MPS: o jazz da floresta negra

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

“Nunca houve jazz puro. O jazz foi sempre uma combinação de linguagens. No princípio o jazz era música de marcha, com um pouco de ritmo adicionado, misturado com blues.” Quem o diz é o vibrafonista Dave Pike, um dos nomes mais importantes do catálogo da histórica editora de Hans Georg Brunner-Schwer, a MPS. Pike, autor de belíssimos discos para a MPS como Noisy Silence ou Album, cedo assumiu o jazz como ponto de partida para a abordagem a outras sonoridades, como o rock psicadélico, as claves latinas ou o groove eterno da soul. Daí que tenha descoberto na MPS uma casa perfeita para as suas aventuras exploratórias. É que poucas editoras europeias a operar no jazz em finais dos anos 60 tinham uma atitude tão generosamente aberta perante a música como a MPS.

A frase de Pike citada acima é retirada de registos audiovisuais de arquivo incluídos na edição recente de Jazzin’ The Black Forest, um DVD que sucede a um livro com o mesmo título e à compilação Between or Beyond the Black Forest. Entende-se essa diversidade: para contar a fabulosa história desta editora, só mesmo recorrendo a sons, imagens e palavras. Porque não é fácil de entender como é que um milionário alemão, herdeiro do império Saba (fabricantes de rádios), conseguiu transformar a pequena localidade de Villingen, situada no coração da Floresta Negra, numa Meca para gigantes do jazz americano e europeu.

 



A história da MPS remonta ao início da década de 60, quando a administração da Saba decidiu financiar algumas gravações para terem música para o Sabamobil, um antepassado dos modernos sistemas de áudio para automóveis. Quando a Saba foi vendida a uma companhia americana em finais da década de 60, Hans Georg dedicou-se de corpo e alma à sua paixão, o jazz. E a sua sala de estar, onde muitos dos discos eram gravados, tornou-se num templo de liberdade para gigantes como Oscar Peterson, Duke Ellington, Monty Alexander ou Dizzy Gillespie que se juntaram à nata de músicos da Alemanha, como Albert Mangelsdorff, Joachim Kühn, Volker Kriegel e Wolfgang Dauner, para a construção de um catálogo deveras impressionante.

George Duke, igualmente no DVD Jazzin’ The Black Forest, afirma que a MPS “era uma editora muito experimental”, referindo-se ao facto de possuir um catálogo muito pouco convencional onde o swing, a música das big bands (Kenny Clarke e a Francy Bolland Big Band gravaram diversos álbuns para a MPS), o free jazz e uma série de outras sonoridades eram cultivados com idêntico fervor. O que não se explica uma única vez no filme Jazzin’ The Black Forest ou na generalidade da literatura “oficial” sobre a MPS é a relação da orientação estética desta editora com a memória recente da guerra. Pouco mais de 20 anos após o fim das hostilidades da Segunda Guerra Mundial, os “negros” começaram a chegar à idílica Villingen para gravarem em condições de luxo e serem tratados como verdadeiras estrelas, acarinhados pelo mesmo jet set a que Dave Pike tinha dedicado um dos seus clássicos na Atlantic. Este era um óbvio caso de paixão, que, enfim, podia ser exposta e cultivada por Brunner-Schwer com a ajuda do produtor Joachim Ernst Berendt, uma dupla com um total respeito pelo som puro que assim conquistou os próprios músicos. Oscar Peterson, por exemplo, dizia que ao ouvir os seus discos da MPS se sentia exactamente como quando se sentava ao piano.

Esta abertura – tecnológica, estética, social até – deixou marcas e conquistou uma nova geração: na década de 90 foram as compilações Mojo Club que se abasteceram abundantemente no swingante catálogo da MPS, aproveitando os cruzamentos com a música brasileira (George Duke) ou com o groove psicadélico (Dave Pike) para incendiar pistas de dança; os Jazzanova aproveitaram um clássico “espiritual” de Ira Kris na MPS para reclamar o seu nome; e, já neste século, a editora Crippled Dick deu-nos o livro, o disco, o DVD e até a t-shirt. MPS pop? Nada disso. MPS duradoura, carregada de clássicos (as entradas no seu catálogo chegam perto das 500 referências) que foram o resultado de uma visionária abordagem ao mundo do jazz, sem preconceitos ou fundamentalismos.

 


//

*Texto originalmente publicado em jazz.pt e recuperado agora a propósito do 50º aniversário da editora alemã. 

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu