Faixa-a-faixa: o novo disco de Mike El Nite explicado pelo próprio

[ENTREVISTA] Rui Miguel Abreu [FOTO E CAPTAÇÃO DE VÍDEO] Sebastião Santana [EDIÇÃO DE VÍDEO] Luis Almeida

Do Super Bock Super Rock’16 até ao “trap genérico” de “L.Y.B.Y”, passando por um desgosto amoroso, a Inter-Missão de Mike El Nite, “uma side quest da quest principal”, resume, através do olhar único do próprio autor, os eventos dos últimos dois anos da sua vida.

Ao Rimas e Batidas, o artista de Telheiras revelou, faixa-a-faixa, pormenores que te vão ajudar a decifrar o sucessor d’O Justiceiro.

 



Vamos passar os temas em revista um a um. Falar um bocadinho sobre cada faixa. Começamos pela “Intro”.

A “Intro” é o áudio do final do meu concerto no Super Bock Super Rock’16, captado pela Antena 3, e é um momento muito especial para mim. É também ponto de partida da BD — a primeira folha da BD tem esse momento. Cria ali uma ponte para um segundo momento, em que três depois do dia mais feliz da minha vida se dá o fim de uma relação muito longa. Isso está representado na BD. A “Intro” transita para a segunda música, que é sobre isso.

Nesse primeiro dia, em que tu recuperas aqui o áudio desse concerto… Escrevemos no ReB que essa seria uma data histórica para o hip hop em Portugal e que muita coisa iria mudar. Quase que se poderia falar num “antes” e num “depois”. Sentes que foi de facto um dia marcante?

Claro que sim. No único dia em que um dos maiores festivais do país esgota e o line-up é praticamente só hip hop… Isso diz muito sobre a música ao nível nacional e mundial. Diz muito sobre a força que este estilo de música tem no nosso país. E o facto de tu teres artistas portugueses a darem shows que estão a um nível muito semelhante ao dos internacionais, é um statement enorme para nós como movimento, como país, como cultura. Sem dúvida que há um “antes” e um “depois” disso. Tanto que a fórmula continuou a ser aplicada nos anos a seguir.

A segunda faixa é muito especial. Tens a participação da Rita Vian e tens também ali um sample… Queres falar um bocado sobre isso?

Sim. É produzida pelo Dwarf. Eu já tinha esta ideia de samplar Amália Rodrigues, que foi mais ou menos incepted por ti, com o tal projecto do Samplália. Chamei a Rita Vian porque ela canta fado incrivelmente bem, embora não esteja a investir nisso para a sua carreira. É um tema de coração partido e de desilusão com as relações e as pessoas. Esta nova dinâmica das relações afectivas entre as pessoas. Foi uma luta ainda grande para conseguir usar esta parte da música da Amália Rodrigues, mas consegui autorização, felizmente, e está aí. Acho que é um tema óptimo para introduzir o disco, porque é progressivo, tem uma introdução grande. Mostra também a minha vertente melódica e com rap. Vem nessa estética mais semelhante a’O Justiceiro e é produzida pelo DWARF.

Vês um grande potencial para que o nosso hip hop se aproxime ainda mais do fado?

Acho que isso sempre aconteceu. Depois foi um bocado esquecido e agora está a voltar a acontecer. Já há vários exemplos disso. E não só no hip hop. Tens exemplos como os do Pedro Mafama e do Conan Osiris, que vão buscar essa portugalidade, que não é necessariamente samplar fado, mas tem esse toque de fado e a ginga do fado. Acho que a relação entre a música contemporânea e antiga portuguesa está de boa saúde.

A terceira faixa é a tal faixa em que puxas para aqui o universo Monster Jinx, não é?

É isso. O JK disse-me “epá, tenho aqui um instrumental, acho que ficavas bem aqui e tal”. Começámos a trabalhar na música, ele mostrou-me a parte dele e eu fiz a minha, aquilo foi tudo muito rápido, e eu pensei “olha, vou ficar com esta música para o meu disco. O que é que achas disso?” [E ele disse] “brutal, eu não tenho nenhum release na calha, portanto é óptimo”. Nesse sentido, é fixe vir a seguir à faixa do DWARF. Porque a onda da Monster Jinx é mais semelhante com a onda do DWARF do que com a onda da Think Music, eu diria. É uma electrónica mais trabalhada nos pormenores. Adorei o beat, que é do Maria, e o tema da música acaba por vir na mesma sequência de acontecimentos da história. Depois desse desgosto amoroso e de uma fase mais depressiva, eu comecei a entrar em nóias com a cena da expectativa, do sucesso e dos fãs — que num dia estão e no outro dia não estão. O hype é que importa, etc. É uma música um bocado sobre isso. Não interessa se o avião cai e se despenha, porque a caixa negra com a informação vai manter-se para sempre lá. Isso já ninguém nos tira.

Depois há o “Capacete”.

Este é um dos singles — eu vou lançar dois em conjunto. Marca o momento em que eu caí de bicicleta, fiquei todo partido e comecei a pensar sobre a fragilidade da vida e das carreiras. Decidi fazer uma música sobre aquela cena do ser humano que parece que está sempre à procura do abismo, de andar na corda-bamba a desafiar a morte e a saúde.

É o tema mais pessoal do disco. Porque não só relata um momento muito dramático, real e doloroso, mas também porque tu assumes tudo — é uma faixa que é produzida por ti — e puxas as rédeas todas que há para puxar.

Sim. Tipo “este é o meu bebé”. Por isso é que também o escolhi como single. E é também mais ou menos a cara do disco. O que deu início a que estes temas todos formassem um disco.

 



Vai ter um vídeo. Queres falar sobre isso?

Sim. Também o vídeo foi atribulado [risos]. A primeira tentativa não funcionou bem, e depois falei com o Bernardo Lima Infante e ele disse “don’t worry, I got you”. Chamou o Bernardo Lopes para realizar, fez a edição da fotografia e deu uns toques na realização — eu também. Estou muito contente com o resultado. É uma música que não vem sozinha. Transita para a próxima. A nível de formato é se calhar a mais desafiante. É quase uma balada, toda em auto-tune, com um verso de rap no meio. Foi mesmo aquele meu momento do anti-processo, que eu estava a falar, de fazer ao contrário do que eu tenho feito.

Depois da tempestade vem um “Arco-Íris”, não é?

Exactamente. Tem a participação da Catarina Boto, foi produzida pelo Luís Montenegro — que assina como Lewis M — e tem um excerto de um verso do ProfJam, da faixa “O Espectro”, da Mixtakes, que acho que é a minha preferia desse projecto. Vai naquela lógica de não ver a preto e branco. Ver o espectro completo da luz. É sobre… Esta questão pode colocar-se a nível pessoal, a nível artístico, a nível político. As pessoas têm muita sede de uma equipa. “Esta é a minha equipa e eu vou defendê-la assim porque eu pertenço a ela”. A certa altura eu comecei a ver as coisas de uma maneira mais diluída. Acho que quando somos mais miúdos vemos as coisas de um ponto-de-vista mais extremo, e quando crescemos passamos a ver todas as cores do espectro. Não necessariamente quando crescemos mas quando algum evento da nossa vida nos leva a olhar para as coisas assim. Acho que estamos numa altura de tanta informação, de todo o lado, e mesmo assim as pessoas muitas vezes optam por ser extremistas em relação às coisas. Eu acho que está na altura de começarmos a ver as coisas de uma maneira mais geral, para que dê para todos. Não é esquerda ou direita, preto ou branco, gay ou hetero, católico ou protestante. Isso é o separatismo. Acho que dessa maneira nós perdemos poder. Não é uma faixa política, de todo, mas é uma faixa mais de consciência, da maneira de como olhamos para o mundo e como pensamos.

Não temos que rezar só na igreja boom bap ou só na igreja trap, é isso?

Também é isso. E eu estou a fazê-lo numa faixa que se calhar não é um nem outro. Pessoal: quantas mais regras impomos, menos liberdade temos. Eu acho. Isso tira-nos poder como espécie. Acho que é muito mais fácil nós estarmos sujeitos a situações delicadas, socialmente, quando temos esse tipo de atitudes. Porque ficamos reduzidos a menos em cada parcela.

A seguir tens a “Dr. Bayard”, que era uma faixa já conhecida. Esta faixa mudou alguma coisa no teu percurso?

Claro. Esta faixa foi o meu maior êxito até agora. E ainda bem. Estou agradecido. Foi também uma faixa cuja ideia começou a aparecer antes de haver a ideia do disco. Foi o meu primeiro release pela Think Music, é um sucesso, e tem a participação do Fínix MG e do Sippinpurpp. O Fínix eu já queria ter trabalhado com ele há muito tempo. O Sippinpurpp, eu fiquei bastante contente e admirado com o aparecimento dele no espectro musical, e acho que ele encaixava a 100% nesta música. Foi uma faixa que criou opiniões muito diversas. Quase como um “Mambo Nº2”, porque o “Mambo Nº1” também foi um bocado polémico quando saiu e esta também. Sem dúvida que é um marco na minha carreira.

Porque é que achas que isso acontece? A nível do público, as pessoas ainda gostam de ter tudo arrumado dentro de caixinhas?

Era o que eu estava a dizer acerca das equipas. Eu acho que, mais uma vez, temos que deixar… Quanto mais pomos as coisas em caixas, mais exigimos de cada coisa. Se calhar não devemos avaliar algumas coisas com os valores de outras. Não devemos misturar e fazer essa confusão. Há coisas que têm os seus valores, a sua mensagem, a sua estética. E é mesmo para ser assim. Ninguém está a tentar ser outra coisa. É só aquilo. O mesmo se aplica ao outro lado da questão. Aqui estamos a falar de boom bap e trap, claramente. Há liga para tudo. Calma, pessoal. Ninguém está a tirar o lugar a ninguém. O “Dr. Bayard” foi o primeiro single deste disco, quase involuntariamente, porque saiu antes de eu achar que fosse fazer parte de alguma coisa. Estou muito curioso, acho que as pessoas estão à espera que eu lance mais coisas deste género, agora que estou na Think Music. E o meu próximo single não tem nada a ver com o “Dr. Bayard”. A “Dr. Bayard” é uma música que, para mim, não foi difícil de fazer. Foi divertida. Já a “Capacete” é uma música que, para mim, foi difícil de fazer porque eu tive de desconstruir na minha cabeça como é que a iria fazer.

E voltas a ter um momento musical assinado pelo Lewis M que eu acho extraordinário.

É a “S.Q.N”. Faltou-me referir que foi o Ice Burz quem produziu a “Dr. Bayard”, e o benji price fez a pós-produção. A seguir vem a “Só Que Não”, que é outra vez um twist. E vem a seguir à “Dr. Bayard” mesmo porque “só que não.” Se calhar sentias que ia entrar numa onda mais trap,“só que não”. Foi uma aventura para mim também cantar nesse beat, porque nunca cantei nada do género. Uma onda mais tipo Anderson .Paak. Aquela faixa do Mac Miller com o Anderson .Paak. É nessa onda. Diverti-me bastante a fazer essa faixa. Foi o primeiro instrumental que o Luís me mandou. Foi um desafio, mas acho que consegui. Mais uma vez, acho que estou a tirar um bocado os filtros e a desmarcar-me um bocado e a fazer coisas que nunca fiz antes, a cantar sem auto-tune. É uma música sobre auto-motivação. Quando as coisas estão a correr mal tens que dizer “só que não”. É engraçado, porque vem na sequência do “Só Que Sim”, lançado pela Think Music com a WTF. A música já existia antes. Pessoal, eu não fiz a música por causa disso [risos]. Mas não deixa de ser curioso. Saiu uma e vai sair a outra. Eu não estou nesse release mas tenho a minha “S.Q.N”.

Para rematar o disco…

A “L.Y.B.Y”, produzida pelo Osémio Boémio, Ice Burz e benji price. Eles tiveram os três a meter as mãos na massa para a coisa acontecer. É um som de trap. Eu próprio digo que é um som de trap genérico, no início da faixa. Mas é uma celebração da minha juventude. “Young Nite, Young Nite…” Vem falar de um período da minha vida… Não fala muito de um período da minha vida, mas basicamente é um resumo do disco. Agora vou fazer 30 anos e as coisas estão a mudar um bocado, mas ainda há tempo para fazer bangers trap, na boa, eu gosto e vamos embora. É um som de barras, de flexin’ lírico e de statement, de como eu também tenho um lugar nessa escola.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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