FUSE: “Fui por muitos anos intermediário entre o amor e o ódio por causa da relação que tinha com a música”

[TEXTO] Moisés Regalado [FOTO] Rafaela Ramos

A propósito da celebração do 15º aniversário de Sintoniza…, o Rimas e Batidas sentou-se à mesa com FUSE — a.k.a. Inspector Mórbido, Fusível ou Fusão — para conversar sobre aquele que é, na opinião de muitos, um dos discos mais importantes do rap português.

Entre referências ao regresso dos Dealema, Nuno Teixeira também falou na relação de amor-ódio que manteve com a música durante largos anos, confessou que já não se identifica com o imaginário diabólico que lhe associam mas aproveitou para explicar por que mudou de opinião em relação à venda de CDs de hip hop português.

Não sente falta do passado mas há saudades. E confessa: é provável que, brevemente, o voltemos a ouvir no registo mixtape, “sem compromisso de refrão, sem esquemas”. Desta vez a solo, mas com DJ.

O primeiro concerto comemorativo acontece amanhã, no Porto, e depois segue para Lisboa, local fundamental para contar a história de Sintoniza…, já no próximo dia 25 de Dezembro.

 



O Informação ao Núcleo estabeleceu-te como figura carismática do rap português, o Caixa de Pandora provou que tu e o teu público continuam bem vivos, mas foi o Sintoniza…, na altura, a dar-te um certo estatuto de unanimidade. É o teu clássico maior?

Em Portugal sim. Se fores a falar de outros países de língua portuguesa, como Angola ou Moçambique, é o Informação ao Núcleo. O Informação ao Núcleo foi o meu cartão-de-visita. O eu existo. Eu, MC dos Dealema, existo, estas são as minhas produções — foi tudo produzido por mim. O Sintoniza… já foi o primeiro grande trabalho, em colaboração com outros artistas. Foi o trabalho em que eu dei o passo. Fui para Lisboa, trabalhei com outra equipa, foi o trabalho que chegou a um público maior e outro tipo de público, fora do rap, e acho que há muitos fãs de rap que surgiram na altura do Sintoniza…. E eu penso que há muitos rappers que começaram a ouvir rap na altura do Sintoniza…, acho que foi esse o grande passo, trabalhar com outros artistas, que me levou a um público maior, e por isso é que muita gente identifica o Sintoniza… como o disco que mais marcou a minha carreira.

Como foi gravar em Lisboa? Trabalhar com o apoio de uma editora, com acesso a estúdio, circuito de distribuição… Não que agora não tenhas acesso a esse tipo de condições, mas pela magia que na altura deve ter representado.

Havia ainda pouca gente, poucas oportunidades, ainda não havia uma máquina no Porto que metesse a nossa cena acesa. E eu adorava a vida de Lisboa porque tinha uma sinergia diferente, havia mais coisas a acontecer, havia mais gente a fazer música. Mesmo os amigos que eu fiz em Lisboa na altura, na Microlândia, tinham todos uma energia diferente, respiravam rap todos os dias, e esse é um fenómeno curioso que ainda acontece. O pessoal lá em baixo, em Lisboa, leva a música e o rap de uma forma muito séria. Se tu fores ver, há outra qualidade nos trabalhos lá em baixo e é curioso. Lá em baixo sempre se respirou rap, sempre se viveu a música de uma forma mais completa: “eu acordo, vou fazer um vídeo, vou fazer uma música, vou fazer a sério”. Eu gostava muito dessa sinergia, eu ia para Lisboa conviver com amigos que viviam isso 24 horas por dia, havia ali uma troca de trabalhos, de rimas, de energia, que ainda não tinha nascido no Porto, que eu não sentia no Porto, e para mim ir a Lisboa nessa altura era recarregar baterias, voltava para o Porto maravilhado. É quase como quando se faz uma viagem a Nova Iorque: assimilar tudo, coração cheio, chegas ao Porto e sentes o impacto, a diferença, viveste aquilo intensamente e agora deixa-me voltar à Terra. Era tudo feito de uma forma mais vivida, mais natural, mais freestyle, mais sem compromisso, ou seja, tu fazias música, tu ias para estúdio e tu vendias os discos na rua. Era um processo de apaixonado, sem grande planeamento, sem grandes expectativas, tu não tinhas as expectativas que tens hoje, em que tu ainda nem fizeste a música, nem o vídeo, e já estás a pensar em colocar a música no canal de YouTube. Já estás a anunciar que a música vai ser amanhã e que vai ser um sucesso, e nem sequer gravaste. Sinto saudades dessa magia, desse freestyle — “vamos juntar-nos, vamos para estúdio, vamos entregar a quem vai misturar… Vamos ouvir a mistura… Quando é que vai para masterizar? Vai amanhã? Estou em pulgas!”. Há todo um processo que te torna a vivência mais presente…

Penso que o Sintoniza… pretendia o mesmo que, treze anos depois, conseguiste em plenitude com o Caixa de Pandora — explorar e oferecer outros ângulos, como um artista mais completo e um homem mais maduro, numa espécie de versão final de ti mesmo. Concordas?

Boa pergunta… Fogo, nunca tinha pensado nisso, é uma boa visão, sem dúvida. O Sintoniza… é uma versão de vinte e tal aninhos da minha pessoa. Nunca tinha pensado dessa forma, o Caixa de Pandora tem uma visão da minha pessoa com 40 anos e, tal e qual como o Sintoniza…, foi um passo da minha maturidade na música, numa altura em que senti fome criativa, de sair do Segundo Piso e trabalhar com outras pessoas. Com um baixista (Francisco Rebelo), outros produtores…

“Se faleço no mundo físico sou eterno no teu ouvido”. Por onde gostavas que os ouvintes do futuro, que só conhecerão Fuse daqui a algumas décadas, começassem por descobrir a tua música?

A partir do Caixa de Pandora. Por vezes esse fenómeno acontece no cinema e na música, tu descobres um trabalho e uma história num dos últimos episódios, depois vais pesquisar, e se calhar o Caixa de Pandora é o melhor começo. Há muita gente que chega ao pé de nós, Dealema, e nos concertos pedem a “Para Putos e Putas” ou a “Lei das Ruas” — para já, pensam que é de Dealema.

No álbum dos Beatbombers recuperaste o teu registo das mixtapes. Tens saudades desse FUSE?

Se eu tiver vida para isso, um objectivo que eu tenho, já desde antes do Caixa de Pandora, é fazer uma mixtape, sem temas, freestyle só com beats pesados à moda antiga. Adorava mesmo, e se tiver tempo vou fazer. Tenho isso na cabeça desde antes do Caixa de Pandora — sem compromisso de refrão, sem esquemas.

Com DJ?

Com DJ, sim.

Falaste nos teus fãs de Angola e Moçambique. Sentes especial orgulho por teres sido um dos poucos portugueses a alcançar real sucesso e a fazer escola nos PALOP? Vês isso como uma espécie de prova de que a exportação é possível, mesmo para rappers mais alternativos, e que não tenham laços com o continente africano?

Não é uma exportação fácil, tu vês noutras áreas musicais e culturais como o teatro e o cinema, em que os artistas dizem que é muito difícil exportar o produto português para países como o Brasil. E o Informação ao Núcleo foi numa altura em que inesperadamente, sem redes sociais e com uma cassete que foi pelas mãos de alguém, cheguei às ruas, aos grupos que ouvem rap, e houve uma explosão a partir dali. Hoje tens a circulação da informação de uma forma instantânea e não consegues criar esses fenómenos. É quase como a carreira de Dealema, marca no coração e na alma porque foi uma carreira construída nas ruas. Essa exportação é feita mas é diluída muito rapidamente, não vês Portugal – Brasil, Portugal – Angola ou Portugal – Moçambique, vês de vez em quando um projecto que é capaz de levar meia dúzia de artistas a Angola ou ao Brasil mas morre ali. Essa explosão do Informação ao Núcleo surgiu numa altura em que a música funcionava de uma forma mais humana.

E é possível haver mais casos semelhantes ao teu?

É… É. Só tem que haver artistas a fazer música assim.

Continuas a ser um “intermediário entre o amor e o ódio”?

Não, cada vez mais amor. Fui por muitos anos intermediário entre o amor e o ódio por causa da relação que tinha com a música. Se fazes música de forma profissional, a partir do momento em que a assumes como a tua profissão, tu crias expectativas para ti na tua cabeça, e se as expectativas não corresponderem à realidade, tu acabas por criar essa relação de ódio com a música, e isso não é justo, porque não foi assim que tu começaste. Não foi isso que juntou os Dealema. Tu começaste a fazer música por amor, porque acordavas a pensar naquilo, não na expectativa de conseguir vender discos ou de conseguir pagar as tuas contas da casa com a tua música. E cada vez mais estou a construir aquilo que faço com base no amor, sem expectativas.

Pensando no início e na persistência dos Dealema, ou naquilo que representava o Segundo Piso e o antigo HC, mas também nas festas do Ser Humano, pode dizer-se que, pelo menos no teu caso, hip hop é sinónimo de família e de amor?

Sim, isso sempre foi a minha opinião, tenho muitos amigos artistas em várias áreas musicais e em conversas de grupo há sempre aquela frase que surge no ar: “Para vocês, no hip hop, fazer música é mais fácil”. Sempre me habituei a ouvir frases assim, principalmente do pessoal do metal, mas a verdade é que, para mim, o hip hop sempre foi a cultura musical mais rica a nível de movimento humano, de troca de experiências. Para mim é a cultura musical mais rica de todos os géneros que possas imaginar, é uma cultura musical que une as pessoas, e que está fundado no amor, na partilha, e só assim é que faz sentido.

Ainda te lembras da tua reacção quando recebeste os CDs do Sintoniza…?

Lindo [risos]. Fiquei em pânico. Há muita gente que não sabe disso e que pensa que o disco é assim. Quando o Rui [Miguel Abreu] me mostrou os discos eu fiquei muito triste por dentro… Sabes quando tens um azar? Sei lá, é curioso, sempre foi uma coisa que eu tive desde pequeno, sempre me aconteceu, desde o meu primeiro computador, a minha primeira consola… No primeiro Spectrum, os jogos dos meus outros amigos, lá no bairro, liam todos, mas no meu alguns não entravam. Depois habituei-me… O Sintoniza… parecia um CD de techno mas depois pensei “não há nada a fazer, vamos assumir”.

E o que sentes quando vês cópias à venda por largas dezenas de euros?

A última vez que aconteceu isso, com o Caixa de Pandora, houve uma polémica. No dia seguinte apareceu o Caixa de Pandora à venda no OLX e houve um que foi vendido por 200 euros, e outro por 170. Houve muito pessoal a fazer publicações indignado porque não estavam a apoiar a cultura, e no último dia fiquei um bocado afectado. Recebi uma mensagem do fã que comprou a 170 euros, e mandou mensagem com o maior respeito a dizer que fez isto porque é o meu maior fã e porque foi a única forma de conseguir o meu trabalho. Depois de receber essa mensagem percebi que isto é muito bom, e que isto faz com que haja coleccionadores. Isto faz com que haja uma procura que antes não havia. É lindo, tu teres alguém que dá… Eu não acredito que o Rui Veloso ou a Mariza tenham tido um CD à venda por 200€. Isso é lindo. Há quinze anos criticavam por não haver interesse, agora criticam por haver interesse a mais. Enquanto houver interesse as coisas estão vivas, é esse o lado positivo que vejo nas coisas. Era pior se ninguém tivesse interesse, é assim que eu vejo.

Os media ainda andam atrás do próximo “flash do obscuro”, como dizias na “Febre da Selva”? Manténs a dica ou nem por isso?

Aceitação não é respeito, é diferente. Essa foi uma experiência de muitas entrevistas, ao longo de muitos anos, em que realmente vias uma peça de televisão, uma reportagem, uma entrevista, e vias um total desconhecimento em relação à realidade, em relação ao que é rap. Era típico ligar e pedirem para fazer a entrevista numa estação com graffitis, por causa das fotos. Hoje há aceitação, não há tolerância, não há respeito. Se o hip hop deixasse de estar na moda, o jogo mudava completamente. Só vês editoras atrás de artistas porque o hip hop está na moda, não é porque hoje há respeito. Mantenho a dica, completamente.

E, agora em 2018, o teu “Prémio Nobel” vai para quem?

A todas as pessoas que façam algo na sua área para ter um impacto na vida dos outros. Eu dedico-me cada vez mais na minha vida a praticar o bem e a ajudar os outros, a vida não é só beats e rimas, a vida é estar na tua arte e realmente fazer aquilo em que acreditas. O “Prémio Nobel” é para todos os que acordam e conseguem fazer do dia-a-dia deles algo com impacto. Se eu for grande e acreditar em mim, individualmente vou fazer bem aos outros, à minha família, aos meus amigos, e vou ter muito sucesso. No fundo, o “Prémio Nobel” vai para todas as pessoas. A minha vida mudou completamente: dou aulas de escrita criativa, trabalho com pessoas com paralisia… O “Prémio Nobel” é para essas pessoas, as que nunca tiveram reconhecimento na vida, mas também para as que lutam para ter esse reconhecimento.

 


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