Kelsey Lu no Jameson Urban Routes: o sangue que nos liga — e as histórias que nos obrigam a ficar

[TEXTO] Miguel Alexandre [FOTOS] Ana Viotti

E assim aconteceu: de maneira severa, uma luz vermelha recortava a silhueta solitária de uma aparição em palco. Lentamente, a imagem de uma mulher era visível, vestida a rigor, com olhar certeiro, mas sereno, que pairava sob o Musicbox, em Lisboa. Os aplausos e os gritos de entusiasmo eram rapidamente substituídos por momentos de contemplação. A verdade é que se sabia que Kelsey Lu estava entre nós, era apenas imperceptível se era a mesma pessoa que conhecíamos a subir ao palco. Num jogo de sombras, pegou no seu contrabaixo enquanto gravações se reproduziam consoante as próprias improvisações da cantora. O seu ensinamento é a música clássica, mas Lu reescreve o cânone do cancioneiro dos velhos tempos enquanto se guia por uma escola contemporânea — de sons, mas também de sentimentos. A partir daqui não houve um tiro ao lado numa sequência infernal de canções não só absolutamente perfeitas, como entregues numa intensidade diabólica. 

O mote deste espectáculo foi o álbum de estreia, Blood, lançado no primeiro trimestre deste ano; guiou-se inteiramente por ele, não saindo muito das suas bordas – não havendo necessidade para tal. Este disco é, por si só, um exemplo de força interior incomensurável, com capacidade para se sustentar em dois pés. “Pushing Against the Wind” foi o motor de arranque, mostrando a grande devoção que dá às suas próprias palavras. Entre um folk psicadélico e uma cálida performance vocal, Lu balançava o corpo da direita para a esquerda, de uma forma pausada e graciosa, como se a própria música quisesse acompanhar os seus movimentos. As mãos rodopiavam em sentidos inversos e a voz carregava de feição arrojada as sílabas tónicas. De “Why Knock For You” a “Atlantis”, as ligações pareciam óbvias, quase como se fossem produzidas pelo mesmo corpo holístico: corpo este que sangra dor, mágoa, mas também que procura algo positivo a que se possa agarrar.

Entre músicas, Lu partilhava histórias pessoais com a audiência, relatos que advêm já de um conforto quase estabelecido com quem a ouve. Aliás, não só tais desabafos eram atentamente escutados, como reciprocados a cada verso, cada nota, cada suspiro. Desde o seu refúgio nos prados montanhosos de Nova Iorque às suas lamúrias por ter dado demasiado de si a um amor que azedou, este concerto foi uma verdadeira carta aberta e, tal como a tinta de uma caneta, ainda havia muito por escorrer.

“Chamei a este álbum Blood porque é um elemento presente em cada um de nós”, contou-nos. “Independentemente da nossa história, todos estamos ligados por aquilo que corre nas nossas veias. A música tem o mesmo significado”. Quando chegou o momento de interpretar a faixa-título, havia somente espaço para Lu: as luzes denegriam-se consoante o desenrolar da canção e a corda do seu contrabaixo tornou-se cada vez mais pesada. “Bodies written in the low/ Bodies hidden in the floor/ History has taught us all/ Hope is the answer”, cantou. De modo abrasivo, ela mencionou cada coração partido daquele pequeno espaço. Afinal, os sentimentos dela são facilmente detectados por quem fecha os olhos e baixa a cabeça, por quem se encosta no ombro da pessoa ao lado ou por quem decide apenas dar mais um gole de cerveja. Há várias maneiras de colmatar a dor e Lu chegou a cada um delas – a sua “academia” é baseada em tal tratamento.

O caminho que Lu segue é semelhante ao de várias artistas do género, como SZA, Kali Uchis e NAO: todas formam um espaço onde as relações interpessoais estão normalmente na linha da frente, caracterizadas por um fervor em partilhar cada sentimento à flor da pele. As experiências são vividas e relatadas na primeira pessoa, sempre com uma grande urgência em virem à superfície para respirar. A elas alia-se um estado de espírito onde a intencionalidade emocional é mais precisa, mais crua — um despimento de qualquer noção pré-concebida ou ideologicamente mundana.

Ao vivo, Lu sente que estes dilemas acabam por estar presentes. E é nítido ver tal acontecimento: são precisamente as situações mais desnudadas, onde a voz e a deliberação são mais claras, que conquistam. Mas no seu estado de graça, foi nesta fase que tudo se tornou mais difuso. Mesmo os temas mais sóbrios de Blood acabam por perder parte da carga dramática, isto porque quando ultrapassada a primeira metade do espectáculo, o seu rumo mudou drasticamente. Chegámos aqui aos grandes êxitos – “Foreign Car”, “Due West”, “Poor Fake” -, sem qualquer dúvida, os momentos mais ansiados da noite. Não apelando tanto à assistência, as interlocuções foram permutadas por remixes descabidos de música house; os interlúdios clássicos e etéreos passaram a ser ouvidos em áudios pré-gravados; o contrabaixo tornou-se num adereço e não propriamente no instrumento principal. Mas Lu manteve-se firme enquanto dominava cada passo de dança e cada interacção com o público. Em “Due West”, especialmente, ouviu-se um uníssono lá no fundo da sala e uma onda de braços levantados na fila da frente.

É importante referir que nenhuma outra música soube comunicar de forma tão directa e única como “I’m Not In Love”. Em entrevista ao Rimas e Batidas, a mesma tinha explicado que, para ela, a canção representava a maneira como olha para a música e como foi usada para quebrar qualquer tipo de padrão, seja ele sónico, convencional ou até mesmo inerente à natureza humana: “Os humanos têm capacidade para mais, para sentimentos e exploração, para se surpreenderem e entusiasmarem com algo novo e fresco”. A actuação foi precisamente isto: um ato não de pedir, mas de exigir sem pisar a linha vermelha da exibição ou do exagero. Lu introduziu-se sempre com uma voz tímida e resguardada, mas cantava e movia-se teatralmente. Há nela aspirações para ser algo mais do que é agora, e Lisboa viu claramente isso. Talvez daqui a cinco anos ela poderá cantar ao som de um género diferente, poderá mudar a cor do seu cabelo e nem sequer pegar num instrumento. Mas o sangue que tem dentro de si circulará da mesma forma.


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