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Fotografia: Marta Caeiro
Publicado a: 11/05/2026

Um farol jazzístico na Linha de Sintra.

Amadora Jazz’26 — dia 2: à luz da constelação inquieta de Mary Halvorson

Fotografia: Marta Caeiro
Publicado a: 11/05/2026

A multicultural cidade da Amadora abriu-se à 14ª edição do Amadora Jazz na última semana. De quinta a domingo, uma resistente iniciativa ergueu um farol-ponte que tanto ilumina o céu noturno como liga as margens de uma civilização tensa e contraditória.

O festival foi alargando as suas activivdades a vários equipamentos municipais e, pelo segundo ano consecutivo, proporcionou uma residência artística que tem como objectivo gravar um disco com a chancela Amadora Jazz. Na edição anterior, Luís Vicente e Hamid Drake foram os artistas convidados cujo trabalho resultou no Amadora Tapes — lançado nos dias que antecederam o festival. Este ano, os artistas convidados foram os FLORA — projecto liderado pelo guitarrista e compositor Marcelo dos Reis e que conta com o contrabaixo de Miguel Falcão e a bateria de Luis Filipe Silva. O trio teve a participação especial do trombonista italiano Salvoandrea Lucifora. 

O Amadora Jazz pretende, desta forma, afirmar-se como um espaço de criação enquanto reforça a intenção de diversificar e captar novos públicos, espalhando-se pela cidade. Ainda assim, e apesar de o jazz ter nascido como um grito de libertação contra a supremacia racial, tornou-se hoje, curiosamente, um reduto frequente — e quase exclusivo — de uma certa burguesia branca europeia. Mesmo por entre a diversidade cultural e racial da Amadora, esse público parece que raramente se encontra, se agrega ou mistura. Suspiramos, ainda assim, pelo fim deste confinamento e que, em breve, congregue, finalmente, ricos e pobres; privilegiados e desfavorecidos, livres e escravos. O Rimas e Batidas assistiu aos dois concertos de sexta-feira, no segundo dia do festival. 

Enquanto algumas crianças se divertiam ainda no recreio da escola aguardando os pais que atravessavam a cidade depois de uma semana de trabalho, Miguel Calhaz apresentava o seu ContraCantos Vol. 2, e dava início ao primeiro concerto do dia, no pequeno auditório da Biblioteca Municipal Fernando Piteira Santos – novo espaço da edição deste ano.  

O músico beirão apresentou-se de contrabaixo em riste para um reportório que viajou dentro do cancioneiro português de José Mário Branco, Sérgio Godinho, José Afonso e Adriano Correia de Oliveira. Releituras jazzísticas arejadas, pertinentes e contemporâneas, numa actuação firme de talento apenas ao alcance de quem conhece todas as ruas e travessas do contrabaixo; ora fazendo dele um instrumento de percussão, ora percorrendo os tons graves e os agudos mais impossíveis. Calhaz explora silêncios por abrir ou por quebrar, como quem abre janelas dentro dos temas mais icónicos dos cantautores portugueses. No fundo, liberta-os com melodias que surgem da sua voz, sempre inacreditavelmente afinada e que parecia encarnar cada um dos autores originais. Os temas “Inquietação”, “Liberdade”, “A Noite Passada”, “Epígrafe para a Arte de Furtar”, não deixaram a plateia indiferente, que cantarolou, adorou e aplaudiu de pé. 

O momento mais esperado da noite estava reservado para as 21h00 nos Recreios da Amadora. A aclamada guitarrista e compositora do Massachusetts, Mary Halvorson, apresentou-se com o seu novo quarteto, Canis Major, perante uma sala praticamente esgotada. Com Dave Adewumi no trompete, Henry Fraser no contrabaixo e Tomas Fujiwara na bateria, a sua música faz-se no limiar: entre gesto e suspensão, entre presença e desaparecimento, entre ruído, harmonia e silêncio. 

O grupo estreou-se no início de 2025 com concertos no Jazz Gallery, em Nova Iorque, e realizou na Amadora a primeira atuação da tour no continente europeu, conferindo-nos a emoção privilegiada de estarmos no lugar onde começa algo. Com um repertório quase totalmente novo de música original, escrita especificamente para esta formação, este quarteto pertence à vanguarda mundial do jazz. Canis Major é uma enorme constelação do hemisfério celestial sul, famosa por abrigar Sirius, a estrela mais brilhante no céu noturno. Porém, neste cinético quarteto, que oscila entre o minimalismo e a progressão enérgica, o mais difícil é perceber qual a sua estrela mais brilhante. 

Mary Halvorson construiu, com o seu jeito peculiar de tocar, imagens bucólicas e paisagens sonoras que se assemelham às constelações estelares — polvilhando pelo imenso espaço negro pontos de luz que o trompete de Dave Adewumi se encarregava de unir com melodias por vezes triunfais, por vezes sussurradas. Um fraseado quase vocal que introduzia o contraste e o relevo à conversação oblíqua que manteve todo o concerto com a guitarra.  

“Hive Mind” foi o tema da abertura e, imediatamente, percebemos que a interação entre os músicos era especial. Na bateria,  Tomas Fujiwara fez uma atuação absolutamente sublime e ofereceu tudo o que um baterista de jazz pode oferecer. Utilizando panos sobre a tarola ou baquetas de lã, foi sempre dali que surgiram as texturas mais macias e os timbres mais secos. A bateria é a cor deste quarteto e Fujiwara parece tocar com a contenção e o minimalismo de quem dança sobre um chão de porcelana fina. Foi no tema “Mother of Pearl”, em que cada músico tentava retirar o som mais incisivo de cada instrumento, criando um certo caos atmosférico, que mais se notou esta sensibilidade e nos exigiu uma escuta quase microscópica.      

“Shimmering Feedback” revelou-se a passagem mais enérgica da noite, uma progressão rítmica e melódica difícil de deter recordava-nos o andamento de um comboio. Era percetível na guitarra de Halvorson um movimento rock e uma sonoridade elétrica quando usava os pedais. Henry Fraser era o homem do groove quando dedilhava, e o armador da tensão quando usava o arco. Fez um solo irascível em “The Color of Bone”. Na minimalista “Spiral Arm”, extraiu do contrabaixo um som entre o elétrico e o canto das gaivotas quando arranhava as cordas com as unhas. Explorou sempre a tensão física do som e eram dele também a suspensão e a opacidade do ar. “Off The Record” despertou com uma suave melodia do trompete, um amanhecer crepuscular; Fujiwara soletrou a subtileza melódica dos pratos, enquanto a guitarra de Halvorson deixava vestígios da folk e do blues. Halvorson mostrou ainda alguns acordes de sonoridade hispânica em “Bell Jar” e expôs mais claramente a fragmentação das suas influências. 

A música deste quarteto ronda o limiar do som e do silêncio como matéria, visita a fronteira entre a luz e a escuridão. Respira no eco e suspende-se em intervalos que reorganizam o caos e contornam as formas mais difusas. Canis Major mistura jazz contemporâneo, improvisação livre, música de câmara, textura, suspensão e tensão física do som. O público aplaudiu de pé e saiu entusiasmado para comprar os discos e CDs que estavam na mesa de venda. Uns minutos depois de sair de cena, o quarteto veio ao nosso encontro e disponibilizou-se para conversas, fotografias e autógrafos.

Canis Major deixou a sensação de que a música pode continuar a expandir-se mesmo quando parece suspensa às portas do silêncio. Talvez seja precisamente isso que ainda faz do jazz um lugar necessário: a possibilidade, cada vez mais rara, de escutar o outro. Seja na presença, seja na ausência.


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