Há um Brasil gigante no catálogo da Mr. Bongo: de Tom Zé a Tim Maia

[TEXTO] Rui Miguel Abreu

O Brasil não está fácil, bem o sabemos. Basta ligar a televisão para se perceber que esta era Bolsonaro acarreta perigos e se tem vindo a afirmar como de crescente intolerância. Mas a música não se cala, claro, e muito graças ao trabalho da nossa especialista no presente que se estende do Rio de Janeiro a São Paulo e mais além, Núria Pinto, pouco nos tem escapado do que de mais relevante os novos resistentes rap têm feito para denunciar o que precisa de ser denunciado, fazer pensar os que ainda fazem questão de usar a cabeça ou simplesmente levar a dançar os que à sexta-feira à noite só querem escapar de tudo no centro da pista.

O gigante do lado de lá do oceano, no entanto, tem uma incrível história que rendeu, em diferentes períodos do passado, música absolutamente brilhante. Curiosamente — ou talvez não… — muitas dessas pérolas do passado têm vindo a reencontrar o presente graças à acção concertada de várias editoras que têm pacientemente investigado as dobras do tempo para redescobrirem e relançarem discos que merecem manter-se vivos, porque são prementes, porque muitas vezes têm a qualidade necessária para desafiar o tempo, porque os grandes grooves nunca morrem. Samba, bossa nova e MPB, funk e psicadelismo, jazz: a memória relevante do Brasil musical faz-se de quase tantas nuances quantos os nomes que o passado resguardou. E a única conclusão a tirar de cada vez que mais uma leva de importantes títulos aterra nos escaparates é de que ainda há muito que importa ouvir.

Há mais reedições de preciosidades brasileiras que hão-de oportunamente receber atenção por aqui, mas para já, e porque o volume o justifica, prestamos atenção ao irrequieto catálogo recente da londrina Mr. Bongo que nos últimos meses se tem desdobrado em fundamentais relançamentos de muitos e variados tesouros de várias proveniências. Hoje olhamos para os do Brasil.

Uma última palavra sobre a Mr. Bongo: a celebrar 30 anos de portas abertas no Soho, em Londres, esta etiqueta que também é loja demonstrou sempre entender que o presente se faz também de muitos passados. E desde que em 1995 arrancaram a sério com o seu selo de reedições — com o lançamento de um trabalho de Os Ipanemas –, os responsáveis pela gestão do catálogo da Mr. Bongo já assinaram centenas de lançamentos, entre CD e vinil de vários tamanhos, do disco sound ao jazz e à soul, da vastidão de África, ao importante universo latino e daí ao Brasil.

É ainda importante perceber dois relevantes aspectos para quem valoriza estas coisas: em primeiro lugar, a construção do catálogo da Mr. Bongo assenta num afinado espírito de diggin’ que ilumina o caminho dos seus responsáveis, facto que os levou a serem convidados pela Rappcats para apresentarem uma pop-up shop em Los Angeles, com Egon a anunciar no seu Instagram que nunca tinha visto tantas cópias originais de Paebiru de Lula Cortês e Zé Ramalho juntas no mesmo sítio (uma delas está listada no Discogs por meros 3700 euros…). Esse álbum faz, pois claro, parte do catálogo de reedições da Mr. Bongo; em segundo lugar, e não menos importante: a Mr. Bongo não investe apenas em dedicadas missões de diggin’ que a leva a vários pontos do globo em busca das rodelas originais que depois relança, faz também todo o trabalho legal que garante que os detentores dos direitos são devidamente compensados pelo resultado das vendas destes relançamentos, facto nada displicente numa era em que muitas reedições são oportunistas e desonestas, tanto do ponto de vista técnico (sem acesso a masters) como do legal (sem licenciamentos apropriados).

O Brasil, portanto, em sete das mais recentes reedições carimbadas pela Mr. Bongo.

 



[Ronald Mesquita] Ronald Mesquita

A lindeza começa na capa, extraordinário documento de época que traduz bem o espírito do tempo — estava-se em 1972 — em que o grande baterista Ronald Mesquita conduziu a sua banda por uma selecção imbatível de clássicos de Jorge Ben, Antonio Carlos-Jobim, Gilberto Gil ou Edu Lobo, entre outros.

Veterano do grupo Bossa Três de Luís Carlos Vinhas, Ronald rumou à América durante a era da ditadura militar e aí tocou incessantemente com gente como Sérgio Mendes, aproveitando a popularidade da bossa nova para aperfeiçoar o seu baterismo. De volta ao Brasil criou o grupo Ronie E A Central Do Brasil, tocou no clássico Embalo de Tenório Jr. (outro lançamento Mr. Bongo) e depois assinou este álbum, com versões enérgicas e bem balançadas de “standards” como “Balança Pema”, “Águas de Março”, “O Gato” ou “Zanzibar”, temas que fizeram deste álbum uma bomba em muitas pistas. Com Marily Tavares a assumir boa parte das despesas vocais e feras como o teclista Gilson Peranzzetta ou o baixista Ricardo do Canto, este é, pois claro, um título fundamental em qualquer discografia que se queira alinhar com o lado mais dançante do Brasil.

 




[Toquinho] Toquinho

Álbum de 1970, este Toquinho inclui sobretudo composições do próprio Toquinho, mas também um par de importantes parcerias: com Paulinho Nogueira na maravilhosa “Bachianinha” e com Jorge Ben na igualmente luminosa “Carolina Carol Bela” (numa versão a que DJ Marky recorreu para o seu “LK”). Esse é aliás um dos temas escritos por Toquinho em conjunto com o mestre Ben que nos há-de visitar este ano (NOS Primavera Sound), tal como “Que Maravilha” (igualmente parte deste alinhamento), outro momento em que os dois amigos se cruzam neste disco. Há ainda a canção”Zana”, também escrita pela dupla, mas aqui em interpretação solitária de Toquinho. Tudo pérolas, claro.

Toquinho é um nome muito apreciado no Brasil, dono de um profundo lirismo na voz doce, mas também nos dedos que sempre dedilharam com toque de mestre, facto que o levou a gravar abundantemente, tanto em nome próprio como ao lado de outros gigantes como Vinicius de Moraes.

 




[César Mariano & Cia] São Paulo Brasil

O facto deste álbum de 1977 arrancar logo com um tremendo break de bateria, faz dele um must entre produtores que não dispensam o sampling na arquitectura das suas criações. Os teclados ácidos e profundamente funky de César Mariano, o líder desta companhia, ocupam espaço central, mas não esquecem que os grooves fornecidos pela banda são fundamentais para que possam brilhar. E isso porque, obviamente, Mariano era um músico experiente e sabedor que já tinha desempenhado papeis mais discretos em gravações de gente como Elis Regina, Som Três ou Sambalanço Trio.

Estamos, obviamente, em terrenos do jazz de fusão, com César Mariano a demonstrar claramente ser um estudante atento das propostas nessa área de gente como Herbie Hancock, Chick Corea ou Weather Report, mas há uma clara luminosidade tropical nos arranjos complexos com que este álbum se desenrola, com a excelência de todos os músicos — e impossível não mencionar os desempenhos do baterista Dudu Portes e do baixista Wilson Gomes — a permitir que o disco continue a soar bem, ainda que claramente do seu tempo, tantos anos depois. Prova de que este não foi um terreno povoado apenas pelos Azymuth. E esta é a primeira reedição oficial deste álbum fora do Brasil.

 




[Tim Maia] Tim Maia (1977)

Escutando o arranque do clássico “É Necessário” de Tim Maia é estranho que correndo ao Who Sampled não se encontre um role enorme de temas de hip hop construídos a partir deste break orquestral, dominado por uma linha de metais, mas com um groove vincado que parece perfeito para suster algum discurso mais combativo de algum MC, com o mote dado pelas vozes femininas a poder até inspirar uma lista de reivindicações que poderia dar um grande verso ao dono ou dona de uma caneta afiada (se já deu para perceber que estou a tentar inspirar alguém a pegar nisto, óptimo).

Tim Maia é hoje um reconhecido mestre cujos álbuns têm sabido reencontrar o caminho do presente, se bem que nem sempre de forma legal (caso lamentável dos dois volumes de Racional — bem que o mundo merecia um relançamento a partir de masters originais, caso ainda existam…). Este álbum, que há pouco tempo também teve direito a reprensagem da Vinilissimo, é puro Tim Maia, com generoso espírito inclusivo (“Música Para Betinha”) ou sentidos apelos (“Venha Dormir em Casa”), sempre com aquele balanço irresistível que ajuda a entender por que razão foi Tim Maia um farol no afunkalhado movimento Black Rio.

 




[Celia] Celia (1970)

Este é um daqueles discos em que a soma das partes já seria mais do que suficiente: arranjos dos brilhantes Arthur Verocai e Rogério Duprat, dois criadores que não sabem não acertar em cheio, servindo sempre os artistas com quem trabalham com pérolas de bom gosto inexcedível; canções escritas por Lo Borges ou Joyce, dois artistas de elevadíssimo nível: escreveu Joyce em “Blues” que “uma canção é quase sempre uma forma de morrer” — ouvindo a versão de Célia concluiu-se o oposto, que uma canção é quase sempre uma forma de viver e, pelo menos nalguns casos, de ganhar a eternidade…; e, ainda, interpretações de pura classe a cargo de Célia, que aqui se estreava em grande.

Mas nesta estreia a soma das partes não chega para se alcançar o todo. Gravado e editado em 1970, este trabalho marcaria uma série de lançamentos sempre homónimos (a Mr. Bongo já tinha relançado o segundo álbum da série, datado de 1972) que a cantora fez para a Continental e que hoje são vistos como clássicos de um período brilhante da música no Brasil. Voz aguerrida, carregada de personalidade, reportório escolhido com cuidado e orquestrado por quem entendia como fazer uma estrela brilhar ainda mais intensamente. Tudo certo por aqui. Façam favor…

 




[Trio Mocotó] Trio Mocotó

Álbum impressionante do Trio Mocotó lançado originalmente em 1977 e que arranca com o poderosíssimo “Não Adianta”, tema que foi samplado por Pete Rock para servir versos de Smoke DZA e a que Dave East também deu uma ajuda (chequem “Limitless”). Este disco foi, aliás, “picado” noutros momentos e por outros produtores, faz por isso mesmo pleno sentido tê-lo de regresso ao presente, para que todos possamos apreciar a matéria original de muita música que já nos fez abanar a cabeça e o corpo.

Com uma versão de “Que Nega É Essa” de Jorge Ben que praticamente ombreia com o original, fusão perfeita entre um pulsar funk — aliás, a imagem da capa não permite que se questione por onde andariam os ouvidos do Trio por esta altura — e uma clara aura sambada, este é um trabalho imprescindível do grupo de Luiz Carlos Fritz (Fritz Escovão), João Parahyba e Nereu Gargalo. Eles eram, precisamente, o grupo que secundava o mestre Ben em clássicos como Força Bruta ou Negro é Lindo e, em nome próprio, souberam fazer um percurso personalizado, com discos carregados de pérolas perfeitas para os mais quentes bailes do morro.

 



[Tom Zé] Estudando o Samba

Finalmente, nesta viagem por material com origem no Brasil que a Mr. Bongo lançou nos últimos tempos, um disco de Tom Zé editado em 1976. Felizmente, a obra do mestre nascido na Bahia 40 anos antes da criação deste álbum continua bem presente nos escaparates, claro indicador da sua premência, mesmo nestes tempos. O génio de Tom Zé, tropicalista convicto, experimentador inequívoco, espalhou-se por muitos discos e neste trabalho de “estudo” tem um dos seus mais relevantes momentos. Foi deste álbum, sobretudo (e do anterior Todos os Olhos, também editado na Continental, mas em 1973) que David Byrne tirou boa parte do material da compilação The Best of Tom Zé lançada na Luaka Bop em 1990. Foi com esse registo que o mundo voltou a ligar-se às obtusas observações do músico brasileiro que aí conquistou uma admiração mais global que se traduziu em elogios dos Sonic Youth ou em concertos feitos com os pós-rockers Tortoise. A razão para isso está, obviamente, nas criações cubistas ou absurdistas deste homem-pagode que nos ensinou mais a estudar do que muitos mestres-escola alguma vez conseguiram. Boa audição!

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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