Criolo: “No Brasil, o jovem negro está sendo exterminado. Somos o país que mais mata comunidade LGBTQI. Estamos vivendo momentos de muita tristeza e muito caos”

[TEXTO] Núria R. Pinto [ENTREVISTA] Rui Miguel Abreu [FOTO] Caroline Bittencourt

Na mesma noite em que Common, o veterano norte-americano, sobe ao Palco Outdoor do Festival Iminente, um outro veterano e vizinho, reclama para si mesmo o espaço do Lisboa Ao Vivo, no extremo oposto da cidade. Filhos da mesma geração, Lonnie e Kleber partilham entre si a vocação para a música, para o cinema e para o activismo político e social. Se o primeiro nos entregou, aos 47 anos, mais de uma dezena de trabalhos originais enquanto arrecadou GRAMMYs, Óscares ou Globos de Ouro, o percurso do segundo, aos 45, só perde importância para os holofotes que fazem sombra na produção a sul do Equador. 

Quatro álbuns de originais depois, seis prémios e nove nomeações da indústria musical brasileira, mais de uma mão-cheia de participações no grande ecrã e, acima de tudo, uma voz insubstituível da crítica social brasileira, Criolo regressa a Portugal para duas datas que o trazem a Lisboa e ao Évora Urban Village amanhã e sábado, respectivamente. “Tem sido maravilhoso. Temos uma resposta extremamente positiva aqui no Brasil dessa tournée. Além dos singles, vamos cantar músicas que passam por todos os discos que gravámos. Tem muita música que não cantamos há muito tempo e isso vai ser muito bom!”, revela o músico em conversa com o Rimas e Batidas.

Ao vivo e num formato em que se faz acompanhar com banda, Criolo traz na bagagem de mão os temas “Boca de Lobo” e “Etérea”, lançados no último ano, prometendo um novo trabalho “para breve”. O primeiro, ainda de 2018, deixava antever a inevitável instabilidade política e social que se avizinhava, num claro recado pré-apocalíptico, com produção de Nave e Daniel Ganjaman, em jeito de banda sonora para um vídeo carregado de referências a uma São Paulo distópica, corrupta e em chamas. “Essa é a máquina de matar pobre. No Brasil, quem tem opinião, morre.” 



No último, Criolo vai à pop da produção borbulhante dos DKVPZ para, novamente, se chegar à frente e discutir questões de tolerância sexual e não-discriminação que o hip hop, por tantas vezes, defende mas que, nem por isso, se habituou a concretizar. “É muito triste mas se faz muito necessário. Estamos vivendo um momento de muito ódio. Onde ele está sendo cultivado, valorizado e, pior, está sendo celebrado. E isso vai de encontro a ideias antigas de que o mundo tem que permanecer no período medieval. Existe uma exaltação à desvalorização desse processo que humaniza as pessoas.”, confessa. “Estamos vivendo 2020 e estamos retrocedendo rapidamente a um período em que perceber o outro, compreender as suas necessidades, está sendo completamente deixado de lado. Aqui, no Brasil, o jovem negro está sendo exterminado. Somos o país que mais mata comunidade LGBTQI. Estamos vivendo momentos de muita tristeza e muito caos. Então é necessário, sim, falarmos. Necessário quebrar os padrões, abrir os portões. Um diálogo real e sincero. Porque o ódio se condensa e nós temos números. As pessoas estão sendo assassinadas e isso é um facto.”

No hip hop, no jazz, na MPB ou no samba, Criolo nunca foi outra coisa senão um activista cultural e um revolucionário pela palavra. Professor e educador, sabe que o caminho passa somente pela transformação, seja qual for a sua ferramenta. “A música é uma arte que nos visita de um jeito muito especial. Uma grande ferramenta de transformação humana. Uma música faz você repensar numa série de coisas e isso não tem preço. É importante você dividir a sua energia, o seu olhar, como um complemento para tentar compreender o contemporâneo que nos visita, tão caótico, tão sem diálogo, tão áspero. Mas do artista, vai do coração dele. O coração do artista diz se ele quer escolher esse tipo de acção na sua trajectória. É uma coisa muito particular.”

Da mpb e do jazz de Nó na Orelha à música afro-brasileira e ao boom bap de Convoque Seu Buda, passando pelo samba de Espiral de Ilusão e recuando às origens de Ainda Há Tempo, Criolo sobe ao palco do Lisboa ao Vivo esta sexta-feira e no dia seguinte vai até ao Évora Urban Village para dois aulas-espectáculo a que importa comparecer.


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