Burial, Tunes 2011 to 2019 e a obrigação de voltarmos constantemente ao ponto de interrogação

[TEXTO] Vasco Completo [FOTO] Georgina Cook

No último trimestre do 2019, como forma de fechar correctamente a década, a notícia de um novo lançamento de Burial fez novamente ressoar o seu nome por todo o lado — nesse mesmo ano saiu o maxi-single Claustro / State Forest pela casa discográfica com a qual tem lançado desde 2005, Hyperdub, mais uma forma do reclusivo produtor se mostrar sem precisar de grandes alaridos. Tunes 2011 to 2019, a mais recente compilação, trouxe ao formato físico tudo o que sucedeu a Untrue, excluindo remisturas, entradas em compilações e VAs, colaborações e ainda presenças noutros catálogos (como o caso da Nonplus ou da Keysound Recordings, com Pre Dawn / Indoors e Temple Sleeper, respectivamente). De fora ficou também o single “Rodent”, de forma quase inexplicável (embora se possa entender que a faixa influenciaria negativamente na coerência da compilação – mas já lá vamos).

William Bevan é um caso (praticamente) único no mundo da música. Um desconhecido, um fugitivo das câmaras, da imprensa, da vida na Internet, pelo menos de forma pública. Como se mantém afastado das redes sociais, a sua discografia tem falado por si, e tem sido incessante alvo de estudo e interesse. Sabemos, por algumas entrevistas dadas na época de Untrue, que olha com nostalgia e saudosismo para um período no qual o marketing de um artista não passava por tweets ou insta stories. “I don’t really go on the internet, it’s like a ouija board, it’s like letting someone into your head, behind your eyes. It lets randoms in“, dizia. Impossível, no entanto, dizer que não conhecemos Bevan, dada a relação tão pessoal entre si e a sua música. A clássica história da morte do seu cão e como a depressão levou a sua mãe a incentivar William a fazer um chá e ficar acordado até tarde a criar, trouxe à Terra (20 minutos depois, reza a lenda) a épica “Archangel”. A música que tão bem representa a forma como os ecos, as sombras e as vozes na discografia do produtor estão cheias de vidas, pessoas, anjos e demónios.

Burial demonstra-se, no final das contas, como a derradeira expressão de que a rave, e o som que a envolve, não existem num “espaço físico” palpável. As suas produções não servem mais para se ouvir numa pista de dança do que numa volta de carro numa noite chuvosa e enevoada. As metáforas à música de Bevan são já imensas – e com razão. O seu cenário é tão mais vasto que um armazém qualquer escuro com música muito alta, talvez pelos tons cinematográficos, ou pela quantidade de camadas que um só tema pode ter. Como tal, não é aí que nos queremos centrar, que muita tinta virtual foi já gasta para essas metáforas.

Na altura pós-Untrue, Burial perdeu várias ideias que tinha gravadas devido a problemas técnicos do computador. Afirmou que iria apostar num álbum verdadeiramente negro — “make a true darkside Burial album”, mais exactamente. Devemos, antes de mais, agradecer ao seu computador por essas perdas: o que se seguiu foram alguns dos trabalhos mais inspirados do artista. Como os nossos colegas da Pitchfork tão bem apresentam, na década que sucede os seus dois álbuns – marcos da música electrónica (mais ligados ao dubstep, ao UK garage e seus “familiares”) –, o âmbito estilístico pelo qual William Bevan se estendia alargou-se para uma crescente quantidade de géneros que se interligam, justapõem e aglutinam. Entre os campos mais atmosféricos ambient de “State Forest” ou “Beachfires”, e os breakbeats industriais de “Rival Dealer” ou “Truant”, há ainda uma multitude de universos que nunca se afastam dos seus quadros enevoados e soturnos, nos quais as melodias sampladas, o reverb e os crackles de um vinil envelhecido nunca nos fazem esquecer a nostalgia duma rave que nunca vivemos. A aposta nas formas e estruturas mais irregulares, trouxe novas possibilidades à sua música, e a constante incerteza/surpresa que sai de cada lançamento seu.



Há uma clara intenção comercial por detrás da compilação do produtor britânico e podemos compreendê-la como tal. Tendo apresentado ideias soltas em singles, colaborações ou outros projectos de mais curta duração, comprimir tudo em dois Compact-Disc com um total de 149 minutos é uma forma de multiplicar o lucro destes oito anos, sem que efectivamente haja novo trabalho. Organizar diferentes singles e EPs, lançados como diferentes projectos, individuais e separados entre si, é uma excelente maneira de descredibilizar estes formatos. Compilar oito anos de trabalho de William Bevan, é rentabilizar fincanceiramente o que foi lançado, mas é esquecer que um EP ou um single podem ser trabalhos fechados em si. Um aparte: esta ideia pode ser rapidamente posta de parte se escutarmos Tunes na íntegra. Facilmente percepcionamos que estas 17 faixas funcionam coesas em conjunto, e representam bem esta década para Burial – as novas técnicas de sampling, o adensar do espectro sonoro, ritmos e melodias, tudo num lançamento. Mas há que ver: um álbum é um álbum. Um EP é um EP. Um single é um single.

Os EPs Rival Dealer, Kindred e o último maxi-single são claros exemplos de trabalhos com densidade e conteúdo suficientes para que sejam vistos como trabalhos únicos — demonstram uma estética instrumental e composição que podem ser directamente associadas a diferentes momentos da carreira de Burial, mas não se cruzam.

Numa época em que o álbum, e o seu consumo integral e seguido vai sendo cada vez mais uma celebração de nicho, há a possibilidade de Bevan ter-se adaptado à sua audiência – ou a um público que não tenciona colocar os auscultadores no quarto e ouvir mais de 40 minutos de música seguida –, e ter sabido ler a década de cimentação do streaming, do cada vez mais curto attention span dos millenials. Não tencionamos partir para o campo da suposição, apenas considerar que um novo álbum pode não ser nem a intenção de Burial, nem uma “falha” assim tão grande na sua discografia.

Há ainda que considerar o esbater das concepções destes formatos. O que define hoje em dia o que é um álbum, um EP ou uma mixtape? Cada vez mais esta definição está a cargo de como o artista expõe e afirma ser o lançamento. As plataformas de streaming pouco diferenciam (ou limitam) o que está na génese de cada um dos formatos. Já não são nem a duração nem o formato do trabalho que carregam o peso dessa decisão. Aliás, Rival Dealer e Kindred são EPs que rondam os 30 minutos, portanto, “extended-plays” que tão ou mais longos que os “long-plays” de Earl Sweatshirt, os últimos dois de Kanye West, Pusha T, Slow J e (para não dizerem que só nos cingimos ao mundo do hip hop) próximo das durações de Montanhas Azuis, Croatian Amor, por aí fora. Antes eram limitações técnicas (tempo que cabia num disco) ou mesmo importância do trabalho (porque singles e EPs podiam ser considerados como promoção dos álbuns). E agora?

Quanto mais Burial lança, menos parece realmente saber-se sobre ele. Porém, o que vai fazendo continua a sustentar a ideia de que é um dos artistas mais importantes das últimas décadas, obrigando-nos a repensar sobre o som e a indústria.


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