Xeg: “Nunca houve tão bons rappers como há agora”

[ENTREVISTA] Ricardo Farinha [CAPTAÇÃO IMAGEM] Sebastião Santana [EDIÇÃO IMAGEM] Luis Almeida

Desde o final dos anos 90 que é um dos rappers mais conceituados em Portugal e tem aquela que é uma das vozes com mais Conhecimento na ponta da língua. Xeg atirou-se aos primeiros meses de 2018 com o single “Oh Mãe” e a participação em “Apontamentos”, de Manilha. Motivos mais do que suficientes para justificar uma conversa com o Rimas e Batidas, na loja da Montana em Lisboa, já que Rui Constante também se prepara para lançar mais música nova este ano — e tem sempre uma boa perspectiva para ouvirmos, sobretudo quando o hip hop, em Portugal e lá fora, está numa fase tão distinta da que existia quando Xeg escrevinhou os primeiros versos.

 



Partindo do single que lançaste recentemente, “Oh Mãe”, disseste que estavas a preparar várias novidades para 2018, depois adiantaste que em princípio irias gravar um vídeo para o tema “Lágrimas”. Isso sempre irá acontecer?

Sim, vai. Depois lancei o “Apontamentos”, com o Manilha, era para lançar outro som — que já está feito — mas houve uns problemas no estúdio e ia ter de regravar o som, entretanto não vai dar tempo, e surgiu a oportunidade de gravar o vídeo do “Lágrimas”, que quero gravar há mais de um ano, então acho que vou fazer isso. Embora o som tenha saído no EP passado, para mim continua a fazer sentido.

E o outro single vai ficar guardado?

O outro single não sei, porque a partir de Setembro quero começar a lançar já as cenas que estou a gravar para o EP que estou a fazer com o Manifes70. Vai acabar por não ter muito timing para sair.

E este single que pode nunca vir a sair, e o “Oh Mãe”, são temas soltos? Ou fazem parte de um futuro trabalho?

Não, são singles soltos. Eu planeei este início de 2018 para lançar as coisas que tinha soltas, para, a partir de Setembro, concentrar-me — concentrar-me não, porque as músicas já estão feitas, já estou a gravar o EP com o Manifest70.

Nesse sentido consideras que és um músico metódico, planeias de forma estratégica aquilo que pretendes fazer, em termos de lançamentos?

Olha, se calhar por não planear bem é que estou assim a soltar estes singles um bocado à toa [risos]. Mas este projecto que tenho com o Manifes70 é uma coisa que já tenho pensada desde 2011. E depois voltámos em 2015 e estamos agora a fazê-lo.

Esse vai ser um EP que também terá um tema mais específico, algo mais conceptual, como o Recortes, que se focava em relações?

Não, o conceito do EP é o Manifes70 a produzir e eu a rimar. Não vai ter uma cena temática.

Ele também participa em faixas a cantar e a rimar?

Vai, com o grupo dele, e um tema em que ele canta o refrão. Em princípio, pelo menos é assim que está estruturado agora [risos]. E vai ter seis faixas, esteve para ter oito, mas acho que vamos ficar pelas seis.

Para sair na recta final do ano?

Para sair no princípio de Janeiro, talvez.

Também já tínhamos ouvido falar de um projecto chamado Zé Gato, certo?

Vocês estão informados. Já está todo produzido, os vídeos já estão feitos.

Mas o que é exactamente?

Aquilo são beats — até agora fiz os beats, são 18. Tem cenas de uma série portuguesa que é o Zé Gato, pus as vozes deles. E depois o que é que fiz? Fui mesmo apanhar a série e fiz tipo um teledisco, com imagens da série, para todos os vídeos que produzi. Dá um trabalho…

Eras fã da série, portanto?

Epá, em miúdo eu via. Quando era miúdo dava essa série, mas acho engraçado, a fotografia e tudo. Eu entreti-me a fazer aquilo, também já fiz há uns dois ou três anos, só que entretanto surgiu a ideia de, em vez de lançar só os beats, porque não fazer tipo mixtape? Convidar MCs para gravar e depois aproveitar os vídeos que já estão feitos e fazer tipo um teledisco. Portanto, isso vai dar trabalho.

Mas é uma coisa que ainda planeias realmente fazer?

Sim, planeio fazer. Na minha cabeça tenho isso para fazer em 2020 [risos], assim que lançar a cena com o Manifes70 começo a fazer aquilo. Entretanto não quer dizer que não lance singles, como o “Oh Mãe”, não sei. Agora a música é tipo whatever.

Tem-se falado muito da perda de importância dos álbuns face aos singles, também vês as coisas dessa forma?

Vejo as coisas dessa forma, mas vejo também… sempre fui um gajo de álbuns, o MC ou o rapper que aparece com singles a mim diz-me muito pouco. Acho que é importante para a carreira de um artista ter álbuns, para eu dar valor. Eles até podem ter o maior sucesso do mundo, estou a falar da minha perspectiva, cada um acha o que acha. Então nunca vou deixar de fazer álbuns. Quer dizer, um dia deixarei com certeza, mas vou sempre fazer álbuns enquanto tiver imaginação e vontade, principalmente. Álbuns, EPs… não quer dizer que não lance singles. Mas também lançar aquele álbum assim “o álbum do Xeg”… também não me estou a ver agora assim. Estou-me a ver a lançar cenas temáticas, como lancei o Recortes, como vou lançar este com o Manifes70, este do Zé Gato, são tudo cenas que têm mais ou menos um tema e um contexto. Agora lançar um álbum do Xeg, como foi o Visão Clara ou o Outros Tempos ou o Conhecimento… não sei.

E estes projectos mais temáticos e diferentes também servem para complementar a tua discografia e explorar coisas diferentes.

Ya, e é uma cena também de criatividade. Quando começas a criar já tens uma linha para seguires, não é uma folha em branco, acaba por ser mais fácil dessa perspectiva. E mais desafiante também. É mais fácil e mais desafiante, é engraçado.

Tinhas-nos dito, e podemos explorar isso um bocadinho mais, que “o público é cada vez menos exigente”. Achas que isso tem a ver com o público ser mais abrangente e não estar tão por dentro do movimento hip hop, por haver hoje em dia mais pessoas diferentes a ouvir?

Com certeza, quando tens um público — não falando só de hip hop mas de todos os géneros de música — que consome só um género de música e durante anos é esse público que te consome, esse público tem uma noção do que é aquela música e uma consciencialização muito maior do que é determinada cultura ou música, do que o público normal, que é o que consome o pop. Isto não é uma crítica, não estou a criticar ninguém. E quando digo que é cada vez mais fácil, é cada vez mais fácil e cada vez mais difícil. É mais fácil, na perspectiva em que ouves as músicas e são fáceis. O público não exige que sejas um grande MC. É mais difícil na perspectiva em que não sabes o que é que o público exige.

Não existe hoje uma fórmula de sucesso ou para perceberes o que resulta.

Claro, quando estás dentro da cultura hip hop sabes como é que hás de te tornar um grande MC.

Escrever melhor que o outro?

Escrever melhor, aplicares-te no teu flow, principalmente isso, não é muito mais. Temas de que vais falar, a tua musicalidade com certeza, mas esses são os critérios que segues. É o critério da música que ouves e da cultura que segues. Quando não estás aí… não te sei dizer porque é que há MCs que estão a bater mais do que outros. Não te sei dizer porque é que X bate mais do que aquele. Não percebo. Como rapper ouço e se calhar aquele é um MC normal, o outro se calhar até é um bocadinho melhor, mas porque é que um bate e o outro não? Não sei explicar.

Mas também tem a ver com aquilo que estavas a dizer: o público é menos exigente porque também é diferente.

Na perspectiva de que é menos exigente, e quando digo isto nem estou a falar só de Portugal, estou a falar em geral. Tu vês os rappers que batem a nível internacional, tu tens dois ou três rappers que realmente são rappers a sério, mas depois tens uma geração de gajos estranhos que pá… eu não oiço, não estou a criticar, na perspectiva artística. Mas na perspectiva de rap e de MCing, como essa vertente do hip hop, aquilo não tem nada. Não tem skills, não tem nada.

 



E consideras que cada vez mais a tendência é o rap desligar-se dessas bases da cultura hip hop e da vertente original do MCing?

Sim, é assim, se formos ver as bases, mesmo as bases, até nos anos 90 havia muita coisa que fugia das bases do hip hop, não é uma cena nova. Até nos anos 80, para mim. Muito gangsta rap que apareceu não tem nada a ver com o hip hop em termos de mensagem. De musicalidade sim. Se estudarmos a história do hip hop, o início era precisamente o contrário daquilo, se um gajo for mesmo purista. No entanto, gangsta rap foi a música mais comercial que o hip hop teve. Não foi como o pessoal gosta de marginalizar. Não, vejam a história. Se houve grupos que venderam, foram os grupos que falavam de violência e mulheres. Agora substituíram a violência pela droga, mais ou menos.

Pondo as coisas em perspectiva, desde a altura em que começaste, nos anos 90, e até hoje, deve ser, por um lado, um sonho cumprido de ver a cultura hip hop ou o rap tão disseminados em todo o lado. Apesar de podermos não ver tanta qualidade ou ligação com as origens.

É assim, nunca houve tão bons rappers como há agora. Na minha altura, a maioria do pessoal nem no tempo sabia cantar. Até eu. Eu também tinha umas falhas, e uma pessoa foi aprendendo com o tempo. Nós éramos mais desleixados em termos musicais, mas muito mais.

As condições também se alteraram.

Com certeza. Mas em quantidade, e para a qualidade média dos MCs, é muito melhor. Não brinquem com isso.

E o facto de hoje haver uma indústria, no sentido de haver mais pessoas a viver disto, promotoras, editoras…

Isso é bom. Eu compreendo às vezes o pessoal da minha altura, que fale assim um bocado ressabiado. Porque, no fundo, quando a gente andou a criar as cenas, não havia dinheiro. A gente praticamente tocava de graça. E agora estão a aparecer putos que têm outras oportunidades e estão a ganhar dinheiro, mas a vida é assim. Fazer o quê? Cobrar uma quota aos putos? Pá, isso não faz sentido nenhum. Acho que o pessoal devia ficar contente. Eu percebo que às vezes o pessoal mais novo não tem respeito pelo pessoal mais velho, mas muitos deles nem as próprias mães respeitam, portanto isso é um problema de educação. Não tem nada a ver com a cena do hip hop. O pessoal tem de se aguentar e ver as coisas pelo lado positivo.

E se calhar também é importante ressalvar, porque às vezes a discussão vai para esse lado, que não está intrinsecamente ligado a sonoridades musicais, e à já quase clássica discussão entre o boom bap e o trap.

E o pessoal muda os nomes. Não existe boom bap e trap. O boom bap não é todo o rap que não é trap. O rap feito nos anos 2000 não tem nada de boom bap. Boom bap é um rap específico do final dos anos 80 e princípio dos anos 90, que é bassline, uns drums e aqueles saxofonezinhos. Isso é o boom bap. Wu-Tang já têm poucos sons de boom bap. Os últimos álbuns do Nas não têm quase sons de boom bap, na perspectiva do que é mesmo o boom bap. Só que o pessoal agora inverteu o conceito, chama boom bap a tudo o que não é trap. Pergunta-me a mim um som do 50 Cent de boom bap? Não tem nenhum. Pete Rock & CL Smooth, Lords of Underground, Lord Finesse, KRS-One, isso é boom bap, esse som é boom bap.

E a questão de dar importância às letras também não está presa a sonoridades, não é?

Pá, ya, eu oiço muito, por exemplo, o Tech N9ne e a crew dele. 90% deles rimam em beats que chamam de trap. E ele é um grande liricista, dos meus rappers preferidos. Eu não gosto de todos os sons, como também não gosto de todos os sons de todos os rappers.

E, por falar em estéticas musicais e sonoridades, tens produzido?

Não tenho produzido muito, não produzo quase há um ano.

Mas por falta de interesse?

Olha, ya. Não estou a conseguir fazer nada de que goste. E como tenho trabalhado com montes de produtores e há aí pessoal bué bom, eu acabo por ir, vou buscar um beat aqui, um beat ali, e acabo por não produzir.

Mas vês-te a investir mais na tua própria produção em breve?

Quem sabe, eu não gosto de forçar muito as cenas. Sei que vai haver aquele dia em que vou fazer um beat. Se calhar até ganho pica e naquela semana faço uns dez ou mais.

Mas em relação às letras trabalhas de maneira diferente, não é? Escreves bastante.

Em relação às letras tenho um processo criativo bué estranho. Há montes de tempo que não me sento assim para escrever uma cena. Mais ou menos na cabeça vou fazendo as rimas, depois assento nos papéis, vou juntando e depois quando tenho assim, imagina, duas ou três quadras sobre aquele tema,  vou ver nos meus arquivos o que tenho que se enquadra ali, e, se for preciso, sim, sento-me para organizar aquilo, quando já tenho o beat, e para estruturar tudo. Mas o princípio activo da cena não é: “ah, hoje vou escrever uma letra sobre…” como já fiz antes.

É uma coisa mais de inspiração e menos metódica.

Ya, mais de inspiração. Mesmo o meu EP, o Recortes, é quase todo assim. Se bem que houve lá músicas em que me sentei e aquilo saiu assim.

E há temas que te puxam mais a sentares-te e a pensares do início ao fim de uma letra? Porque, lá está, escrever uma música para o Recortes ou um egotrip é capaz de ser diferente.

O egotrip é mesmo assim, como te estou a dizer. Fico com as dicas na cabeça, guardo as coisas e depois junto aquilo, e não ligo muito, é mais whatever. Vejo uma dica funny, uma cena de que me estou a lembrar, guardo aquilo, às vezes no telemóvel para não me esquecer. Tenho lá bué dicas, bué, bué, bué nos papéis. Vais ao meu quarto e tenho aquilo tudo cheio de papéis, e no computador organizo aquilo tudo.

E costumas recuperar dicas perdidas de há dez anos, é algo comum?

Às vezes vou buscar cenas que tenho lá perdidas. E sons gravados, tenho muitos sons gravados que nunca lancei. Às vezes faço reciclagem das rimas, vou buscar lá umas cenas.

Mas é uma coisa constante, escreves muito?

Escrevo muito, sim, e outras cenas também, sabes? Não escrevo só rap. Escrevo textos, tenho lá bué, sobre mil coisas.

E esses ficam guardados para ti?

Guardados para mim, outros eu… sou uma pessoa que escreve, escrevo umas cenas, às vezes dou às pessoas. Estou sempre a escrever, é o que gosto mais de fazer.

E quando começaste, o processo era completamente diferente?

Lá está, antigamente não tinha tantas preocupações com a métrica como tenho agora. Nem o meu grau de exigência para a qualidade das rimas era o mesmo. Que é que isso faz? Faz com que tenhas mais liberdade, consegues dizer as coisas porque não tens regras. Ao mesmo tempo, depois de estares uns anos a escrever assim, aquilo já não te cativa, na perspectiva em que já disseste quase tudo o que tens para dizer. Então comecei a evoluir a minha rima, a fazer rimas duplas, a fazer outras métricas e outras cenas, e o objectivo é tentar fazer temas. Ou seja, é continuar a fazer temas a rimar assim. Sei que há pessoal que faz isso no egotripping, mas depois quando chega aos temas é fodido manter aquela qualidade de rimas. Porque tens de dizer aquilo que queres e sentes dentro de uma formazinha que crias, não quer dizer que seja sempre a mesma, mas acaba por te prender. Mas ao mesmo tempo não há nada que às vezes assuste mais um artista do que uma folha branca.

E estes singles soltos que fizeste agora têm rimas escritas há quanto tempo? 

O “Apontamentos” foi um tema que escrevi mesmo para aquele beat. A rima dos Jeovás já tinha guardada há bué tempo, mas só tinha mesmo a última linha, construí a quadra toda para chegar lá, à punchline, a última rima da quadra. O “Oh Mãe” eram montes de dicas soltas que tinha e juntei as cenas todas e deu naquilo. O pessoal diz que eu escrevi aquilo para isto ou para aquilo, ri-me para dentro porque eram cenas que já tinha escrito. Aquilo que eu digo ali já digo no Egotripping ou noutros trabalhos quaisquer, todos. Mas pronto, ficou a coçar. E, ouvindo assim, o pessoal a pensar que é para outras pessoas, compreendo que achem que seja um beef. Para mim é-me whatever.

E, falando disso, quem são os teus favoritos da nova geração em Portugal?

Vou-te ser muito sincero, eu não oiço muito rap português. Oiço [risos], sei quem é que está aí, mas 90% é rap norte-americano.

E o que tens ouvido mais?

Oiço as cenas que estão aí a bater, claro. Os littles e os coisos eu nem… nem me perguntes que nem sei os nomes nem as músicas. Às vezes há pessoal que pergunta: “ei, não conheces o não sei quê Thug?” Eu digo que não, se ouvir a voz deles nem sei quem são. Essas músicas eu não oiço. Agora os outros rappers oiço, e cenas underground, ou que estão aí a bater, oiço muita coisa. Oiço o Kendrick, o Tech N9ne, o Roc Marciano, o Blu, mil coisas, estou sempre a sacar cenas.

Essas músicas inspiram-te a querer rimar ou isso é uma coisa que vem naturalmente da tua escrita?

Vem mais da escrita naturalmente, mas claro: quando ouves sentes-te desafiado. Passas alturas em que não aparece nada que te desperte, mas depois de vez em quando aparece um álbum, uma música ou uma cena que te volta a acender aquela chamazinha de criador. Sempre me senti assim picado, sempre tive a cena de me sentir picado com os rappers, sempre me entusiasmou ouvir as cenas e pensar: foda-se, caralho, como é que não me lembrei desta rima?

 


Ricardo Farinha

Ricardo Farinha

Jornalista. Colabora desde os 18 anos com várias publicações culturais — as rimas e batidas sempre foram inerentes à vida.
Ricardo Farinha