Maze sobre “O Negro Luto”: “São algumas cicatrizes e nós que quis sarar e desatar dentro de mim”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Hudson Barros

Lançado há uma semana, “O Negro Luto” é a mais recente faixa de Maze a solo. O tema foi trabalhado com Spock, produtor do Contentor Records, e o videoclipe foi realizado pelo próprio rapper.

Apesar do projecto Dealema estar no topo das prioridades para André Neves — o quinteto estreia-se amanhã no formato de banda no Pérola Negra —, os trabalhos a solo continuam a fazer parte dos seus planos. Maze editou Entranhas pela Banzé, em 2016, álbum do qual extraiu vários videoclipes para o seu canal no YouTube, e “doou” versos para músicas de Mundo Segundo, Bispo ou, mais recentemente, Sam The Kid na compilação Mechelas.

“Podemos dizer que é um avanço de um dos projectos que tenho em mãos”, revela ao ReB sobre o novo single, não levantando, para já, o véu sobre esse trabalho. A paternidade fez com que abrandasse o seu ritmo editorial e as ideias foram-se acumulando no bloco, pelo que agora é a altura certa para as colocar em prática. “2019 vai ser um ano em que vou estar extremamente activo”, deixa o aviso.

“O Negro Luto” assinala também uma nova parceria, já que é a primeira vez que o veterano trabalha com a Contentor Records, mais precisamente com Spock, produtor que admitiu seguir “há algum tempo”. Após vários convites para os visitar no complexo dos Nirvana Studios, o instrumental de “O Negro Luto” despertou uma maior urgência em juntar estes dois talentos de gerações diferentes. “Mal o ouvi sabia que tinha coisas para escrever ali e no mesmo dia escrevi o primeiro verso e concluí a música no dia seguinte”, explica Maze. “Tenho a certeza que vamos fazer muito mais coisas juntos daqui em diante.”

 



Que “cicatrizes” e “nós” são estes a que fazes alusão no novo single?

Neste caso, as cicatrizes e nós a que me refiro neste tema são questões do passado que nos acompanham, que todos temos por resolver, das nossas infâncias, adolescências ou mesmo da vida adulta. Situações emocionais marcantes que nos condicionam e impedem de progredir no que deveria ser o nosso crescimento. Estas são algumas cicatrizes e nós que quis sarar e desatar dentro de mim, questões pendentes do passado, questões essas que, enquanto não mergulharmos profundamente nos nossos abismos, não se resolvem e vão-nos mantendo nos nossos padrões comportamentais condicionados por esses fantasmas.

Há um ano lançámos no ReB um artigo que focava a escrita de rap enquanto processo de descompressão psicológica/emocional. Para ti, que tens uma das carreiras mais longas em Portugal dentro do género, ainda sentes que o hip hop funciona como uma terapia?

O refrão da minha música “Entranhas (Das Tripas Coração)” é um exemplo perfeito disso: “Exponho-me em demasia, verto vida em poesia/ Escrevo, recito, é a minha terapia/ A Lua é companhia até receber o dia/ A luta continua, a fé é pura magia”.

Toda a minha obra é biográfica. Não me consigo distanciar dessa abordagem. Faço música com o principal objectivo de despertar sentimentos ou accionar pensamentos em quem a ouve. Durante muito tempo ofereci resistência à escuta dos meus próprios temas. Fazia as músicas, libertava-as, e a partir desse momento já não eram minhas, eram de todos e não mais as revisitava. Actualmente penso de forma diferente, ouço o meu repertório destes 22 anos e sinto que tudo o que escrevi era não só para todos mas principalmente para mim. Muitas das letras são poemas de confiança que precisava de escutar ou então profundas catarses. Percebi que, sem dúvida, a música que faço, tal como a minha postura na vida, visa a formação integral do indivíduo, mas é acima de tudo uma forma terapêutica de eu resolver-me enquanto ser humano, e tenho a certeza que a maioria dos MCs concorda comigo e usa a escrita de forma terapêutica. Quem recebe a música também a transpõe para a sua própria experiência, usando-a de forma curativa.

Neste tema contaste com a ajuda do Spock, um dos talentos do boom bap mais escondidos na cena lisboeta, e da sua família da Contentor Records. Como é que surge esta colaboração?

Eu já seguia e admirava o trabalho do Spock há algum tempo e já me tinha cruzado inúmeras vezes com o pessoal da Contentor Records, mas não tinha ainda tido disponibilidade para os visitar no estúdio deles, apesar dos múltiplos convites. Entretanto o Spock enviou-me este beat, mal o ouvi sabia que tinha coisas para escrever ali e no mesmo dia escrevi o primeiro verso e concluí a música no dia seguinte. Estou muito grato ao Spock e a todo o pessoal da Contentor Records, que me receberam como família. Senti-me mesmo em casa e tenho a certeza que vamos fazer muito mais coisas juntos daqui em diante.

O que é que simboliza este “O Negro Luto” no teu percurso? Podemos aceitá-lo como a primeira amostra de um novo projecto que tens em mãos? O que reservas para 2019?

É um tema que vem reforçar a linha que sempre segui — é rap cru, com sentimento para provocar sentimento. Podemos dizer que é um avanço de um dos projectos que tenho em mãos, mas que, para já, vou manter em sigilo.

Sinto que atingi um ponto de maturidade criativa em que sei perfeitamente o que quero e o que estou a fazer. Não pretendo agradar ninguém, só quero ser eu e fazer o que mais me dá prazer fazer. 2019 vai ser um ano em que vou estar extremamente activo. Desde o Entranhas, fui pai e tive que abrandar o meu ritmo criativo porque a vida assim o impôs. Agora estou noutra fase da vida, com muitas ideias, tenho alguns projectos colaborativos a desenrolar, vou experimentar algumas coisas fora da minha zona de conforto, estou com força, motivação e criatividade. Portanto, muita coisa vai acontecer em 2019. E Dealema é sempre a minha prioridade — o pentágono está alinhado, preparem-se para o que aí vem!

 


Dealema dão primeiro concerto de sempre com banda este mês

Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
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