAÇÃO] Riça

Na coluna Notas Azuis vai abordar-se jazz, música livre, música improvisada de todas as eras e nacionalidades, editada em todos os formatos.


[Thundercat] It Is What It Is / Brainfeeder

Será que está em marcha uma reabilitação do lado mais meloso do jazz de fusão da década de 70 semelhante à que foi operada em torno da new age? Há pontos de contacto entre os dois processos: são géneros que viveram de uma certa efabulação mística e que rapidamente foram descartados pelos guardiões do (suposto) bom gosto, esquecidos e arrumados nos dollar bins das lojas de discos de segunda mão e depois lentamente recuperados por quem, de sampler na mão, buscou sempre matéria prima inusitada para insuflar em criações desalinhadas. Os discos dos Weather Report e dos Return to Forever, dos Crusaders e de George Duke eram os que iam ficando de lado nas secções de jazz que muito mais rapidamente viam voar os vinis da Strata East ou da Impulse ou da Blue Note. Volto a perguntar: poderá isso estar a mudar? Escutando o novíssimo trabalho de Thundercat, It Is What It Is, sucessor de Drunk, que já data de 2017, não é difícil concluir que poderá muito bem encontrar-se aí um dos mais sólidos argumentos para que corramos todos a adquirir os discos dos músicos e bandas atrás mencionados, mais os de Larry Coryell ou Mahavishnu Orchestra, de John  Tropea e, pois claro, Steely Dan, antes que valorizem para lá do bom senso. Em declarações à Wire, Stephen Bruner, o senhor que o mundo começa a conhecer como Thundercat, toca nesta ideia quando refere o quanto o mundo mudou com a revolução digital: “A Internet fez das coisas um mar gigante, em que tudo está ali mesmo à mão. Há sempre alguém que ainda não descobriste ou algo que possa estar a subir – e isso muda a paisagem rapidamente. Mas penso que é importante ser tão conhecedor quanto possível destas coisas. É isso que nos permite mover-nos livremente”. O conhecimento a que Thundercat se refere é também o das margens mais remotas da memória onde se poderão encontrar, lá está, os clássicos de fusão que o gosto se esqueceu de celebrar. E a ideia da fusão esteve sempre ligada à combinação de sons – o acústico e o eléctrico e o electrónico –, de filosofias – o budismo e o cristianismo primitivo –, de latitudes – África e o Oriente mais o espaço sideral -, mas também de pessoas: sempre foi um género altamente colaborativo, de cruzamento de virtuosos. Ora, Thundercat segue essa ideia à risca num álbum em que recruta Louis Cole, Steve Lacy dos The Internet, Steve Arrington dos veteranos funk Slave, Childish Gambino, Zack Fox, Ty Dolla Sign, Lil B ou o guitarrista brasileiro Pedro Martins. E em canções desarmantemente pessoais, quase sempre entregues num falsete meio dreamy, Thundercat desfila arranjos densos, floreados com muitas notas, em que o seu baixo abre caminho por entre folhagem espessa de ritmos, harmonias e melodias, com muitas guitarras e sintetizadores e Rhodes a ancorarem os arranjos na estética de fusão que animava boa parte dos artistas clássicos do género. E tudo com uma subtil presença do agora, com cadências que não permitem que se esqueça que por muito excêntricos que sejam os gostos de Thundercat, músico com um currículo tão vasto quanto o que se possa imaginar estender-se entre Suicidal Tendencies e Flying Lotus, ele ainda é um produto da era hip hop que não encaixa na sua música as divagações mais obtusas que expunham o virtuosismo em longos solos, preferindo antes temas mais concentrados. Afinal de contas, o álbum alinha 15 faixas e nem chega aos 40 minutos. Tudo é rápido, como os cartoons que Thundercat tanto admira e há até um tema com o revelador título “Dragonball Durag” que soa a lado B de single de grupo de fusão no arranque dos anos 80 (e isto é elogio…), com um solo de trompete que dura uns gloriosos 5 ou 6 segundos sendo depois submergido pelo arranjo carregado de teclados e guitarras entrelaçadas numa pesada tapeçaria sonora, mas que a voz sobrevoa com absurda leveza. Só classe, por aqui.


[Kassa Overall] I Think I’m Good / Brownswood

Kassa Overall, artista que se descreve a si mesmo como um “backpack jazz producer”, é um rapper/baterista/beatmaker que o ano passado surpreendeu quem porventura possa ter-se cruzado com Go Get Ice Cream and Listen to Jazz, tão desconcertante quanto excitante trabalho de estreia auto-editado que lhe abriu as portas da Brownswood de Gilles Peterson que agora apresenta este novíssimo I Think I’m Good. O título não deve ser traduzido como uma típica frase de auto-engrandecimento, antes como um “eu penso que estou bem” próprio de quem, infelizmente, conhece os mais negros abismos impostos pela bipolaridade (Kassa chegou a ser hospitalizado quando ainda era estudante e sofreu um episódio psicótico). A música, percebe-se perfeitamente escutando o novo álbum, é o interface com que Kassa Overall lida com a vida, com o mundo e em que expõe uma visão que aborda de forma emocionalmente inteligente o que significa ser negro na América de Trump em que existe um sistema prisional altamente penalizador para os seus pares. O encarceramento ou a claustrofobia, mas também a superação e a esperança são temas recorrentes neste álbum, explorados em textos vocalizados com inocente distanciamento algo infantil, mas também com assertivas e poéticas declamações que remetem para a longa tradição de spoken word associada ao jazz. A ideia do “backpack jazz producer” prende-se, como nos explicou Kassa Overall (em entrevista que brevemente será por aqui publicada), com a mobilidade, com a capacidade de estabelecer rápidas cumplicidades criativas com outros músicos: um laptop, uma placa de som e um microfone bastaram para registar contributos de Brandee Younger, Jay Ghandi, Courtney Bryan, Theo Croker e Joel Ross, J Hoard e Melanie Charles, Sullivan Fortner, Aaron Parks ou Geri Allen, a já desaparecida pianista de jazz que Overall credita como decisiva na sua formação artística (o baterista integrou a banda de Allen e fez com ela concertos por todo o mundo). Essa matéria recolhida por Kassa Overall – e que resulta do cruzamento de harpas e vibrafones, sopros e pianos, vozes e baixos – é depois tratada e adaptada a composições em que o jazz é apenas uma das coordenadas, com o hip hop a funcionar como elemento aglutinador e a soul a assumir igualmente parte da responsabilidade na particular fórmula que resulta no vibrante material deste I Think I’m Good. “Find me”, tema que inclui participação do cantor J Hoard, é um impressionante registo de condensação das complexas ideias de Kassa Overall: samples variados e piano cuidadosamente “choppado” e “loopado”, bateria e contrabaixo, vozes múltiplas, sintetizador e outros detritos sonoros electrónicos e certeiros cortes digitais na diferente matéria que aqui se organiza, tanto jazz como hip hop, tanto música concreta como poética confessional quase gospel – “seek and you shall find / searching for a new land”, escuta-se, como se a terra prometida se escondesse, afinal, dentro das nossas próprias cabeças. O que Kassa opera sobre a diferente matéria recolhida nas suas deambulações de mochila apetrechada às costas não é assim tão diferente do que Teo Macero fazia sobre as fitas que resguardavam as derivas dos colectivos comandos por Miles Davis, com as diferenças que decorrem das evoluções tecnológicas a não serem suficientes para apartarem dramaticamente ambas as práticas: ainda se trata de encontrar no registo da invenção pura o pedaço significante que se pode encaixar numa ideia maior. E no incrível e chave “Show Me a Prison”, tema originalmente “semeado” por Phil Ochs, Kassa expõe toda a sua angústia e dor profunda, que tem direito a justa colaboração “telefónica” da histórica activista Angela Davis. Incluído no catálogo da Brownswood, Kassa Oerall encontra assim adequado espaço para uma visão particular que entende o jazz como ponto de partida para um admirável mundo novo. Disco para reencontrar lá para diante, quando for hora de levantar a fasquia e perceber quais os registos que a superam e ficam para contar a história de 2020.


[Sam Gendel] Satin Doll / Nonesuch

Sam Gendel é um saxofonista e clarinetista californiano que se estreia em 2020 pela conceituada Nonesuch depois de nos últimos três anos ter gravado uma série de projectos de reduzida visibilidade para etiquetas como a Leaving Records (associada da Stones Throw). Apesar de partilhar com Kassa Overall (ou, já agora, e para citar outros artistas já abordados por aqui, Emma-Jean Tackray ou Makaya McCraven) uma clara dívida para com o hip hop, Gendell, como faz questão de esclarecer nas parcas notas disponíveis no seu site oficial, tem uma abordagem muito diferente na criação da sua música. O espantoso Satin Doll parte de uma criativa abordagem a uma série de standards e clássicos do jazz – de “Afro Blue” ao tema que lhe dá título, de “Goodbye Porkpie Hat” a “Freddie Freeloader”, de “O Ovo” a “Stardust”convocando, no processo, as vivas memórias de gente como John Coltrane ou Duke Ellington, de Charlie Mingus ou Miles Davis, de hermeto Pascoal e Lester Young – mas que resulta de sessões ao vivo, gravadas ao longo de 3 dias por Gendell no saxofone “e outras coisas”, Gabe Noel no baixo e Philippe Melanson na percussão electrónica. E, como explica ainda o autor, os temas neste álbum foram registados ao primeiro ou segundo take e, muito importante, sem a utilização de microfones, o que significa que mesmo o saxofone foi captado por via digital. O que é incrível é entender que a música carregada de “glitches”, envolta em permanente névoa electrónica, não resulta de tratamento posterior à gravação, da adição na mistura de efeitos e cortes, mas de gravação altamente processada em tempo real. “Afro Blue”, por exemplo, revela Gendell num esclarecedor “faixa a faixa” disponível no site oficial da Nonesuch, foi registado ao vivo no rehearsal dinner do casamento de um amigo, completamente de improviso e em frente a uma audiência de 200 pessoas: “pusemos os miúdos todos a dançar”, recorda o saxofonista, “foi uma noite divertida”. E isso rende um jazz altamente alienígena, futurista, mas que ainda assim acomoda, sobretudo por parte de Sam Gendel, o líder da sessão, uma complexa expressividade, muito mais textural do que outra coisa, quase levando ao extremo as ideias que, por exemplo, Jon Hassell aplicou electronicamente ao seu trompete. Na belíssima releitura do tema que Charlie Mingus dedicou a Lester Young, jazzman que não largava de vista o seu “porkpie hat”, e peça a que Joni Mitchell acrescentou uma bela letra, a estranha voz que se escuta não é humana, antes um programa de computador que “lê” o poema tocado por Gabe num teclado e depois canalizado para a pedaleira de Gendell, que manipulou o resultado em tempo real… É de busca de uma nova expressividade para o saxofone que este disco trata, invertendo no entanto o que parece ser uma tendência quase transversal nas mais modernas visões do jazz: se muitos discos que hoje nos entusiasmam vindos das vibrantes cenas londrina ou “los angelina” ou ainda de etiquetas como a Brainfeeder ou  International Anthem são o produto de músicos reais que ainda entendem o valor da comunicação orgânica e colectiva, mas que depois não descartam a possibilidade de submeter essa matéria a tratamento electrónico e a edição subsequente em estúdio, passando do palco ou da sala de captação para uma paralela dimensão digital, o que Gendell pelo contrário propõe é partir de um setup altamente condicionado pelas possibilidades que a electrónica oferece, mas tratar isso como ponto de partida para modelar a interacção colectiva em tempo real com novas possibilidades texturais e harmónicas. O resultado é deveras entusiasmante.

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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