Conan Osiris: o futuro começou há um ano

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Inês Costa Monteiro

Há precisamente um ano, mais ou menos pela hora matinal a que agora escrevo, um email do Bandcamp dava-me conta de um novo lançamento na AVNL Records. Cinco minutos depois fui invadido pela certeza de que estava a ouvir o disco do ano: daquele que então terminava, deste que se preparava para começar ou de qualquer outro cujo calendário Adoro Bolos pudesse ter decidido abençoar.

365 dias volvidos, a certeza permanece: Conan Osiris veio trazer-nos o futuro. É um futuro para que se trabalha há muito. Todos os artistas que algum dia desafiaram normas e procuraram fazer diferente — de Amália e José Afonso a José Cid e António Variações ou Heróis do Mar, da Banda do Casaco a Paulo Bragança, dos Madredeus a Buraka Som Sistema e Samuel Úria… — ergueram de facto um degrau nesta escada que Conan Osiris concluiu. Todos os artistas que alguma vez experimentaram criar com outras ferramentas — dos Telectu aos Underground Sound of Lisbon, de Sam The Kid e Boss AC a Stereossauro ou Marfox ou Nidia Minaj e Slow J — também contribuíram para que o futuro se fosse aproximando do nosso presente. Todos os artistas que proclamaram liberdade e por ela lutaram — de José Mário Branco e Sérgio Godinho a Mão Morta e Pop Dell’Arte, de B Fachada a Allen Halloween — foram igualmente determinantes nesta construção sempre inacabada de um futuro que se deseja, mas que não é fácil de alcançar.

 


Conan Osiris // Adoro Bolos


Todo o fado, toda a música popular, toda a música de pista, mesmo a de carrinhos de choque, todo o rock e todo o metal e todo o hip hop e todo o punk e todo o reggae e toda a kizomba, todo o semba e todo o samba, toda a batida e toda a melodia que algum dia conquistou corações, ancas e cabelos, pensamentos e acções, toda a música que nos fez alguma vez ter vontade de dizer “isto sou eu”, contribuiu para que chegássemos aqui, à beira de 2019, com uma saúde pujante, cheios de ideias, com clara vontade de desafiar normas e fazer diferente, de experimentar novas ferramentas, de lutar pela liberdade. Pela diferença. Conan Osiris é o fim disso tudo e o princípio de algo novo. O futuro começa nele, mas o passado não morre necessariamente nele. Porque o futuro só se ergue à custa de memória e ouvindo a música de Adoro Bolos percebe-se que Conan não se esqueceu de nada do que veio antes. Pelo contrário, tem consciência de todos os degraus erguidos por outros, degraus que o ajudaram a subir até perto do futuro que soube agarrar.

E agora aí está ele, 2019. Um futuro que se vai tornar presente que há-de virar passado. Um ano depois, sem vídeos, sem uma edição física nas lojas, sem sequer ter disponibilizado o álbum para audição nas plataformas de streaming mais populares, Conan Osiris continua a ver a sua visão a crescer, não por pressão de números e de uma popularidade empolada pelos modos virais que definem estes tempos, mas por força das ideias puramente musicais que a sustentam. São essas ideias que hão-de criar descendência , que hão-de inspirar quem porventura possa vir a seguir reclamar este futuro e fazê-lo seu também.

Uma certeza para esse futuro: Conan vai certamente trazer-nos mais “Borregos”, mais bolos de deliciosa e fina ironia, de tarraxos arrastados, porque ninguém quer saber desse limite. O futuro é amplo. Tem lugar para mais Conans, tem lugar para as suas novas canções agarradas por outras vozes, para festivais de canções que se querem novas e arriscadas, rasgadas, reinventadas.

E eu mal posso esperar…

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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