Diálogos entre som e espaço: a materialidade e a matemática de Iánnis Xenákis

[TEXTO] Ricardo Nogueira Fernandes [ILUSTRAÇÃO] Riça 

Somos todos pitagóricos.

Iánnis Xenákis é valorizado pelo seu contributo pioneiro quer na história da arquitectura quer na da música. Enquanto o arquitecto Le Corbusier, na emblemática obra Vers une architecture indicava que “a arquitectura é o jogo sábio, correcto e magnífico dos volumes dispostos sob a luz”, o seu companheiro de trabalho, o compositor, arquitecto e engenheiro Xenákis, adicionava a componente sónica a esta dimensão. A acepção espacial une-se a sonora com o objectivo de criar espaço e som. O compositor francês de descendência grega, nascido na Roménia, exilou-se em França após a Segunda Guerra. Durante a sua estadia em Atenas pertenceu à resistência Comunista contra a invasão italiana e alemã. Em Paris, ainda enquanto imigrante ilegal, começou a trabalhar no gabinete de Le Corbusier como desenhador, mas as suas capacidades de matemática levaram-no a colaborar como engenheiro assistente e como co-autor de algumas obras.

O desaparecido Pavilhão Philips terá sido a expressão máxima deste diálogo. Quando trabalhava como assistente de Le Corbusier, Xenákis foi convidado a projectar um pavilhão para Philips, no âmbito da Feira Mundial de Bruxelas de 1958. Neste, foram executadas duas novas peças: Poeme Electronique de Edgard Varèse e Concret PH de Xenákis, um trabalho de electrónica construído a partir de sons de carvão em brasa. O título Concret PH refere-se aos elementos-chave do edifício: betão armado e parabolóides hiperbólicos. Uma parábola é uma curva esférica formada pela intersecção de um cone circular e o plano paralelo a um elemento desse cone.

Para Xenákis, este pavilhão apresentava o despontar de uma nova arquitectura, baseada na flexão de superfícies. Esta característica tem um paralelo directo na sua obra musical. Esta continuidade espacial, com que o músico queria eliminar fronteiras entre paredes e tectos, criando um fluxo constante de superfícies ininterruptas tem espelho nos glissandos contínuos das suas partituras orquestrais.

Além da criação de espaços de raiz, Xenákis procurou também tirar partido dos espaços pré-existentes e reordenar a relação espacial, e consequentemente sonora, dos espectáculos. No trabalho de 1965-66, Terretektorh, 98 dos músicos de orquestra encontram-se espalhados pelo público para que, nas palavras do autor, “uma chuva de granizo ou até mesmo um murmúrio de florestas de pinheiros possam envolver cada ouvinte”.

O convento de La Tourette, em Éveux, (1956-1960) tratou-se de uma obra que exigia uma geometria espacial complexa, dada a intersecção de planos rectilíneos e curvos. Xenákis apercebeu-se de que os seus cálculos de estruturas se poderiam também aplicar aos sons. Um avião em ascensão poderia ser dado por um tom de corda deslizante, com a respectiva massa dada por um conjunto de violinos a dar este tom em conjunto. Os tons poder-se-iam intersectar, afastar-se uns dos outros, como que se arquitectura brutalista se tornasse música brutalista. Quando a peça Metastaseis estreou no festival Donaueschingen, em 1955, causou o escândalo esperado numa Europa obcecada pela organização de pontos individuais e grupos de sons. Para compor este trabalho, Xenakis não utilizou as técnicas de composição tradicionais. O compositor adaptou as ferramentas matemáticas que tinha vindo a utilizar no seu trabalho de engenharia, começando a esboçar linhas sobre papel milimétrico, que depois foram convertidas em notas musicais. Xenákis aplicou ao desenho da fenestração do convento a partitura desta peça. Esta própria composição tinha já sido influenciada pelo Modulor, um sistema geométrico de relação de proporções criado por Le Corbusier.

No decorrer do seu trabalho, desenvolveu ideias de transferência recíproca entre formas arquitectónicas e musicais, que Xenákis expandiu na criação de um conceito matematicamente baseado de equivalência estrutural. No ano de 1977 desenvolveu a UPIC (Unité Polyagogique Informatique CEMAMu), um computador para síntese de som com interface visual que permitia a tradução mecânica de desenhos em som.

Esta visão lateral e distanciada da composição clássica dever-se-á ao facto da sua educação musical não ter sido efectuada de forma clássica e ter sido tardia. Devido ao facto do seu passado musical não ortodoxo ser considerado deficiente, vários professores que Xenákis abordou enquanto trabalhava para Le Corbusier recusaram ensiná-lo. Porém, o compositor Olivier Messiaen aceitou que assistisse às suas aulas no Conservatório de Paris. Neste contexto, Messiaen disse-lhe: “Tu tens quase 30 anos, tu tens a sorte de ser grego, de ser arquitecto e de teres estudado matemática. Aproveita essas coisas. Fá-las na tua música.”

 


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