Boogie // Everythings For Sale

[TEXTO] Moisés Regalado

Apesar de Boogie chegar a 2019 como artista da Shady Records, responsável pela edição do seu álbum de estreia, não se pode dizer que até então a vida lhe andasse a sorrir. A relação com a Interscope estava cada vez mais morna e já se adivinhava um desfecho idêntico ao de tantas promessas avassaladoras que entretanto falharam o timing ou perderam a boleia, mas bastou uma chamada de Eminem — assim reza a lenda recentemente plantada — para mudar o rumo das coisas. Apesar do fenómeno Kendrick e da espécie de assalto ao game que elevou Compton a capital da Costa Oeste, a nuvem negra sobre Boogie não desapareceu e a popularidade de K-Dot, YG ou até Tyga não foi suficiente para também abraçar o autor das mixtapes Thirst 48 e The Reach, mesmo depois do burburinho causado pelos poucos — mas óptimos — singles que Boogie foi lançando entretanto, como “Bitter Raps” ou “Sunroof”.

Só que Slim Shady continua a ser um dos a.k.a. mais influentes da indústria e, pelos vistos, Eminem continua a ser o mesmo coleccionador e ouvinte dedicado que há uns anos confessava ouvir as centenas de maquetes que lhe iam chegando diariamente, e facilmente se percebe o que Em viu em Boogie (ou WestSide Boogie, não vão as tendências confundi-lo com o rapaz do hoodie que vai escalando pelos lados de Nova Iorque). Everythings For Sale tem tudo, e tudo o que Boogie tem. A começar pela voz, a tal de tom nasalado que fideliza à primeira, sem nunca esquecer o talento e a visão com que Boogie se atira às feras desde 2014. Depois do vídeo para “Oh My”, ao lado de Hit-Boy, que conquistou essencialmente por causa de uma honestidade bairrista pintada a tons de vermelho, ou de um “Nigga Needs” que passados três anos continua tão impressionante como no primeiro dia, é a vez de “Silent Ride” se juntar à irrepreensível filmografia de Boogie, tão dedicado na tela como no caderno e na cabine.

 



Além de Boogie ser um daqueles artistas que garante a qualidade da obra, contando que há flows incomparáveis e imunes à crítica e que o seu é um dos tais, é também um caso sério de foco e superação — e isso só conta porque o traduz na sua música como ninguém, dentro ou fora do seu bairro de sempre. Apesar de começar um dos seus versos com “Word to the titles, so word to my idols and word to the goats/ I ain’t sayin’ I like ’em, I’d kill all them niggas and wear ’em as coats”, de ser capaz de protagonizar hits tão entusiasmantes como “No Way” ou “Wit Me” e sem nunca esquecer que as portas do jogo se estavam a fechar lentamente, o MC não tentou fazer do seu primeiro major álbum uma compilação de bangers ou sucessos comerciais garantidos.

Nem seria de esperar que, do nada, Boogie abandonasse o seu pequeno apartamento, onde tanta história a sério se tem escrito, para abraçar o centro de L.A. e do mundo, mas uma aposta nunca está ganha antes do apito final e não havia como prever que direcção Boogie ia seguir. Pelos vistos, o rapper ficou precisamente onde estava e, mais do que recorrer ao seu arsenal de raps orelhudos, passou os últimos meses a aperfeiçoar o talento, cada vez mais evidente, para compor canções intemporais, sempre com os pés bem assentes em Compton — e em Bompton. E não vale confundir o caminho de Boogie com o de Buddy, outro dos seus conterrâneos, dos Audio Push e de tantos outros que não tiveram a mestria necessária para contrariar os (seus próprios) impulsos geracionais.

À excepção de “Self Destruction” e “Soho”, com o incontornável J.I.D, Everythings For Sale é um dos mais suaves — e belos — conjunto de raps editado recentemente. Mas é, também, uma das mais aguçadas lições de escrita e flow a que 2019 irá ter o prazer de assistir. “I need a rap nigga just to mention me, I’ma finish him / Keep it industry, just don’t intervene with my nigga needs”, dizia Boogie em 2016. Agora que o fim da década se aproxima e sem haver ninguém que o puxe para o ringue, espera-se, com os dedos bem cruzados, que o pequeno empurrão de Eminem para o centro do palco faça deste mais um grande talento de Compton.

 


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