Podemos afirmar com quase 200% de certeza que Ana Lua Caiano é uma das vozes mais singulares da música portuguesa contemporânea. Em 2024 ofereceu-nos a sua versão mais real e crua com o disco de estreia Vou Ficar Neste Quadrado, que nos fez questionar o que é que andamos aqui a fazer se não consumirmos esta peça. Chegados a 2026, a espera está quase a chegar ao fim. Em novembro vem outro álbum, o segundo da artista, que já começou a ser desvendado.
A cantora de 27 anos cresceu rodeada de arte e desde os seis que tem uma relação séria com o piano. Daqui para a aparição pública, a catapulta foi a pandemia. Confinada em casa, descobriu a produção musical e deu forma a um projeto one-woman band, onde sintetizadores, loopstation, percussões e voz se fundem numa aesthetic que cruza música tradicional e eletrónica. Assim nasce: Ana Lua Caiano.
Em 2022 apresentou-se com o EP Cheguei Tarde a Ontem, seguido de Se Dançar É Só Depois. Ambos nasceram de canções escritas durante o confinamento, mas mostram o amadurecimento da artista na produção e gravação. “No segundo EP já estava mais confortável e consegui gravar melhor sozinha”, contou a compositora em entrevista ao Rimas e Batidas. E se já era mãe de duas pequenas peças musicais, em 2024 nasce o filho pródigo de Ana Lua Caiano. Um longa-duração editado pela Glitterbeat Records intitulado Vou Ficar Neste Quadrado.
O disco não só confirmou o potencial que lhe indentificámos nos primeiros EPs, como também foi aclamado pelos ouvidos de todos — fãs e apreciadores de música. Venceu o Prémio da Crítica nos PLAY – Prémios da Música Portuguesa, foi eleito o melhor álbum português daquele pelo Blitz e “Deixem o Morto Morrer” (um dos sucessos do disco) arrecadou o Globo de Ouro de Melhor Canção. “Os prémios são uma motivação extra, mas o projeto é muito pessoal. O reconhecimento que me atribuíram é só uma motivação para continuar a compor”, explicou.
A digressão europeia no ano passado mostrou que a música realmente ultrapassa barreiras linguísticas. Ana Lua Caiano usa uma medalha ao peito ao longo da carreira: a utilização do português nas composições líricas que nos entrega. “É surpreende perceber como as pessoas de outros sítios se identificam com a minha música, mesmo sem entenderem a letra”, partilha. Na Croácia, por exemplo, encontrou públicos que ouviram as suas peças musicais e decidiram unir a arte sonora com a dança, num espetáculo tão arrepiante e tradicional, como moderno e contemporâneo.
Chegados a 2026, a cantautora regressa com “Uma Vida A Menos”, um single de crítica e protesto ao quotidiano dominado pelo regime laboral e à escassez de tempo para viver. O videoclipe, realizado em parceria com Joana Caiano, é quase filho do pai do “cadáver esquisito” em Portugal, Mário Cesariny. Mostra-nos o surrealismo que um escritório coberto de terra pode ter e coloca em confronto o artificial com a natureza. “Quisemos mostrar trabalhos absurdos, tarefas sem sentido, para questionar a forma como vivemos”, explica Ana Lua Caiano.
Se o vídeo fosse gravado no Café Gelo, poderíamos baptizar esta colaboração audiovisual como a nascente de uma nova vaga de poetas surrealistas portuguesas. A receção a este single — que antecipa o próximo disco — tem sido calorosa e, acima de tudo, relatable para os fãs. As pessoas partilham com Ana Lua Caiano pequenos episódios do quotidiano ligados a esta temática. “É bom ver que a música abre espaço para refletir sobre direitos laborais e causas sociais”, partilha.
Previsto para novembro, o novo LP promete ser ainda mais político e intenso. Sob o mote da imigração, da guerra e da morte, Ana Lua Caiano pega em atrocidades que se vulgarizaram e convida a que nos juntemos numa linguagem corporal artística para “dançar sobre o que é mau”. Musicalmente, as grandes apostas foram os instrumentos acústicos (sobretudo a relação de longa data com as teclas) e a exploração do contraste entre a multiplicidade sonora e a ausência de som.
Ao longo dos meses a compositora vai lançando temas soltos até à chegada da obra final. Um dos próximos singles vai contar a história de um emigrante português que sonha regressar, mas que nunca consegue. Inspirado em histórias de emigrantes portugueses que conheceu em viagem, Ana Lua Caiano apresenta-nos uma metáfora para a realidade de muitos que abandonaram o país. Há um desejo intrínseco em voltar, mas acabam por ficar fora da terra natal.
Até novembro, resta-nos esperar pelas migalhas que Ana Lua Caiano nos dá, para, por fim, consumirmos o tão esperado segundo álbum que está a preparar para nos entregar.