Karlon Krioulo sobre Griga: “O sample esteve no comando e o resto foi-se construindo”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Carlos Brasco

Karlon Krioulo lançou hoje um novo disco. Griga é um upgrade a Passaporti e está recheado de convidados: Bdjoy, Carlão, Neuro MC, Sonny Rap, Helio Batalha, Dino D’Santiago, Boss AC (creditado como AC Firmino), Toni Rex, Sagaz, Mista Badia, Primero G, Maria Tavares, Charlie Beats, Prod Therapia, Ildo Lobo, Orlando Pantera e DJ X-Acto formam a lista de colaboradores. Silvio Rosado assina a concepção da capa de Griga.

Cada vez mais ligado às suas raízes cabo-verdianas, o rapper que anteriormente conhecíamos apenas por Karlon responde agora pelo nome Karlon Krioulo. À semelhança de Passaporti, a receita para o novo álbum tem como base as sonoridades de Cabo Verde e vai buscar o nome a uma senhora que tomava conta de Karlon, em Miraflores, enquanto a mãe estava no trabalho. “Perdi o contacto dela e nunca mais a vi”, contou ao Rimas e Batidas. “Depois vim a saber da notícia de que tinha morrido. Era uma senhora muito sábia.”

Griga é o terceiro álbum que Karlon lança este ano, sucedendo a Tinha K Ser — que recentemente viu nascer mais cinco temas-bónus — e Tardigrado, um projecto colaborativo com Razat. O rapper aproveitou também para estrear o seu próprio website e viu ainda Passaporti ganhar uma nova vida em vinil por intermédio da Rastilho Records.

 



Se as contas não falham, este é o teu terceiro lançamento de 2018. Que balanço fazes deste ano?

Sim, é a terceira edição este ano. O balanço que faço deste ano é bom, aprendi muitas coisas boas, aprendi a reciclar os pensamentos negativos, muito trabalho como sempre. Foi o costume e muita complexidade à mistura.

Indo ao teu novo disco, começamos pelo título: o que é a Griga e de que forma retrata aquilo que tens para nos mostrar no disco?

Griga é o nome de uma ama que tomava conta de mim na Pedreira dos Húngaros (Miraflores) enquanto a minha mãe ia trabalhar. O trabalho da Griga era apanhar papelão e vender, era uma trabalho muito comum nos jovens também. Ela chamava-me sempre maroto. Gostava muito da energia e simpatia que ela me transmitia, e fazia-me um café da Ilha do Fogo do qual ainda hoje queria beber. Quando o bairro acabou e fomos realojados para os Guettos Verticais, em 1998 — esta dica é de um amigo meu chamado Orpheu — perdi o contacto dela e nunca mais a vi. Depois vím a saber da noticia de que tinha morrido. Era uma senhora muito sábia. Daí esta minha homenagem.

Falas de alguns dos colaboradores que tens no projecto num post que fizeste no teu Facebook. De que forma ocorreram estas participações? São participações directas ou é mais uma espécie de homenagem que lhes fazes?

De todas as pessoas que convidei sinto um carinho muito especial, mesmo aqueles que falecidos, dos quais comuniquei com os familiares para o uso das suas obras. Quero mandar uma saudação à Maria Lobo e à Darlene Barreto (filha de Orlando Pantera) pela forma tão gentil como me trataram. Com o Ildo Lobo, falando nessa faixa, levei três anos a perceber o conceito até escrever o tema “Sol na Céu”, que ia ser um tema para o Passaporti mas não estava preparado na altura para escrever, faltava mais maturidade e pesquisa. De toda a malta que convidei temos muita ligação em comum, que é o amor à música, e o processo fluiu. Enquanto ia produzindo, vinham a propósito as pessoas certas para os temas, de uma forma natural. Um grande abraço a todos os que colaboraram no disco. Gostava de fazer este destaque, passou a vida inteira desde que o conheço, ao Primero G: crescemos juntos, foi ele quem me ensinou a produzir desde muito novo na Yamaha QY-10, nos anos 90, e hoje fizemos um som juntos. Mas foi tudo de uma forma directa.

Quanto às batidas, trabalhaste com quem e que sonoridades quiseste explorar?

O disco foi inteiramente produzido por mim com excepção de três temas. Dois deles produzidos pelo Charlie Beats — o “Foi Sodadi” tem a colaboração de outros músicos — e outro produzido por Prod Therapia, que é o tema “11º Ilha”, com o Primero G. Os outros oito temas foram produzidos por mim. As sonoridades foram fluindo consoante os samples que ia usando. O sample esteve no comando e o resto foi-se construindo.

Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira

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