A lista do ano de Ângela Polícia

[FOTO] Miguel Candeias

Fernando Fernandes distribuiu muito jogo em 2018. Embora o seu projecto Ângela Polícia apenas tenha servido para protagonizar colaborações pontuais no decorrer do ano — “As Noites Contam Histórias” e “Vejo” ajudaram a matar as saudades que Pruridades nos deixaram —, o multifacetado artista bracarense deixou a sua voz gravada em mais um disco com os Bed Legs e aproveitou para se lançar noutros voos com a banda OSSO e em O Amante Negro.

Respondendo ao apelo que o Rimas e Batidas tem lançado a alguns dos artistas mais próximos da sua estratosfera, Ângela Polícia apresenta aos nossos leitores um verdadeiro guia sónico para ajudar a relembrar — ou até descobrir o que passou ao lado — o que nos deu o ano que ficou para trás, aproveitando ainda a oportunidade para sublinhar o pico de fertilidade em que a indústria musical se situa no presente.

“Antes de mais, quero deixar aqui explícito que não há melhores na música, isto não é uma competição para mim. Existe cada vez mais música a ser lançada e é muito mais exigente consumir, escavar, filtrar e classificar. Faço esta lista por consideração ao Rimas e Batidas, que tem feito um trabalho fenomenal na difusão da cultura das rimas, batidas e movimentos musicais. A lista que aqui recomendo são os artistas que mais me tocaram, cativaram ou influenciaram no ano de 2018.”

 


[MELHOR ARTISTA NACIONAL] HHY & The Macumbas

“Vi-os pela primeira vez no Milhões de Festa, há cerca de 2/3 anos, e não os conhecia. Fiquei completamente arrebatado com o seu som que misturava a tribalidade africana com ambientes urbanos, tropicais e industriais, tocado por excelentes músicos e com uma abordagem assumidamente dub. Durante o concerto, perguntei a um amigo do lado: ‘Quem é esta banda?’ E ele respondeu: ‘São do Porto, são os HHY & The Macumbas!’ ‘Uau! Estes gajos fazem exactamente o estilo de som que eu adoro e são aqui da terra?’ Cheguei a casa, ouvi músicas deles e fiquei fã. Este ano, lançaram álbum novo, o Beheaded Totem, um dos melhores do ano e que reforçou ainda mais o amor que tenho pela música deles. Todo o espectáculo que apresentam, a música de expansão espiritual e o conteúdo visual artístico em volta do seu trabalho fazem que com que diga que para mim são o artista/banda mais influente na minha pessoa e trabalho artístico.”

Menções Honrosas:

Phoenix RDC – “Adoro os temas dele, é imparável, tem mil flows, tem rodado bué e veio trazer uma atitude que muitas vezes peca no liricismo do rap tuga: raça!

Papillon – “Este ano lançou o Deepak Looper, um dos melhores discos deste ano, e considero que teve uma excelente evolução desde que apareceu nos meus phones e ecrã, seja na Liga Knockout, nos GROGnation ou nas colaborações que fez.”

 


[MELHOR ARTISTA INTERNACIONAL] Vulfpeck

“Vulfpeck trouxe de volta a alegria de criar e tocar música. Não quero com isto dizer que a malta tenha perdido a vontade de fazer música, mas quando vês vídeos dos Vulf a tocar em estúdio, percebes que algo na alegria de criar desvaneceu. Isso faz com que repenses o que andas aqui a fazer e ganhes outra vez motivação para criar ainda mais. Voltar a ganhar aquele sorriso que um dia fez com que te apaixonasses pela tua profissão.”

Menções Honrosas:

IAMDDB – “Voz, swag e videoclipes espectaculares.”

H.E.R. – “A reencarnação da Aaliyah no corpo da Lauryn Hill. R&b do melhor.”

Idles – “Um meteorito sónico e mensageiro que colidiu com o meu mundo este ano.”

 


[MELHOR PRODUTOR NACIONAL] Razat

“Sempre disse a toda a gente que ele era dos melhores que encontrava no meio musical e não só. Este ano perdemos um dos geradores e maiores impulsionadores musicais do nosso país e não só. Editoras internacionais já o editavam, os Noisia já passavam sons dele no seu podcast e não só. Ele produziu e colaborou com os melhores de todas as escolas, em todos os géneros, e não só. Este ano ele partiu, mas não pensem que é só. Não continuamos sós, ele continua em nós, no legado que deixou e na força que me move a mim e a todos os que o amavam e trabalharam com ele.”

Menções Honrosas:

Charlie Beats

Slow J

Here’s Johnny

José Arantes

Budda Guedes (Mobydick Records)

Lucas Palmeira (Audio Incal)

 


[MELHOR PRODUTOR INTERNACIONAL] Liam Howlet (The Prodigy)

“Grande regresso em 2018 de uma das bandas mais influentes das últimas décadas, que nos entregou em mãos um bombástico No Tourists. Apesar de já terem uma carreira de 28 anos, os cotas não perderam a pujança, pelo contrário, vieram trazer uma dose de juventude e adrenalina a todas as colunas que por aí bombam. Liam Howlett é o criador por detrás desta banda lendária. Eles tem-me influenciado imenso ao longo da minha jornada musical e era um dos produtores de referência do Razat. Esta é para ti, meu irmão!”

Menções Honrosas:

Tyler, The Creator – “O puto que influenciou toda uma geração, e não só, continua imparável.”

Zaytoven/Mike Will Made It/Metro Boomin – “Os big bosses da cena trap nos EUA.”

The Blaze  – “Duo electrónico que descobri este ano e que criaram um som e imaginário que não me deixaram indiferente.”

Yaeji – “Beats intensos e grandes bangers, com uma abordagem ingénua na lírica, mas calculista. Ouçam só!”

Travis Scott  – “O puto prodígio do trap, que produz, compõe, escreve, canta, realiza, etc. Adorado por muitos, odiado por outros, não deixa de ser uma grande referência para mim.”

 


[MELHOR FAIXA NACIONAL] “Ginga” de Sara Tavares

“Este som transportou-me logo para a minha infância, como um sabor que nos transporta para os tempos de criança, um cheiro que nos remete para as melhores férias da tua vida. Foi este o efeito que ‘Ginga’ teve em mim, a ginga da Mãe África que corre no meu sangue, na minha genética, que me faz dar por mim a dançar este som no meio da rua em pleno dia e no meio de desconhecidos. É este tipo de música que mexe comigo, é esta ginga que quero dentro de mim. Obrigado, Sara!”

Menções Honrosas:

“Flor de Maracujá” de Stereossauro – “A ponte entre o fado e o hip hop, entre o passado e o presente, cada vez mais reforçada.”

“Metamorfose, pt. 2” de Papillon – “A letra é impressionante, excelente atitude, batida grandiosa do FreshBeats e do Holly e um dos melhores videoclipes do ano.”

“Arrisca” de Muleca XIII – “Mais uma ponte entre as nossas nações irmãs numa grande batida feita pelo nosso grande mestre Sam The Kid, e uma prestação incrível da Muleca, que ainda não conhecia e fiquei impressionado. Voz envolvente e uma letra perspicaz, irmã!”

“Pé-de-Chumbo” de T-Rec – “Rapper emergente das Caldas da Rainha, que lançou este banger que me consumiu durante o ano! Procurem no SoundCloud. Tropa Maldita!”

“Sou Povo” de Lavoisier  – “Quando ouço este tema sinto as vozes dos meus ancestrais portugueses a correr-me pelas veias. Simplesmente lindo!”

 


[MELHOR FAIXA INTERNACIONAL] “This Is America” de Childish Gambino

“Foi o tema mais controverso, falado e dançado este ano, para além do ‘Despacito’. Veio mesmo a calhar, logo a seguir às eleições norte-americanas, para mostrar ao mundo o que é ser americano, como é viver nos E.U.A.. Filmar amigos a serem espancados, polícias racistas que brutalizam e assassinam habitantes, capitalismo desenfreado, consumo incomensurável de recursos e futilidades, guerra no sangue, religião hipócrita e mafiosa, etc. Esta é a máscara de um país que esconde dentro de si, todos os cenários de um país de ‘quarto mundo’. Além da crítica social, adorei a canção porque tem uma abordagem bipolar, coisa que adoro fazer nos meus temas. Ah! E já me esquecia do videoclipe, que está um mimo!”

Menções Honrosas:

“Street Fighter Mas” de Kamasi Washington – “Faz-me lembrar o Head Hunters do Herbie Hancock, no final de um filme de western spaghetti, sem perder aquele espírito urbano do jazz através da trompete, trombone e saxofone, que me fazem lembrar os sons dos carros, pessoas a falar e a confusão da cidade.”

“Kurrency” de IAMDDB – “Para fumar umas a swagar pelas ruas.”

“Praise The Lord (Da Shine)” de A$AP Rocky com Skepta – “A dupla perfeita.”

“Blue Lights” de Jorja Smith – “Palavras para quê? Simplesmente lindo. E linda! Eheheh!”

 


[MELHOR DISCO NACIONAL] Deepak Looper de Papillon

“Ouvi-o todo de rajada numa viagem de avião e ouvi-o várias vezes depois disso. Fiquei colado e é isso que se quer. Uma maturidade sem igual, para quem passou pelas dificuldades económicas, sociais, familiares e pessoais do nosso país, como ele próprio relata nos seus sons. Uma lírica muito bem cuidada, sem perder os calões, gírias e estrangeirismos da nossa geração, que o vai destacar como um dos melhores do nosso tempo, you know what I mean? Grande escolha nos beats e nas pessoas com quem trabalhou. Não tenho muito mais para falar, senão começo debitar excertos das letras dele e o que mais vale é ouvi-lo com os vossos ouvidos. Ah! E não se esqueçam que é apenas o seu primeiro disco a solo.”

Menções Honrosas:

Santa Rita Lifestyle de Conjunto Corona – “Os meus putos continuam no seu melhor, a mostrar todo um estilo de vida descentralizado (Gaia e arredores) que é preciso relatar e satirizar em forma de letras, batidas e videoclipes. Neste álbum são as bombas de gasolina, a religião, as marcas do consumismo, carros tunning, conversas de código ou de encher chouriço e as zonas de arredor que fazem a mobília dos temas. E os CC inovam sempre o conceito de disco para disco — já nos presentearam com uma caixa de comprimidos com uma pen lá dentro, um VHS revivalista dos tempos áureos do porno com clipe no PornTube e agora temos uma raspadinha que no fundo reflecte o vício de muitos portugueses. Olhas em tua volta e só vês portugueses a raspar. De onde vem este fenómeno? Os Corona são perspicazes nestes comportamentos de risco dos nossos conterrâneos. Parabéns, meus irmãos!”

Tardígrado de Karlon & Razat – “Um dos melhores deste ano, sem dúvida nenhuma! Foi lançado cá para fora sem grande aparato, com download grátis e teve apenas uma review do Rimas e Batidas. Um trabalho de génios, digo. Os beats geniais do meu irmão Razat e as letras e interpretações incríveis do Karlon. Neste álbum ouvimos uma faceta multifacetada do Karlon, ele desmultiplica-se em vários tons e timbres, chega a parecer outra pessoa ou um desenho animado. Um registo expansivo por parte dos dois artistas, que criaram aqui uma perfeita sinergia entre os seus mundos de criação.”

O Último Tango em Mafamude de dB – “O dB é um dos meus beatmakers favoritos, seja a solo ou no Conjunto Corona. Neste álbum, aborda uma época em específico e trá-la para o presente, os anos 80 na tuga. Os anúncios comerciais da altura, os passeios na praia com o cão, de fato de treino e corrente de ouro, almoçar pratos tradicionais nas tascas servidos em travessas de alumínio, lavar o Fiat Uno na rua com todo o orgulho e carinho e também o estilo de vida dos cantores de música ligeira da altura, nomeadamente o Marante. Adorei a abordagem do dB para este álbum em que invoca toda uma geração e estilo de vida em extinção ou em revivalismo.”

 


[MELHOR DISCO INTERNACIONAL] The Return de Kamaal Williams

“Em 2017 já tinha ficado abismado com um dos seus álbuns antecessores em Yussef Kamaal, Black Focus, que é dos melhores álbuns que ouvi nos últimos tempos. The Return é o desenvolvimento da linguagem e estética a que Kamaal Williams (aka Henry Wu) nos tem habituado — uma fusão entre funk, soul, r&b, hip hop e jazz, com especiarias cósmicas e ambientes nostálgicos, como perseguições policiais numa Miami dos anos 80. As maiores referências do género que compõe estão lá atrás da cortina, orgulhosos de certo, dos grandes músicos que actuam neste maravilhoso disco de Kamaal. Aqui fica um trabalho de excelência, que mostra que a nova escola de autores, músicos, compositores emergentes e contemporâneos não fica nada atrás dos tempos áureos da música moderna. Um eterno obrigado a todos os ancestrais e mestres que nos encaminharam neste percurso árduo da vida e da arte, mas o nosso momento é agora, esta é a nossa era e nós fazemo-la à nossa maneira!”

Menções Honrosas:

Oxnard de Anderson .Paak  – “Grande regresso depois de um incrível Malibu. Anderson volta em peso com um álbum mais cinematográfico, conceptual e polido que o anterior. Todo ele é produzido por Dr. Dre, que faz lembrar, em certos interlúdios do disco, os bons tempos de Marshall Mathers LP, ao lado de Eminem.”

Testing de A$AP Rocky – “Rocky é um dos artistas que, ao lado de Tyler, me deu motivação para seguir em frente com as minhas ambições numa altura em que não sabia o que fazer com as minhas capacidades. À parte de alguns conteúdos na sua lírica com os quais não me identifico, ele é uma grande influência para mim na ousadia, na irreverência, no risco, nos flows, na estética. Este ano chega com um disco mais experimental e distorcido, que mantém a sua vontade de expandir na sua arte e arrasar as mentes de quem o ouve. Ah! E os videoclipes dele são sempre bombásticos!”

Book of Ryan de Royce Da 5’9″ – “Um dos MCs mais completos que existem e é muito underrated. Ouvi este álbum duma assentada e é uma loucura. O pessoal tem muito por onde beber neste clássico contemporâneo em que há boom bap, trap, mil flows, milhões de punchlines e participações de luxo.”

ReB Team

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