Kamaal Williams // The Return

[TEXTO] Vera Brito

The Return, do londrino Kamaal Williams, já conta alguns meses de vida, desde a sua edição em Maio do ano passado, assim como certamente já terá rodado bastantes horas nas playlists de muitos de nós, o que não nos impede que regressemos a ele agora, até porque está marcado para breve novo encontro do público português com o músico no festival ID e sobretudo porque é um desses discos raros capaz de surpreender com algo novo todas as vezes em que nos demoramos nele. Se no futuro alguém se lembrar em fazer um “10 year challenge” ao primeiro álbum a solo de Henry Wu enquanto Kamaal Williams — o seu “eu” espiritual e o nome que assumiu quando se converteu ao islamismo há alguns anos — irá perceber que The Return é uma obra por onde os anos não passam e que estará sempre vários passos à frente do seu presente.

Este álbum é também um regresso, ou melhor dizendo, um spin-off de Black Focus, de 2016, que granjeou o sucesso a Kamaal Williams e ao baterista Yussef Dayes enquanto dupla Yussef Kamaal. Os teclados cinematográficos solitários do curto minuto que dura a faixa que dá nome a The Return são despudoradamente retirados a “Strings of Light”, a música mais emblemática de Black Focus — uma incrível viagem galáctica que todos deveriam pelo menos uma vez percorrer. Não se percebeu ao certo as razões que terão levado à abrupta separação dos dois músicos, em pleno auge da aclamação que Black Focus recebeu, deixando até datas no calendário de concertos por cumprir. A ideia de que The Return possa ser também um disco em que Kamaal Williams terá tido a intenção de encontrar paz com esse passado é plausível, mas é apenas especulação nossa, até porque ambos parecem ter mantido uma boa relação, mesmo que por caminhos separados. E o legado que deixaram, embora curto, é substancial: é inegável a importância que Black Focus assumiu no actual panorama do jazz britânico, que atravessa uma entusiasmante renovação, com muitos músicos jovens a cruzar as mais diversas correntes nesse caldeirão de influências tão distintas que é a vibrante Londres. Em diversas entrevistas Kamaal Williams recusa-se a catalogar The Return como um disco de jazz, para ele este álbum explora outras sonoridades que possivelmente ainda não têm nome: “it’s a London thing” — refere, “it’s a Kamaal thing” — arriscamos nós.

Outra certeza que nos fica após ouvirmos The Return é a singular assinatura sonora dos teclados de Kamaal Williams ao longo das dez faixas: são feitos de uma atmosfera e texturas únicas, que nos permitem reconhecê-lo logo aos primeiros acordes — uma imagem de marca, se assim lhe quisermos chamar, ao alcance de poucos. Escavamos um pouco mais, por entre vídeos de YouTube, para perceber melhor a arte deste mago dos teclados, e encontramos este The Keys of Wu, uma espécie de introdução 101 aos teclados de Kamaal Williams, em que o músico apresenta as suas “armas” — como o Nord Electro a que atribui, modestamente, a responsabilidade do sucesso de “Strings of Light” – e nos mostra como deu vida a muitas das faixas de The Return. Visto assim parece até demasiado fácil, mas não passa apenas de uma ilusão nossa, porque o difícil, e aquilo que escapa a muitos músicos, é a capacidade saber juntar todas as peças e de encontrar os equilíbrios e desequilíbrios perfeitos.

 



O equilíbrio de The Return faz-se também de outros dois músicos excepcionais: MckNasty na bateria e Pete Martin no baixo. Longe de estúdios caros, The Return foi gravado em casa da mãe de Kamaal Williams, onde o londrino cresceu e a descontracção que esse ambiente familiar terá proporcionado percebe-se no improviso solto em muitas faixas — o gozo que se ouve e se sente na interpretação dos três músicos para “Broken Theme”, esse tema de broken beat carregado de funk, é algo que dificilmente sairia de um estúdio onde cada minuto é dinheiro. O mesmo se pode dizer de “High Roller”: três minutos de groove capazes de transformar qualquer introvertido na pessoa mais cool da sala. Um dos maiores feitos de The Return é conseguir, ao alcance de um stream, proporcionar-nos a experiência de estar num bar a ouvir um jam de músicos excepcionais, por entre nuvens de fumo e tilintar de copos, onde pelo meio até Mansur Brown aparece inesperadamente em palco, para nos sacudir a todos com uma descarga de adrenalina de guitarra eléctrica em “LDN Shuffle”.

Nem só de groove vive The Return e “Medina” é um calmo refúgio que convida à introspecção. Kamaal Williams é um homem para quem a fé é um pilar basilar na vida e num disco, onde faltam as palavras, as crenças e os valores com que se identifica podem também ajudar a descodificar outros detalhes deste trabalho. Comecemos pelo nome espiritual que escolheu e que não revela o porquê: “Kamaal” sabemos apenas que significa perfeição e excelência — será um desejo seu atingir essa plenitude? Quanto ao disco são várias as referências árabes: desde a capa onde aparece recortado numa inscrição, às boas-vindas auspiciosas da primeira faixa “Salaam”, também em “Medina” é fácil perdermo-nos por entre ruas labirínticas (já diz o cliché: de que temos de nos perder para nos encontrar) e, já no final, aparece também uma “Aisha” que não sabemos se é alguém em particular ou se assume a sua etimologia de “aquela que dá vida”. The Return parece-nos conter alguns mistérios que a nossa compreensão não consegue por completo descortinar e talvez seja isso que nos aguça a curiosidade em querer perceber um pouco mais estas escolhas de fé, sobretudo aqueles que sempre viram o mundo com olhos mais agnósticos. The Return não pretende, nem irá, converter ninguém, mas para todos os que apenas encontraram na música a sua única religião, pode bem ser um dos seus “livros” sagrados.

 


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