Joana Gama + Luís Fernandes: “Nós próprios somos surpreendidos com os resultados que vamos obtendo”

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Eduardo Brito

Quatro anos depois da estreia com Quest, a dupla formada por Joana Gama e Luís Fernandes volta a traduzir em música a óbvia cumplicidade criativa de que gozam. Desta vez, At The Still Point of the Turning World merece edição na Room40 de Lawrence English, depois de dois trabalhos lançados na portuguesa Shhpuma (além de Quest, Gama e Fernandes inscreveram nesse catálogo o trabalho Harmonies, de 2016, realizado com a colaboração de Ricardo Jacinto.

O presente registo mantém a toada exploratória do trabalho anterior, adicionando ao seu universo sonoro a entusiasmante paleta de um ensemble “de média dimensão” com 14 elementos da Orquestra de Guimarães que assim envolvem o piano de Joana Gama e a electrónica de Luís Fernandes com uma complexa rede de timbres e cores sonoras. Centrada na tradição de vanguarda da música erudita dos séculos XX e XXI – nada de surpreendente tendo em conta um currículo que toca nas obras de, entre outros importantes pontos cardeais do mapa da mais avançada música, Erik Satie ou John Cage – a música que Joana Gama e Luís Fernandes nos apresentam aqui é profundamente poética, resolutamente sombria e inquietante em igual medida.

Ao Rimas e Batidas, Luís Fernandes e Joana Gama abriram um pouco mais a janela que nos permite espreitar para dentro do fascinante mundo que têm vindo a revelar a cada novo lançamento.

 



Como é que esta edição acontece na Room40?

Quando terminámos a primeira fase de mistura começámos a pensar em editoras que poderiam ter interesse neste disco em particular. A Room40, cuja estética e catálogo admiramos, foi uma das escolhas naturais e ficámos contentes quando demonstraram interesse em editar o disco. O Lawrence envolveu-se imenso com a música e, sem planearmos, acabou por ter um papel bastante preponderante no disco, assumindo a fase final da mistura, produção e masterização.

O poema do T:S. Eliot que inspira esta nova obra fala do tempo, da permanência, do eterno. A música, por outro lado, existe no tempo, precisa do tempo, mas também o supera, de variadíssimas maneiras. E a Joana tem experiência directa disso, como quando se atirou a uma maratona de Satie. Como é que este At The Still Point… lida com o tempo ou com os vários tempos que existem?

Os nossos processos de trabalho partem sempre de improvisações mais ou menos livres que dão posteriormente origem a cada uma das músicas. Portanto, inicialmente há uma forma aberta, livre, que depois é condensada, formatada. Tal como temos feito sempre, procurámos os títulos depois de termos cada uma das músicas compostas e nesse processo de reflexão acerca do material, encontrámos a frase que dá título ao álbum e ficámos maravilhados com o poema do qual faz parte — “Burnt Norton” — daí que os títulos de todas as músicas venham desse poema. Os próprios títulos focam a dualidade que referes: “lucid stillness”, “the pattern is movement”, “perpetual possibility”… Este trabalho foi feito num período particular das nossas vidas, de questões contraditórias relacionadas com a existência, daí que neste álbum coexista de forma clara um pulsar anímico que lhe dá movimento e gestos plácidos repetitivos que quebram essa fluidez.

Vocês conheceram-se a propósito de uma homenagem a John Cage no âmbito do seu centenário e depois criaram o projecto Quest. Como é que o novo trabalho se encaixa nessa história? O que representa?

Em 2013, quando nos juntámos para experimentar tocar juntos, não fazíamos ideia que estaríamos agora a lançar o terceiro disco em conjunto! Depois de termos rodado bastante o QUEST, o nosso primeiro disco, que foi editado pela Shhpuma em 2014, mantivemos o trabalho em conjunto e em 2016 lançámos o HARMONIES, em trabalho em trio com o Ricardo Jacinto criado à volta da música e do imaginário de Erik Satie. Para além disso fizemos duas bandas sonoras — para filmes do Manuel Mozos e do Eduardo Brito — e uma versão da “Music for Amplified Toy Pianos” de John Cage, o nosso “padrinho ausente”, como lhe chamou o Gonçalo Frota, um convite da Digitópia. E foi com surpresa, e alegria, que fomos desafiados pelo Rui Torrinha, director artístico do, Westway LAb Festival a criar algo original para piano, electrónica e ensemble a ser estreado na edição de 2017 com a Orquestra de Guimarães. Inicialmente pensámos em usar uma orquestra grande, mas chegámos à conclusão que, para o que queríamos explorar, o ideal seria um ensemble de uma dimensão média – neste caso, 14 músicos. Os três discos são muito diferentes, sentimos que estamos a fazer caminho e nós próprios somos surpreendidos com os resultados que vamos obtendo.

No press release escrevem que neste álbum trabalharam um para o outro e um contra o outro. Exactamente como é que uma obra destas nasce? De linhas paralelas de pensamento que ocasionalmente de cruzam ou de um verdadeiro trabalho de composição a quatro mãos? Como é que se resolve este problema de criação?

Até as peças chegarem à sua forma final passaram por várias fases. O processo de composição partiu de um conjunto de sessões de improvisação em duo, nas quais exploramos algumas ideias que pretendíamos neste trabalho, maioritariamente relacionadas com ritmo e repetição. Posteriormente seleccionámos os trechos que achámos mais interessantes e compusemos temas completos à sua volta, pensando desde logo de que forma gostaríamos de ver o ensemble a contribuir para esses mesmo temas. Por último contámos com a preciosa colaboração do José Alberto Gomes para traduzir as nossas ideias para a partitura do ensemble, através dos arranjos/orquestrações. Foi simultaneamente um processo muito cerebral, pela sua metodologia, mas ao mesmo tempo muito emocional pela forma e contexto no qual compusemos.

O que se segue? Concertos? Mais edições em conjunto?

Para já a prioridade é fazer rodar este concerto o máximo possível, aproveitando também para trabalhar com diferentes ensembles. Agrada-nos a possibilidade de trabalhar com jovens músicos, em idade de formação, de modo a fazê-los passar por uma experiência menos clássica e ortodoxa, o que nem sempre é possível no seu trajecto académico. Estamos também a preparar dois novos projectos para os próximos anos: por um lado a continuação do nosso trabalho em trio com o Ricardo Jacinto e, por outro, uma nova colaboração com um ensemble de características distintas.

 


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Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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