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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 06/09/2021

Um pilar editorial do rap crioulo.

Karlon e os 20 anos da Kreduson: “Funciona como um diário”

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 06/09/2021

Karlon Krioulo & 20 Elementus é a compilação comemorativa do 20º aniversário da Kreduson Produson e conta com contributos de Mini God, Bdjoy, DJ Glue ou, claro, Karlon Krioulo.

É um dos pioneiros da cultura hip hop em Portugal e um dos maiores impulsionadores do rap cantado em crioulo. Durante a década de 90, o MC juntou-se a Praga na dupla Nigga Poison, um dos projectos da cena tuga que mais notoriedade adquiriu com o virar do milénio. Podia Ser Mi, trabalho de apresentação dos dois MCs, foi lançado em 2001 e serviu de mote para a criação da Kreduson Produson, um pilar editorial do rap crioulo que comemorou 20 anos de vida no passado dia 8 de Abril. Antes de terem colocado um ponto final no grupo, que ao vivo se apresentava com DJ Maskarilha, um destes 20 Elementus, nos pratos, o par assinou os discos Resistentes e Simplicidadi e chegou a ser nomeado para os Globos de Ouro.

Com o adeus dos Nigga Poison, a Kreduson Produson passou a ser uma espécie de diário musical de Karlon, que por lá edita toda a sua música bem como a daqueles que o rodeiam e fazem parte da sua biosfera criativa. Grande parte desses companheiros de viagem surgem agora em Karlon Krioulo & 20 Elementus, um longa-duração produzido pelo próprio Karlon sob o pseudónimo Dinstru, o nome que utilizou para assinar Dinstru​(​mental) Vol​.​1, a primeira marca que deixou em 2021 — o álbum Nada Ka Muda e o singleEduka” (com DJ Núcleo e MGBeatz) emergiram nos meses seguintes.

O rapper e produtor trocou algumas impressões com o Rimas e Batidas acerca do passado, presente e futuro da label que fundou há duas décadas.



A Kreduson faz 20 anos mas a tua carreira é um bocado mais longa do que isso. Em que contexto surge a iniciativa de criares a tua própria editora?

A Kreduson Produson surge na altura em que estava a preparar a produção do Podia Ser Mi, o EP dos Nigga Poison. Antes de ter feito a edição física com a Sony, senti a necessidade de criar uma editora, a minha label, porque sempre tive uma grande curiosidade pelo lado da gestão, influenciado pelo Puff Daddy. Ele fazia todo aquele trabalho, bem feito, de lançar artistas — do Craig Mack ao The Notorious B.I.G.. Eu via aquilo pelas revistas. Independentemente da lírica dos artistas que ele lançava, a mim interessava-me aquela parte de backoffice. A editora Kreduson Produson surgiu dentro desse contexto, de sentir necessidade de ter a minha label e de lançar artistas. O aniversário assinala-se a 8 de Abril, que foi o dia em que eu dei aquele espectáculo com a produção do Chapitô, em 2001. Eu tinha 21 anos.

Estamos perante um dos selos independentes mais antigos ainda em actividade dentro do hip hop em Portugal. Que balanço fazes destas duas décadas recheadas de edições?

O balanço é positivo. Entretanto, tive ausente em algumas alturas por motivos de saúde. Na minha carreira a solo, marco sempre o símbolo da editora. Mas já mesmo antes se usava a sigla K.P. entre a malta aqui da zona, de Oeiras. Criava-se aquela sensação de família, de estarmos juntos e fazer connections com malta de outros bairros. Apesar de ser uma editora, a Kreduson dá uma liberdade total aos artistas de dizerem aquilo que bem lhes apetecer. Funciona como um diário. Mas o balanço é positivo e eu, cada vez mais, vou estando mais aberto para novos artistas. É positivo! Eu estou bué feliz por esta altura da minha vida. Estou contente e quero agradecer a toda a gente que está envolvida nos bastidores.

Assinalas o aniversário com o disco Karlon Krioulo & 20 Elementus, no qual te apresentas menos como rapper mas mais como produtor e curador. Além de servir de banda sonora para esta celebração, o que mais te moveu a criar um projecto desta dimensão e neste formato?

O que me moveu para abordar este formato neste projecto foi o facto de estar rodeado de muitos jovens artistas. Eu, de certa forma, quero contribuir para as criações deles. Cada um deles tem a sua visão e a sua identidade e trabalhar com eles é um privilégio. Sempre que eu posso fazer qualquer coisa, procuro estar em conexão com eles. Há aqui uma outra coisa relativamente ao formato em que vou ter de ser sincero: quando o Sam The Kid fez o Mechelas e convidou malta de várias zonas geográficas, vi isso como uma coisa muito interessante. Fez-me lembrar em algo como o Poesia Urbana da Horizontal, o Projecto Inoxidável do DJ Kronic ou o Timecode do Nel’Assassin, nos quais eu cheguei a participar. Tudo isso me serviu de inspiração. “Ok, eu tenho a label. Agora vou convidar artistas e produzir para eles. Fazer isso acontecer”. Foi isso que me moveu. Também me fez lembrar toda aquela cena dos Wu-Tang Clan, de terem várias pessoas da mesma zona a fazer a cena. Neste caso, fui eu a coordenar a cena. E é engraçado, porque em puto o Espada, dos T.W.A., chamava-me RZA [risos]. Sempre gostei dessa parte de estar no backoffice a gerir artistas e o RZA também é uma das minhas grandes inspirações. Eu li o livro dele, The Tao of Wu, que agora quem o tem é o Loading, que é meu sobrinho e participa nos 20 Elementus.

Contabilizas aqui vários convidados, entre caras novas e outras já nossas conhecidas. O que é que tiveste em conta ao escolher esta turma que te acompanha no teu novo trabalho?

A turma que está envolvida no projecto é composta por gente com quem eu já tinha trabalhado ou que acompanho há algum tempo o trabalho deles. São todos de diversos pontos dentro da zona de Oeiras, também conhecida como Zona O, apesar de alguns deles neste momento viveram fora. Mas as origens deles são daqui. Não vi nada melhor do que fazer um disco que tentasse ir ao encontro daquilo que tu conheces do trabalho dos outros artistas. Quando fiz os beats, fui pensando nos artistas que faziam sentido para cantar neles e foi assim que surgiu esta turma.

Todas as faixas foram gravadas no teu estúdio. Criar este projecto no quadro actual de distanciamento social trouxe-te algum obstáculo ou não te limitou de todo?

Todas as faixas foram gravadas no meu estúdio, sim. Em relação à condição social: eu respeito bastante as coisas que estão a acontecer no mundo, mas eu, de certa forma, tive de procurar desinformar-me muito rapidamente quando isto tudo surgiu. Procurei estar no meu mundo, com a minha sanidade mental, procurei não ter medo e “bora avançar, o que é, é”. Por isso, a única dificuldade foram aquelas restrições de não se poder ir de uma zona à outra, em determinadas alturas. Mas correu tudo bem. Não fiquei alienado com a cena da pandemia. Tive que me moldar, porque a vida continua, seja como for. Não vi nenhum condicionamento do confinamento neste trabalho. A malta mostrou-se disponível e fizemos acontecer.

Este é o terceiro disco que lanças em 2021. Os festejos ficam por aqui ou ainda há mais material da Kreduson para editar nos próximos meses, aproveitando a boleia desta marca redonda atingida pela tua label?

Tenho aqui mais material da Kreduson. Ando a gravar mais artistas. A malta tem vindo cá. Alguns não gravavam há muito tempo. Eu vou fazendo beats e gravo-os. Tenho umas quantas coisas no cofre. De momento, estou também a trabalhar num disco meu com um produtor. Posso revelar-vos que está a ficar um trabalho muito interessante, num contexto mais actual ao nível da produção, mais ao nível da revolução musical que está a acontecer agora em termos de hip hop. Já tenho algumas faixas. Ainda ontem esteve cá o NeuroMC, que também é rapper e é o meu hype man, e estivemos a discutir ideias. Posso avançar que ele vai participar no disco. Só não acho é que saia ainda este ano, porque eu quero fazê-lo com calma. Mas se estiver pronto este ano, eu meto-o nas plataformas e siga para a frente. É um bom trabalho que está a ser desenvolvido ao lado de um bom producer, de quem por agora só te posso revelar a zona geográfica — Linha de Sintra. O que eu tenho nos meus planos para editar este ano é o álbum de estreia do KGI 1ª Infantaria. Ele já tinha colaborado comigo em vários temas — é um dos convidados do Karlon Krioulo & 20 Elementus — e estamos agora a trabalhar num projecto dele a solo.


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