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Fotografia: Eliseu Ferreira
Publicado a: 25/04/2026
Tags: maez

Um grito musical que também é dançante e leve.

“l1berdade”: repertório de Abril ganha uma nova canção assinada por maez

Fotografia: Eliseu Ferreira
Publicado a: 25/04/2026
Tags: maez

maez, nome artístico de Mara Nunes, regressa em 2026 com “l1berdade”, um grito do Ipiranga para o 25 de Abril.

Em conversa com o Rimas e Batidas, a artista explica a necessidade urgente de continuarmos a lutar pela liberdade, num contexto em que as mentes começam a regredir. Começamos pelo próprio nome utilizado por esta criadora vinda de Águeda. “maez é um alter ego que me permite fazer coisas e não me preocupar tanto com o que as outras pessoas pensam”, afirma. Esta desamarra criativa foi o empurrão que Mara Nunes sentiu para se libertar de correntes de julgamento.

Inspirada pelas canções de intervenção dos grandes autores de Abril, a cantora constrói uma narrativa que começa como uma carta à Liberdade, mas com uma antítese lírica que nos faz levantar a sobrancelha: “Só não me peças para ser livre”. Este verso traduz o que nunca ninguém refletiu. O cansaço de quem, entre trabalho e responsabilidades, nem sempre tem tempo ou energia para lutar pelos seus direitos. A canção é, assim, um grito de desespero e uma “chamadinha de atenção” para os limites da liberdade individual.

Produzido por Daniel Constantino e masterizado por Pedro Rafael, o tema de intervenção ganha uma nova roupagem. O jazz incorpora a eletrónica e a pop e a canção dá à luz uma atmosfera que oscila entre dança e introspeção. É um grito, sem dúvida. Mas é um grito dançante e leve.



“l1berdade” já conta com um videoclipe que tem o toque das Malcriadas, um coletivo artístico formado por pessoas queer que se dedica a desafiar normas sociais e a criar espaços de resistência através da arte. Com o mote “bad girls do it better”, a parte visual da música comprova a veracidade desta afirmação.

Parece simples: fundo branco, pessoas, e lip-sync. E para as mentes redutoras que ousam pensar que o cenário diminuiu a qualidade do tema, desenganem-se. Enalteceu, de forma substancial, a mensagem “São nestes momentos em que uma pessoa se sente minimamente livre”, confessa-nos Maez.

É certo e sabido que a música de intervenção surgiu como resposta direta a contextos de opressão política e social. Em Portugal, o clímax deste movimento deu-se, obviamente, quando o país se vestia com trajes ditatoriais, com a etiqueta: Estado Novo. A canção era usada como forma de resistência e mobilização social. E é isto que a artista promete e acaba por entregar.

Inspirada pelos músicos de Abril, como o mestre Zeca Afonso, maez constrói uma narrativa que começa como uma ode à liberdade, exatamente pelos tempos em que vivemos. A preocupação com os retrocessos nos direitos humanos, desde questões laborais até à autodeterminação de género, estão rent free na cabeça da artista. 

Para contextualizar: atualmente, em Portugal, 17 mil pessoas assinaram uma petição a pedir a legalização das Terapias de Conversão, algo que foi proibido em 2024, alinhando o país com recomendações internacionais que classificam estas práticas como prejudiciais e sem base científica. O objetivo é proteger pessoas LGBTQI+ de metodologias que tentam “corrigir” ou “curar” a própria identidade ou orientação. São verdadeiras formas de violência psicológica e — se se quiser ir mais a fundo — são comportamentos equiparáveis a tortura.

Quanto às condições laborais, temos, obviamente, a expansão dos contratos a termo e o uso abusivo de trabalho temporário e outsourcing, com inflação persistente, medidas que ameaçam retirar direitos a trabalhadores trans e não-binários e discriminação constante relativamente às mulheres e às minorias. “Estamos a caminhar num sentido que me deixa com medo”, confessa a cantora, sublinhando que a arte é uma das armas que possui para refletir estas inquietações. “l1berdade” torna-se, assim, mais do que uma canção: é intervenção política e social.

Se a música resolve? Não. Mas, através da voz, artistas contemporâneas levantam o punho e lutam contra isto. maez destaca que Capicua faz música de intervenção “completamente ligada ao hip hop, mas de forma brilhante”, mostrando sistematicamente a luta antifascista e o espírito de Abril, aplicado aos dias de hoje. E dá também como exemplo A garota não que traz “essa ideia de luta e de abrilismo para os dias de hoje”. A partir destas influências, maez também tenta lutar e, acima de tudo, alertar para a atualidade. O próprio título “l1berdade” sofreu de censura nas redes sociais.

A artista também nos explica o nome da faixa. O título surge com um “1” em substituição do “i” porque sempre que a artista utilizava a palavra “liberdade” ou “livre”, as redes sociais aplicavam o lápis azul e impediam-na de publicar o conteúdo que queria. “Decidi mudar o título porque muitas vezes usamos técnicas online para podermos falar das coisas sem sofrermos censura”, explica. O gesto, apesar de simbólico, é autoexplicativo: é uma palavra que devia ser positiva e torna-se alvo de restrição. A faixa denuncia assim esta antítese non-sense.

“l1berdade” é o novo single de maez, lançado na passada quinta-feira, no âmbito das comemorações do 25 de Abril. Um single de quase 3 minutos que parece leve, mas é pujante. Sejamos l1vres.


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