FARWARMTH sobre a edição pela Planet Mu: “O álbum encontrou casa na editora mais inesperada para mim”

[TEXTO] Vasco Completo [FOTO] Filipa Pinto Machado

No dia 12 de Fevereiro, Afonso Ferreira, mais conhecido como FARWARMTH, anunciou um novo álbum, Momentary Glow, agendado para sair a 3 de Abril. Não só é um aguardado regresso do artista aos discos, como ainda marca a sua estreia do no catálogo da inglesa Planet Mu, casa aberta por Mike Paradinas e que nos últimos anos editou, por exemplo, trabalhos de Jlin ou RP Boo. Entretanto, “Shadows In The Air”, a primeira das sete faixas do próximo álbum de FARMWARMTH, já pode ser ouvida.

O último álbum de FARWARMTH data de 2018. Immeasurable Heaven era um exercício etéreo de processamento do piano e de atmosferas roucas, numa estética ambient, com toques de IDM à mistura. “Shadows In The Air” apresenta uma aposta em glitches e timbres mais complexos e ambiciosos, além duma quebra com o tipo de composição que representava o antecessor de Momentary Glow — o novo disco foi gravado num convento em Montemor-o-Novo no Verão de 2018.

Este período entre os dois discos, no entanto, não foi de silêncio para Afonso, que assinou várias faixas soltas em diferentes compilações e lançou dois importantes trabalhos da música ambient portuguesa através dos duos HRNS e PURGA – com Rui Andrade e João Rochinha, respectivamente –, colaborando ainda na criação do colectivo 00:NEKYIA.

Ao Rimas e Batidas, Afonso falou um pouco sobre a integração na Planet Mu e a criação de Momentary Glow.



Como é que surge esta ligação com a Planet Mu?

O álbum encontrou o seu lugar na Planet Mu após um bom tempo de estar terminado. Há coisa de três anos, uma pessoa que eu admiro muito disse-me que deveria lançar o meu trabalho em editoras que eu gostasse, que esse fosse o critério da escolha, algo simples e genuíno. Em finais de 2018 terminei o disco, e após este ter sido masterizado nos primeiros meses de 2019, enviei-o para editoras que já seguia ou que tinham editado artistas que eu ouvia. No final desse ano, o álbum finalmente encontrou casa na editora mais inesperada para mim, estou extremamente grato.

Demonstras em “Shadows in The Air” um ambicioso trabalho de timbres, mais vincado que o registo mais etéreo e reverberado do teu último disco. Como se deram as gravações para este trabalho? Como sentes que evoluiu a tua produção neste período?

É um processo involuntário que tenho vindo a registar de um disco para o outro. Mal o Immeasurable Heaven saiu, a minha abordagem mudou por completo, foi algo muito rápido e quase que involuntário – uma espécie de instinto de querer afastar-me do trabalho anterior e desenvolver uma nova identidade sonora. Tais mudanças surgem em forma de contraste ao lançamento anterior, não de uma forma 100% intencional, mas sei que no fundo eu não só quero como necessito de fazer algo diferente. Há que destruir fórmulas para inventar novas, mas por vezes também se prova útil reciclar algumas coisas, e evoluí-las. Depois do Momentary Glow ter sido completado, notei a mesma metamorfose mais uma vez, só não sei quando a vão poder ouvir sem ser em concertos. Contudo, este disco que sai em Abril continua a ser algo com que me identifico bastante, ao contrário do registo do álbum de 2018.

Quem foram os músicos que estiveram envolvidos nesta residência artística, na qual se deram as gravações em 2018?

A residência artística de 2018 veio inspirar e enriquecer um Momentary Glow que na altura estava quase completo. Foi organizada pela dupla Camila Fuchs, onde participaram artistas como Lucinda Chua, Lybes Dimem, Specimens, Zoë Mc Pherson e uma das pessoas que me é mais próxima, Swan Palace, entre muitos outros músicos e produtores incríveis. Foi pouco mais de uma semana num convento em Montemor-O-Novo, no pico do Verão. As longas sessões de improviso tornaram-se em algo diário durante a nossa estadia, podiam acontecer a qualquer altura. Por vezes, começávamos uma sessão durante a tarde, as pessoas iam entrando e saindo e contribuíam para o ensemble que ali se formava em mudança constante, após uma pausa para jantar a troca de sons caía sobre a noite inteira. Ao romper da manhã já se ouviam novos sons, novas linguagens.


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