Mulatu Astatke: jazz de outro planeta esta noite em Lisboa e amanhã em Braga

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

Atente-se: NAS ao lado de Damian Marley, Oh No, Dengue Fever, Fleet Foxes, MatthewDavid, J-Live, Killah Priest, Chubb Rock, Four Tet, Gaslamp Killer, Cut Chemist ou Royalz com Roc Marciano é tudo gente que se acercou, por via do sampling sobretudo, da música de Mulatu Astatke, um cavalheiro natural de Jimma, na Etiópia, e que há poucas semanas celebrou 75 anos. Um artista, qualquer que seja, não se valida pelo número de samples que forneceu à posteridade, como é óbvio, mas nestes casos, em que os samples não nasceram de uma qualquer estratégia pop de reavivar um hit que já possamos ter impresso na memória, é possível ver em cada sample uma vénia, em cada abordagem à monumental obra de Mulatu uma sentida homenagem pelas mãos de quem encontrou na sua música uma inesgotável fonte de maravilhamento. Esse modesto gigante sobe esta noite ao palco do Capitólio, em Lisboa, e amanhã pisa as tábuas do centenário Theatro Circo, em Braga. Um regresso ao nosso país que merece, pois claro, ser celebrado com aplausos.

Mulatu Astatke visitou o nosso país duas vezes em 2009: no início do ano para dar uma palestra no âmbito do segundo LX Taster da Red Bull Music Academy – uma iniciativa em que jovens músicos, produtores e DJs puderam conviver durante alguns dias num espaço pensado para beneficiar a criatividade e onde lhes foi dada a oportunidade de assistir a comunicações de verdadeiras lendas do universo da música – e depois para um concerto no âmbito da apresentação do espaço das Tercenas do Marquês, prometido então como futura base do Africa.Cont. Em ambos os casos, dava para perceber que o que claramente move este artista, ainda hoje, é a possibilidade de diálogo com gerações mais novas. No palco do Africa.Cont apresentou-se com os Heliocentrics, grupo descrito como colectivo de free funk ou de psych jazz e que provavelmente é todas essas coisas: liderado pelo baterista Malcom Catto, este projecto reúne músicos de grupos como os Soul Destroyers e Poets of Rhythm, já gravou com DJ Shadow e edita na Now Again, sub-label da Stones Throw, casa de algum do mais interessante hip hop independente produzido nos Estados Unidos. Confusos?

O criador do “ethio jazz” proferiu a sua primeira palestra a convite da Red Bull Music Academy em Toronto, em 2007 (num quadro que incluía oradores como Don Buchla, um dos inventores do sintetizador, ou Tony Allen, baterista de Fela Kuti), e foi também a convite da mesma instituição que um ano depois se apresentou ao vivo com os Heliocentrics em Londres, no clube Cargo. O resultado do cruzamento das capacidades colectivas e individuais dos Heliocentrics – cujo álbum de estreia, Out There, editado em 2007, é uma obra-prima de fusão entre o músculo rítmico do funk e as possibilidades harmónicas e texturais do mais avançado jazz, da música de laboratório dos anos 70 e do carácter progressivo de algum rock – com a visão singular de Mulatu rendeu um intenso e complexo espectáculo que os conduziu, já em 2009, à participação na série Inspiration Information da Strut, um espaço de encontro entre artistas de diferentes proveniências. E, provavelmente, é mesmo dos Heliocentrics e de Mulatu Astatke o melhor álbum de uma série cujo conceito base é o de cruzamento de nomes de diferentes gerações: Amp Fiddler com Sly & Robbie, Ashley Beedle com Horace Andy, Jimi Tenor com Tony Allen e, claro, Mulatu com os Heliocentrics.

A mesma Strut editaria em 2010 a primeira antologia global do mais fértil período criativo de Mulatu Astatke: New York – Addis – London, The Story of Ethio Jazz 1965-1975. É que havia, de facto, uma extraordinária história para contar.

 



A Etiópia, país de origem de Mulatu, é um território isolado, situado fundamentalmente num planalto na região do Corno de África, sem acesso directo ao mar. Apesar da invasão por parte da Itália fascista de Mussolini em 1936 (tentativa de ocupação que terminou em 1941), a verdade é que a Etiópia nunca foi colonizada e é um dos países mais antigos do mundo. Estes factos permitiram que a música da Etiópia desenvolvesse modos singulares (com base na escala pentatónica) que lhe dão o carácter distinto que possui até aos dias de hoje. Mas em meados dos anos 60, o jovem Mulatu tinha sede de mundo. Partiu primeiro para estudar em Inglaterra, onde descobriu o circuito de clubes e onde teve oportunidade de tocar com líderes de orquestra como Edmundo Rós, e depois para Nova Iorque, onde deu início à sua carreira discográfica com um single a que chamou, apropriadamente, “Ethiopian jazz”. Ao piano, no vibrafone ou nas percussões, Mulatu construiu uma música que aproximava o histórico legado etíope do jazz e das experiências latinas em voga na Nova Iorque de meados dos anos 60 e o resultado perdurou até aos dias de hoje.

Em 66, Mulatu editou numa pequena independente nova-iorquina dois volumes de Afro-Latin Soul com um quinteto formado com porto-riquenhos e afro-americanos. Voou então para Addis Ababa e tornou-se um arranjador e director requisitado, gravando com muitos dos músicos mais populares do seu país, como o grande Mahmoud Ahmed. No processo, introduziu na Etiópia instrumentos como as congas latinas, contribuindo para a modernização da música local e, sobretudo, valorizou a música instrumental com os seus lançamentos, num país devotado sobretudo à música vocal de carácter profundamente narrativo. Voltou a Nova Iorque em 1972, onde lançou o mítico Mulatu of Ethiopia, um dos segredos mais bem guardados da comunidade internacional de diggers que orbitava em torno do planeta hip hop na década de 90.

A entrada número quatro na fabulosa série Ethiopiques da editora francesa Buda Musique (em 1998) e, sobretudo, a exposição mundial obtida com a inclusão da sua música no filme Broken Flowers de Jim Jarmusch permitiram-lhe ganhar os favores de um público internacional. Foi a curiosidade dessa nova audiência que lhe permitiu conquistar a atenção que haveria de se traduzir nos convites que lhe foram endereçados por plataformas como a Red Bull Music Academy e que teria consumação directa em lançamentos como a já referida antologia lançada pela Strut.

Com extensas notas de Miles Cleret (patrão da fundamental Soundway que o entrevistou em 2005 para um revelador artigo publicado no número 14 da Wax Poetics) e fotos inéditas, New York – Addis – London, The Story of Ethio Jazz 1965-1975 impôs-se como o poderoso documento que a misteriosa e encantatória música de Mulatu já há muito exigia. E em cima de uma história passada enfim revelada ao mundo, Mulatu pode, enfim, voltar a reclamar um lugar no presente. Um ano depois de nos visitar, em 2010, o músico etíope participou na série Timeless da Mochilla de B+, a etiqueta do famoso fotógrafo californiano (com ligações a DJ Shadow ou Cut Chemist) que homenageou em concerto figuras como J Dilla, Arthur Verocai ou, claro, Mulatu Astatke. No mesmo ano, lançou, também na Strut, Mulatu Steps Ahead, projecto de encontro com a Either/Orchestra que, uma vez mais, lhe permitiu dialogar com uma geração mais nova de músicos apaixonados pelas suas próprias arrojadas invenções do passado. O projecto mais recente de Mulatu data de 2016 e é, uma vez mais, o resultado de um encontro, no caso com o grupo Black Jesus Experience com que gravou Craddle of Humanity.

Não há informações sobre a formação que acompanhará Mulatu neste seu regresso a Portugal. Mas nos últimos anos, o lendário e veterano músico tem-se apresentado ao vivo com um fluído grupo de músicos normalmente liderados por James Arben, flautista, saxofonista e clarinetista ligado aos Heliocentrics. A Step Ahead Band, assim se designa esse colectivo que secunda Mulatu, inclui normalmente os préstimos de músicos como Byron Wallen ou John Edwards, veteranos do circuito jazz que oferecem sempre sólida base para o mestre poder montar o seu discurso no vibrafone ou no piano. Será, certamente, esse o caso, esta noite em Lisboa e amanhã em Braga, imperdíveis oportunidades para escutar jazz que soa milenar e, como referiu um dia Brian Eno, “de outro planeta”.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu