Crónicas de um HipHopcondríaco #13: Condução Segura

[TEXTO] Manuel Rodrigues [ILUSTRAÇÃO] Riça

“Riders on the Storm” é um dos mais populares singles da banda norte-americana The Doors, parte integrante de L.A. Woman, o sexto álbum do colectivo, editado em Abril de 1971, do qual fazem também parte temas como “Love Her Madly” e “L.A. Woman”. Além de ser uma importante porta de entrada para a obra do grupo californiano, a par de “The End” e “Light My Fire”, entre tantos outros, esta é uma canção que tem sido ao longo dos anos alvo de várias versões e interpretações. Em 2000, Nightmares on Wax assinou uma envolvente remistura para o disco-bónus do álbum The Best of The Doors, onde é também possível encontrar abordagens de Spacebatz, Ibizarre e Baez & Cornell Tunnel Club. Em 2009 foi a vez dos Infected Mushroom reimaginarem o tema para o álbum Legend of the Black Schawarma, o sétimo disco da dupla de produtores de psytrance. Em 2003, coube a Señor Coconut a honra de reler o tema numa versão merengue que poderá ser descoberta em Fiesta Songs.

Como qualquer adolescente na idade dos videojogos, tive a minha dose de horas gastas em frente a um monitor de computador ou de uma televisão directamente ligada à consola. Nunca me armei em esquisito. Dos simuladores de corridas de automóvel aos conhecidos selos futebolísticos, passando pelos clássicos de combate e até pelos velhinhos títulos de arcada, não há um género que não me tenha prendido a atenção, ao ponto de ainda coleccionar os cartuchos, CDs e DVDs das dezenas de jogos que tive desde a minha infância. Nutria especial afecto por simuladores de automóveis, do Driver ao Colin McRae Rally e do Gran Turismo à saga Grand Theft Auto (não sendo um jogo exclusivamente dedicado à condução, tinha os seus excitantes momentos ao volante de viaturas furtadas). Contudo, houve um jogo em específico que me arrebatou horas e horas do precioso tempo que numa situação ideal teria sido investido em estudos, Need For Speed: Underground II. Fascinava-me o modelo street racing e a possibilidade de conduzir carros quitados ao longo de ruas que em muito se assemelhavam às de Filadélfia e Beverly Hills.

Há músicas que se associam irremediavelmente a certos videojogos. “The Rockafeller Skank”, do britânico Fatboy Slim, foi a cara do jogo Fifa 99 e um dos mais possantes créditos de abertura que esta família de jogos alguma vez teve. “The Ace of Spades”, dos lendários Motörhead, pegando apenas noutro exemplo, ainda hoje nos transporta até às acrobacias em halfpipe de Tony Hawk’s Pro Skater 3 e ao vídeo de abertura onde é possível testemunhar manobras de atletas como Steve Caballero, Chad Muska, Rodney Mullen, Bam Margera e, claro, como não podia deixar de ser, o próprio Tony Hawk, ícone que tive oportunidade de ver ao vivo num evento realizado junto à praia de Carcavelos intitulado Moche Tony Hawk & Friends Show, que, para além do espectáculo do veterano skater e dos seus amigos, ainda contou com concertos de Orelha Negra, Naughty Boy e Icona Pop. A reportagem que assinei na altura, com fotografias de Rita Carmo, poderá ser encontrada no site da BLITZ.

Need For Speed: Undergound II também ficou marcado pela sua banda sonora. Do rol de artistas convidados para dar música ao jogo, destacam-se Queens of the Stone Age (“In My Head”), Mudvayne (“Determined”), Rise Against (“Give It All”), Killing Joke (“The Death & Ressurection Show”), Xzibit (“Lax”) e Terror Squad, com o banger “Lean Back”. Havia, contudo, um tema que se enquadrava na perfeição com o jogo e que servia quase de combustível para as curvas e contracurvas percorridas a alta velocidade no comando de possantes veículos, a remistura de “Riders on the Storm” assinada pelo produtor palestino-americano Fredwreck, com versos de Snoop Dogg e – obviamente – refrão de Jim Morrison. Não se pode dizer que esta seja uma versão perfeita ou memorável, até porque as rimas do rapper californiano nem se aproximam das melhores alguma vez escritas por si, porém, a cadência da batida e o loop de teclados utilizado encaixam maravilhosamente com o original dos The Doors, imprimindo uma toada gangster a uma canção que, segundo consta, vai buscar inspiração à história de Billy Cook, um criminoso do início dos anos 50 que tirou a vida a seis pessoas, incluindo uma família inteira, numa louca e furiosa viagem à boleia entre o Missouri e a Califórnia. As palavras de Morrison, envoltas na atmosfera densa das teclas de Manzarek, são suficientemente explícitas (“there’s a killer on the road / his brain is squirming like a toad … if you give this man a ride / sweet family will die”) mas ganham toda uma nova dimensão quando aplicadas na remistura de Fredwreck: leves, inocentes, destinadas a percorrer estradas virtuais de um videojogo que não procura deixar vítimas.

 


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