Mulatu Astatke no Capitólio: tesouro vivo merece vibrante apresentação

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Hélder White

Um par de horas antes da abertura de portas do Capitólio, a renovada sala que serviu de cenário para o regresso de Mulatu a Lisboa, 10 anos após uma fantástica apresentação na Rua das Janelas Verdes à frente dos Heliocentrics, o senhor Astatke confessava-nos ter tido um óptimo Natal antecipado pela celebração em família do seu 75º aniversário. Isto para explicar que apesar de muito ter tocado na última década, um pouco por todo o mundo, tem igualmente conseguido aproveitar as recompensas que este segundo fôlego na sua carreira lhe ofereceu. Mas ouvindo-o à frente da Steps Ahead Band percebe-se igualmente que esta rodagem, além de frutos financeiros, lhe rendeu igualmente um assinalável fulgor musical. É que há dez anos, Mulatu não escondia da melhor maneira o deslumbramento típico de quem não percebia muito bem o que lhe estava a acontecer, depois de quase duas décadas de desaparecimento da sua obra do panorama internacional, com cada concerto a servir como um processo de descoberta do poder de encaixe das suas composições nas distintas capacidades dos jovens músicos europeus que o amparavam. Agora, percebe-se que o veterano músico conseguiu de facto criar uma eficaz ponte entre a tradição milenar etíope que carrega nos seus genes musicais e os modos modernos das novas gerações com que vai comunicando. E o concerto de ontem foi prova cabal disso mesmo.

A banda que acompanha Mulatu Astatke é de primeira água: James Arben na flauta e saxofone tenor, Byron Wallen no trompete, Daniel Keane no violoncelo, Alex Hawkins no piano, Richard Olatunde Baker nas percussões, John Edwards no contrabaixo e Jon Scott na bateria. Esta é praticamente a formação que gravou Sketches of Ethiopia, a mais recente criação de Mulatu, datada de 2013 (selo Jazz Village), com vários dos músicos (nomeadamente os sopros) a terem igualmente participado na criação de Mulatu Steps Ahead, álbum de 2010 lançado na Strut de cujo título deriva então a designação do colectivo que agora secunda o mestre etíope. E que colectivo. Wallen e Arben asseguram nos sopros toda a estrutura melódica que representa boa parte do carácter distinto da música de Mulatu, contribuindo igualmente para a densidade harmónica dos arranjos e demonstrando brilhantes capacidades solistas. Nas cordas, Keane e Edwards mostram-se igualmente superlativos, sobretudo o violoncelista que tem amplo espaço para impor o seu instrumento, preparado com uma afinação muito diferente da convencional, o que remete o seu som directamente para um outro tempo, uma outra dimensão, soando como se emergisse directamente das profundezas da história. O papel da secção percussiva é igualmente decisivo: a bateria soa sempre contida, mas é o pilar em que assentam todos os desenhos com que o resto do colectivo inventa as paisagens em que os nossos ouvidos se perdem, ao passo que os ritmos múltiplos coloridos pela percussão ajudam a manter a música energeticamente viva, vibrante e inesperada. E Mulatu, consciente da qualidade dos músicos que o suportam, oferece, tema a tema, alternado e amplo espaço para cada um demonstrar as suas capacidades de invenção em solos sempre assertivos, pertinentes e plenos de liberdade e invenção, nunca destoando da direcção para que o colectivo é permanentemente apontado pelo líder.

E em cima dessa complexa arquitectura melódica, harmónica, rítmica e textural, Mulatu vai viajando, entre o vibrafone, o piano eléctrico e as congas e tímbales, com solos que reafirmam a sua pertinência e a manutenção das suas lendárias capacidades. Do alto dos seus 75 anos, Mulatu não é um mero adorno icónico que serve para vender bilhetes enquanto os jovens à sua volta assumem o grosso das despesas musicais, mas um carismático timoneiro, o autor que coloca nos vívidos murais desenhados com som a sua definitiva assinatura. De “Dewel”, clássico do álbum de 1972 que lhe valeu o culto de uma geração de investigadores de vinil na década de 90, a “Yekermo Sew”, tema de 74 que, cuida Mulatu de explicar na sua delicada voz nem sempre compatível com o indesejado ruído colectivo que deseducadamente se desprende da sala lotada, lhe valeu, pela sua inclusão na banda sonora de Broken Flowers de Jim Jarmusch, em 2005, a recuperação da atenção internacional, passando pelo incontornável “Yegelle Tezeta” (que usei durante uns bons anos como indicativo do programa África Eléctrica que mantenho na RDP África), o alinhamento da apresentação de ontem no Capitólio representa um reportório que é um efectivo tesouro mundial, um património de valor incalculável mas que, felizmente, está vivo e merece regulares e intensas apresentações pela mão do seu autor em reputados palcos globais.

Foi assim, ontem, no Capitólio. E assim será, hoje, no Theatro Circo, em Braga.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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