Dos Alpes franceses para o global beat, o furacão Carie agita mentes e corpos com os decks há duas décadas

[TEXTO] Núria R. Pinto [FOTOS] Direitos Reservados

“J’irai mixer sur vos tombes”. A frase, descaradamente roubada e adaptada do livro de Boris Vian (J’Irai Cracher Sur Vos Tombes), encaixa que nem uma luva à DJ francesa que, há quatro anos, trocou a frieza dos Alpes franceses e as constantes voltas ao mundo pela luz atlântica de Lisboa. Dois minutos de conversa com Carie são mais do que suficientes para perceber que há poucas coisas ou pessoas, que consigam abalar a força de vontade que usa como combustível. A gargalhada corpulenta e a postura confiante talvez devam tanto à genética quanto aos quase 20 anos de experiência atrás dos decks, embora a ideia sempre presente de não-resignação prefira atribuí-la à cultura histórica do povo francês.Talvez por ser francesa tenha um espírito revolucionário mais aguerrido. Então, não me calo! Sempre que tenho oportunidade (…) estimulo toda a gente à minha volta: ‘vai lá, vai reivindicar!’”. 

Quando, em 2015, se instalou no Campo Santana, Erica, de primeiro nome, já carregava consigo dezenas de carimbos no passaporte e uma mão-cheia de endereços, para além de gigs tão inusitados como o que a levou a tocar em meio às ruínas na Ilha de Guadalupe, a escassos metros da Cidade Velha de Jerusalém ou para uma plateia de 10 mil pessoas em Lyon. Canadá, Espanha e Brasil serviram-lhe de morada, mas foi em Lisboa e na Casa Independente que, nos últimos anos, começou a fazer-se ouvir. “Quando cheguei a Lisboa comecei por tocar no Desterro. Era para onde saía todas as noites e foi fácil ‘infiltrar-me’. Na Casa Independente estou a tocar há dois anos e oito meses, sem parar. Parei uma vez, durante um mês, para ir ao Brasil e deixei as ‘chaves da casa’ ao Isac Ace. ‘Está aqui, trata como se fosse tua!’. Mas o meu nome continuou lá, claro. Foi a única vez que parei”. Receber uma “cópia das chaves” não foi pêra doce para uma DJ que, apesar dos anos de estrada e da experiência internacional, teve na estratégia e na determinação os principais aliados para que conseguisse encontrar o seu espaço e criar a Itinéraires, residência que mantém no espaço do Largo do Intendente. “Vinha todas as noites, ‘assediava’ os empregados e todas as noites dizia, ‘quero ver a dona!’. E não era apenas para mim enquanto DJ. O meu pitch sempre foi o de querer promover os ‘heróis locais’ e querer trazer estrangeiros que coubessem no orçamento do espaço. Fazer rodar as pessoas aqui. Toco há 18 anos e tenho uma rede de contactos enorme. Era bom para a Casa Independente poder ter acesso a isso a um custo mínimo porque para os DJs também era uma boa oportunidade poder tocar aqui. Toda a gente ganha. E, desde o início, sempre disse isso: vamos dividir o meu cachet em dois e ‘vamos que vamos!’. É assim.”

De lá para cá, foram dezenas os nomes nacionais e internacionais, mais ou menos firmados, que Carie levou à Casa Independente nas últimas 34 noites de Itinéraires, com o objectivo de espalhar a cultura do bass e do global beat pela cidade. A viagem, que começa a ganhar contornos definidos em Paris, em 2010, surge depois da criação daquele que viria a ser o colectivo Wicked Girls, motivado pelas influências que ajudaram a definir o estilo por onde hoje se passeia. “A Lady Leshurr e a M.I.A. são modelos poderosos para mim, na cena global beat. E as Wicked Girls começam assim. Numa festa em casa, uma das minhas amigas chegou com a ideia de criarmos um blogue para pessoas como a Lady Leshurr serem mais promovidas. No dia seguinte, ela ligou-me com a password e o site pronto! Fizemos 30 artigos num ano, só sobre pessoas como elas. Iggy Azalea, Ms. Dynamite, The Lioness. Pessoas que não eram conhecidas em França, na altura, mas que para nós já eram rainhas”. A tocar desde 2000, Carie agarrou a oportunidade de levar o conceito para além da esfera online quando Lau, a amiga ilustradora e co-fundadora do colectivo, lhe lançou o convite para se apresentar no bar onde trabalhava. “Sugeri-lhe criarmos uma noite Wicked Girls. E começámos a convidar mulheres do hardcore beat, grindcore, techno, dancehallcore! Tudo coisas que ninguém queria ouvir com mulheres que ninguém queria ver num dos maiores clubs do centro da França. Sucesso absoluto! A partir daí ficámos com um residência trimestral. E isso logo na primeira noite. Era o sonho UK para nós, naquele momento!” O movimento está-lhe no sangue, mas as viagens e os gigs pelos quatro cantos do mundo não impediram o Wicked Girls de criar raízes. Pelo contrário, as influências globais e a vontade de crescer contribuíram para dar ânimo a um grupo cujo principal objectivo, conta, é abrir espaço para DJs emergentes em Lyon. “Wicked Girls é um projecto desenvolvido à distância. Somos a prova que funciona. Há quase três anos que estamos a fazer um Wicked Weekend no Maison Mère, em Lyon. Na primeira noite, normalmente, toco sozinha, e na segunda noite convido sempre alguém local. Até agora conseguimos promover muitas mulheres de Lyon. Miúdas com pouca confiança que actuam para um club de 400 pessoas. A maior parte acaba por tocar mais depois de passar por ali”. A ideia de estender os braços além-fronteiras e trazê-lo para Portugal passou-lhe várias vezes pela cabeça, confessa. Os números, no entanto, acabavam sempre por travar a empreitada. “Eu poderia ter montando uma festa Wicked Girls aqui e não o fiz por uma questão de orçamento. Para além de que já convidei todas as mulheres de global beat que existem em Lisboa e não encontrei alguém com quem pudesse colaborar. Não acho que existam mulheres suficientes. Há poucas DJs de global beat na cidade.”

Se em 2019 a questão da representatividade feminina nas cabines de DJ continua a ser um hot topic, em 2010 o ponto de partida era outro e, para Carie, o tempo ajudou a mudar perspectivas, ajustar critérios e repensar novas formas de valorizar o trabalho feito pelas mulheres. “O feminismo na noite mudou. Há 10 anos, 80% dos festivais não tinha mulheres. Precisávamos de conquistar esse espaço. Agora precisamos de perceber como queremos promover essas mulheres. Já existem vários modelos. Mulheres negras, a própria comunidade LGBT. Mas o marketing também se apoderou do feminismo… A Wicked Girls continua a querer promover todas as mulheres, não vamos esquecer a importância da sororidade, mas o trabalho continua a ser o mais importante. É preciso começar por tocar nos lugares menos bons, construir a tua mix. Podes não o fazer mas isso em nada ajuda a luta feminista. Conquistas aqueles espaços mas não vais saborear essa conquista”. As dúvidas não são muitas no que diz respeito à necessidade de um esforço redobrado por parte das mulheres que decidem dedicar-se à vida atrás dos decks, CDJs ou controladoras. DJs ou Selectas, para Carie pouco importa. O foco deve estar na iminência da falha que precisa, constantemente, ser contornada. A receita é só uma: constante dedicação. “Não nos podemos esquecer que o mundo ainda é dos homens, héteros, brancos, e quando eles se apercebem que tu, enquanto mulher, és fraca técnica, artística ou esteticamente, nós continuamos a perder pontos. Pontos, tempo e valor. Mas temos que discutir, também, o capitalismo e o neoliberalismo a par das questões de género. E aí é uma questão de escolhas. Ou optas pela via romântica ou segues a vibe do neoliberalismo, do consumo rápido. Eu não escolhi este caminho. Mas esse é um caminho possível como DJ, sejas homem ou mulher. Claro que para as mulheres isso é ainda mais óbvio porque nós próprias já somos um objecto de consumo”. Portugal não se revelou diferente do resto do mundo, pelo menos não nesse aspecto. 20 anos a “bater às portas” trazem histórias que se repetem, uma e outra vez. Há lugares que te podem esquecer muito rápido. Não é algo que eu sinta. É real. E muitas vezes chamam-me ‘chata’ porque se não insistires podes ficar seis meses ou mais sem te chamarem. E eu posso gabar-me de, muitas vezes, ser a única mulher nos lugares onde toco, a fazer um set de três horas tecnicamente infalível. Mas há muitas mulheres que deviam tocar mais e não tocam. Há pelo menos uma ou duas mulheres em Portugal que são figuras importantes do hip hop nacional e conhecem todos os movimentos de hip hop que Lisboa atravessou, podem ensinar quem quiserem, e não as vejo tocar nos lugares que, hoje, poderiam dar-lhe esse espaço. Porquê? Porque são ‘chatas’. ‘Vocês são chatas com o feminismo’.”



Sendo ou não o género o principal factor impeditivo para o crescimento das mulheres, principalmente no hip hop onde Carie começou também por fazer escola, a verdade é que a DJ não esconde a frustração quando percebe que, no seu próprio percurso, há episódios que assumem, ironiza, contornos de “maldição”. “Toquei em três festas grandes aqui no primeiro semestre do ano e não me importo de fazer warm-ups, por exemplo, mas não me faz sentido tocar para ninguém. Acho que quando convidas alguém tens que dar espaço ao teu convidado para brilhar. É frustrante quando vês que os outros que tocam depois de ti têm menos experiência do que tu. Eu sou uma DJ internacional. Já toquei em sete países e tive seis ou sete residências na minha vida. E já recusei convites para abrir, claro”, confessa, confiante de que deve existir uma maior preocupação com a programação e o desenho dos line-ups. “Não estou aqui a dizer que sou a melhor DJ à face da terra mas se fazes programação não vais meter alguém com anos de experiência a abrir para alguém que começou ‘ontem’. Para mim o importante é incendiar a pista, mas não metes miúdos com seis meses de experiência a tocar depois de mim. Não faz sentido. Claro que também já me aconteceu só saber disso depois e sendo profissional não vou cancelar. Mas não vou tocar uma segunda vez ou não vou ficar lá para aproveitar a festa. A ‘maldição do warm-up’ é real!”.

Aos 37 anos, já vão longe os tempos em que começou a tocar para os amigos ou se tornou a DJ “oficial” da Faculdade de Belas Artes, em Annecy, momento em que descobriu que a criatividade e a expressão artística lhe estavam no sangue. Ainda assim, viver única e exclusivamente do DJing já não tem o brilho de outras noites e, se nos decks assume o alter-ego de DJ Carie, durante o dia é na sala de aula que encontramos Erica, a professora de Francês para estrangeiros e uma apaixonada pelas línguas que agora, desvenda, se prepara para embarcar numa nova aventura académica. O próximo destino? Bruxelas e um Doutoramento em Linguística. “Para mim, viver de ser DJ profissional já não é tão fixe. Ver bêbados todas as noites… Eu adoro incendiar pistas! Mas viver só disso deprime-me. Em Outubro sigo para a Bélgica porque quero fazer o Doutoramento e em Portugal não há lugar para mim. O país abranda-me. Sou super ambiciosa e sinto que o país me atrasa na minha luta. Eu passei um ano a gritar, a debater com pessoas, a chorar, aqui em Portugal. E até estou a tocar muito aqui agora, é verdade. Mas qual é o preço? Enquanto lá fora toco como uma DJ internacional, aqui não”. O sentimento é, claramente, “agridoce” e a surpresa em decidir emigrar mais uma vez, principalmente numa altura em que o seu nome começa a surgir com maior frequência nos cartazes, em Lisboa e no Porto, desfaz-se com perceptível rapidez. “Estou um pouco amarga com o país, é verdade. Também é por isso que decidi ir para a Bélgica, neste momento. É uma pena porque enquanto estrangeira, luto contra isso. Por achar que os portugueses merecem ser melhor tratados do que são. E isso acontece em todo o lado… Até o turismo trata mal os portugueses. Acho que é uma desvalorização cultural do próprio povo. E agora que faço parte do povo, sou estrangeira mas pago os meus impostos aqui, moro em Benfica porque também não tenho orçamento para viver no centro de Lisboa, sinto isso. Há uma cultura de maltratar a mão-de-obra”. Se a visível frustração a invade à saída, seria tremendamente injusto, ainda assim, traduzir a passagem da DJ francesa por Lisboa em nada mais do que espinhos e lutas. A beleza da língua e a exemplar tolerância do povo, assume, são duas das coisas que carrega consigo na bagagem. “Há um lirismo português, uma poesia na fala, que é diferente do português do Brasil. Gostei muito disso aqui. Ganhei muitos amigos, fiz muitos contactos e, de certa forma, aprendi a ser mais tolerante e menos combativa quando não tinha que ser. Refreou um pouco este meu lado revolucionário. Mas no bom sentido!”. 

Para quem fica e quem está a chegar, Carie deixa a própria experiência como referência. E a escola que para si foi o hip hop, não tem dúvidas de que pode ser a mais desafiante mas também a que melhor prepara os seus alunos. “Preparar vários sets é importante. Se o povo não está contigo, estás fodido! E todos temos músicas preferidas mas há dicas importantes. ‘Big Pimpin’’ do Jay-Z é uma boa faixa para fazer pontes com outras. É importante ter várias faixas assim. ‘Let’s Ride’ do Q-Tip também é um boa faixa para isso porque o instrumental é muito longo e a partir dali podes ir para vários géneros. Deves ter pelo menos 10 sons assim. ‘Mini estrelas’. “Canto de Ossanha” dos Jurassic 5. Vai a todos os lados… O hip hop é extremamente educativo no mix. Tens poucas passagens para misturar, tens sempre voz e não podes misturar voz com voz, então tens que ir atrás do refrão e do instrumental e tal. É o mais difícil de tocar mas é o mais ‘instrutivo’. Depois do hip hop podes tocar tudo! Tudo te vai parecer fácil!” 

Até Outubro, DJ Carie mantém-se firme e forte atrás dos decks na Casa Independente e, com alguma regularidade, no PARK Lisboa. A 30 de Agosto, participa no aniversário do indiefrente no MAAT. 


Núria Rito Pinto

Núria Rito Pinto

Hip hop, r&b e brasilidades com tanta moderação quanto vontade. Fundou o clube de fãs da “Corda” do Boss AC, já comprou CDs pela capa e preferia comer douradinhos frios todos os dias do que ficar sem Spotify.
Núria Rito Pinto