SOB ESCUTA: Blackground do Duo Ouro Negro em destaque esta quarta-feira

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É já na próxima quarta-feira, dia 23 de Janeiro, que acontece a nova edição do SOB ESCUTA, na Fnac Chiado, em Lisboa, às 18h30. Blackground, do Duo Ouro Negro, é o disco em destaque na rubrica comandada por Rui Miguel Abreu, que conta com a participação de Miguel Augusto Silva, responsável da Armoniz.

Em 2018, a Armoniz recuperou uma das mais importantes peças dos Duo Ouro Negro e assinou uma reedição limitada a 500 exemplares. Blackground é um original de 1972 e nasceu da experiência que a banda adquiriu após uma digressão nos Estados Unidos da América, durante a qual conviveu de perto com o jazz efervescente da época e o activismo do movimento Black Power.

Em 2017, Rui Miguel Abreu falou sobre o álbum no livro Cento e Onze Discos Portugueses – A Música na Rádio Pública, produzido pela Antena 3, texto que recuperamos e que podem ler de seguida:

“A obra do Duo Ouro Negro ainda aguarda uma correcta avaliação que analise a sua importância e alcance no contexto mais amplo da “música portuguesa”. Marissa J. Moorman, a académica que estudou a fundo a identidade musical angolana, dedica algumas linhas ao Duo Ouro Negro no seu estudo Intonations – A Social History of Music and Nation in Luanda, Angola, from 1945 to Recent Times (Ohio University Press, 2008). Escreve Moorman que “o Duo Ouro Negro teve um sucesso tremendo tanto dentro como fora de Angola. Representaram Portugal em competições musicais internacionais. Foram importantes em espalhar uma variedade de estilos musicais angolanos, embora Albina Assis recorde que aqueles envolvidos nos movimentos nacionalistas os menosprezavam por tocarem a música dos Ngola Ritmos sem lhes darem o devido crédito”. Que a menção mais significativa ao Duo Ouro Negro ocupe apenas uma nota de rodapé neste importante estudo já é, em si, significativo, mas nas entrelinhas das palavras de Marissa J. Moorman adivinha-se a mais complexa relação que o grupo estabeleceu com Angola, com a sua identidade revolucionária, com Portugal e com o Império. Não se atribuiu ainda o devido valor à sua obra talvez porque não se saiba exactamente onde a colocar. Na esfera da música angolana, na da música portuguesa? Talvez ajude se a colocarmos apenas num contexto histórico muito específico.

Blackground, o álbum que o Duo Ouro Negro lançou em 1971 e que teve uma espécie de sequela 10 anos mais tarde com o regresso à mesma ideia em Blackground II, deveria bastar para atribuir a correcta dimensão à visão de Raul Indipwo e Milo MacMahon. Sim, de facto, o Duo Ouro Negro foi também um símbolo pop do império, cantou em francês, inglês ou “brasileiro”, mas tinha igualmente consciência da sua própria identidade cultural e bastas vezes cantou nos dialectos que se escutavam nas ruas de Luanda. E quando cantavam em português, como em ‘Venho de Longe’, deste fabuloso trabalho de 1971, não deixavam de colocar o dedo na ferida imperialista: “Venho de longe, de longe eu sou / tem outro nome quem me comprou”.

O duo imaginou Blackground como uma experiência conceptual, um disco que pensava não apenas Angola, mas África e a sua diáspora. Com a colaboração dos Objectivo de Kevin Hoidale, Zé Nabo e Mário Guia, o Duo Ouro Negro apresentou em Blackground um mosaico intencional em que a música de Angola representava uma das nuances. E em temas como “Amanhã” desenhavam uma esperança de mudança que não era muito diferente daquela que cantavam os grandes nomes da soul durante o Civil Rights Movement, na América. A riqueza percussiva, aliada à beleza melódica e às harmonias vocais renderam pérolas como “Napangula” que sublinhavam a multiplicidade de registos que o Duo Ouro Negro alcançava (o interlúdio jazz deste tema, por exemplo, é absolutamente delicioso). No fundo, um reflexo da realidade que os rodeava. O Duo Ouro Negro não se escondeu do seu tempo, mas o nosso tempo parece querer escondê-los. Um pouco, pelo menos…”

 


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