Crónicas de um HipHopcondríaco #14: Bendito presente

[TEXTO] Manuel Rodrigues [ILUSTRAÇÃO] Riça

O elogio ao passado é uma prática comum no universo hip hop. E compreende-se o porquê. Foi nos anos 90, aquela que ainda é vista como uma das décadas mais produtivas da cultura, que se gravaram alguns dos maiores clássicos de rap, entre eles, Illmatic (NAS), The Chronic (Dr. Dre), Fear of a Black Planet (Public Enemy), Black on Both Sides (Mos Def), Ready to Die (The Notorious B.I.G.) e All Eyez on Me (Tupac Shakur), citando apenas alguns exemplos.

É por isso normal que a década dos 90 – a par dos primeiros anos que se sucederam à viragem do milénio – permaneça mergulhada num profundo mar de nostalgia. Este sentimento, quando elevado ao expoente máximo, vive quase sempre ancorado ao chavão “antigamente é que era” e reduz a cinzas aquilo que de bom se faz no presente, deixando no ar a ideia de que o hip hop deveria era ter ficado preso em delimitados contornos sem que nunca lhe fosse concedida a hipótese de procurar novas direcções. O ideal concentra-se nas obras discográficas, ou nos temas editados, mas estende-se igualmente ao exercício ao vivo. Mas serão os concertos desse tão elogiado passado merecedores de tamanho saudosismo? Talvez não.

Há coisa de meses, por altura do festival NOS Primavera Sound 2018, Vince Staples presenteou-nos com um fabuloso concerto, uma verdadeira obra de arte que terá certamente ficado na memória de muitos. Não se tratou apenas de um desempenho em palco exemplar (Staples apresentou-se sozinho, de microfone na mão, apenas secundado por faixas instrumentais) mas também de uma mistura perfeita com um sublinhado equilíbrio entre frequências e energia a condizer. Muitos factores poderão estar nos bastidores do resultado obtido naquele palco, do tratamento prévio dos instrumentais – para que estes se ajustem da melhor forma ao sistema de som que os vai reproduzir (um beat disparado num PA soa completamente diferente de um beat escutado em ambiente de estúdio), sendo que essa preparação pode implicar muitas vezes o reajuste de volumes entre instrumentos ou até mesmo uma nova equalização – aos ouvidos apurados de um técnico de som com bagagem suficiente para saber o que é realmente necessário para um concerto desta natureza: bombos e tarolas possantes, voz destacada, um equilíbrio entre frequências que deixe o grave respirar sem nunca retirar o protagonismo aos restantes elementos. Em suma, todo um ritual que vai muito além da simples ideia de rimar por cima de uma batida. Uma coisa é certa: pode haver boa vontade e muito ar no pulmão, mas um resultado destes só se alcança com um bom trabalho de casa no que diz respeito ao quadrante técnico.

 


Vince Staples no NOS Primavera Sound: sozinho contra o mundo


Os tempos mais recentes da cronologia do hip hop têm sido palco de interessantes evoluções: bandas de acompanhamento com a experiência e vivência certa dentro do género, produtores e técnicos que sabem ao certo o que precisam e o que é necessário para uma música vingar ao vivo, rappers que treinam exaustivamente os flows e respiração para não se deixarem vencer pela falta de fôlego. O próprio equipamento evoluiu. Os PAs são melhores e mais potentes, os teclados e samplers mais fiáveis e versáteis, os triggers das baterias mais avançados, os microfones mais resistentes, os monitores com maior rejeição ao feedback e, melhor do que isto tudo, os in-ears de qualidade cada vez mais elevada, capazes de reproduzir fidedignamente os instrumentos necessários para a escuta do artista. Tome-se como exemplo o concerto de JAY-Z e Beyoncé em Paris no qual tive o privilégio de marcar presença. Estádio gigante e a abarrotar de gente, banda a reproduzir os temas com uma precisão próxima da de uma gravação de estúdio, desempenho irrepreensível dos protagonistas, mistura poderosa e cristalina que cobriu o espaço na sua totalidade. Tudo perfeito. E os exemplos não se prendem apenas com os espectáculos de grande dimensão, estendendo-se igualmente a formatos mais reduzidos, como o concerto de Black Milk, no Musicbox, e a actuação de Piruka, no festival O Sol da Caparica.

Quando marco presença num concerto em que o resultado a nível técnico iguala ou supera as minhas expectativas, sou por vezes involuntariamente assaltado por algumas das piores experiências que já tive que nesse campo. Uma delas aconteceu no dia 11 de Janeiro de 2008, no Armazém F. O evento tinha como nome Hip Hop Fest e trazia consigo as actuações de DJ Sueside, dos Wu-Tang Clan, e Cilvaringz, MC afiliado da crew norte-americana. Dois nomes mais do que suficientes para deixar muitos a salivar e, consequentemente, encher a sala. Contudo, aquilo que prometia ser uma festa de arromba virou um assombrado pesadelo, um autêntico suplício. Sistema mal afinado, com os graves a atropelarem a própria mistura; instrumentais completamente desequilibrados, sem qualquer disciplina dinâmica; microfone em constante saturação harmónica. Numa frase apenas: uma verdadeira banhada. E como este houve tantos outros, pobres na execução e até na própria componente técnica. Falo de concertos repletos de feedbacks, onde a vozes nem se ouviam e onde os instrumentais se evidenciavam totalmente imperceptíveis. Refiro-me a concertos com PAs mal timbrados, técnicos que não conseguiam realizar o trabalho em condições, equipamento com sérias falhas de funcionamento, quadros eléctricos que arriavam a meio do espectáculo, instrumentais exportados directamente do Cubase sem qualquer tipo de tratamento, e rappers que nem se davam ao trabalho de treinar em casa o que iam tentar reproduzir em palco. Tudo mau demais para ser positivamente recordado.

No contexto dos espectáculos ao vivo, é impossível eu ter saudades desses tão elogiados velhos tempos. Bendito seja o presente.

 


Jay-Z e Beyoncé no Stade de France: uma vénia aos Carters

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