Westway LAB Festival 2018 – dia 3: futurologia, perseverança e uma aposta ganha

[TEXTO] Manuel Rodrigues [FOTOS] Os Fredericos

“Qual o futuro da música?”

A pergunta é menos vaga do que aquilo que numa primeira instância aparenta ser. Que o digam os quatro oradores – entre eles Cai Trefor (Gigwise) e Mark Kitcatt (Everlasting Records / Impala) – que, na manhã de ontem, se sentaram a debater esta questão numa mesa redonda inserida nas conferências INES (Inovation Network of European Showcases), perante uma plateia também ela sedenta de respostas. Ainda que a futurologia seja uma arte incerta, é sempre possível fazer-se uma previsão de como as coisas poderão vir a ser daqui a uns anos.

O modelo de venda e distribuição musical está a mudar radicalmente. O formato físico, papável, continua a perder força para as plataformas online e o streaming continua a ser cada vez mais uma certeza. Na opinião de um dos congressistas presentes, só agora é que a música começou a ser valorizada de forma isolada, pois, durante anos, o consumidor pagou, na verdade, o suporte de armazenamento e não propriamente o conteúdo que visava armazenar, dando como exemplo as fábricas que enriqueceram à custa da comercialização de tal suporte, fosse ele em CD, K7 ou Vinil. Por outras palavras, é como se o online nos tivesse dado a oportunidade de poder comer sardinha sem ter necessariamente que pagar pela lata que a conserva.

A era do digital tem também as suas contrapartidas. Uma delas, apontada por um elemento da plateia, vai no sentido do distanciamento entre os músicos e os fãs. Segundo o jovem, que adianta ainda ser músico, as plataformas de streaming e as redes sociais roubam toda a magia da venda cara-a-cara, da correspondência via correio electrónico, do contacto directo com o músico e, principalmente, com a sua obra. Tudo certo. Mas não serão as actuações ao vivo uma forma de manter essa relação de proximidade? De ligação directa ao artista e ao seu espólio? Ali, cara a cara, sem códigos binários e embalagens de plástico a servirem de mediadores?

 


3º DIA CONFERENCIAS PRO (10)


Regressemos à bola de cristal.

Com o passar dos anos e com a dinamização e universalização da auto-estrada digital, prevê-se que a música venha a ser dominada por pop feita em inglês (não será difícil entender o porquê). Mas não só. Dado o facto de noventa por cento do catálogo do Spotify ser pós-2000 (estes números foram-nos fornecidos por um dos membros do painel), ou seja, com forte incidência nas editoras independentes, presume-se que tal mercado possa vir a ganhar ainda mais força no futuro. Também o ramo do jornalismo poderá seguir pisadas alternativas e independentes, no seguimento da evolução de toda a indústria.

Os contratos deixarão de ser assinados nos contornos que são hoje em dia, as próprias editoras vão ter que se moldar a esta realidade e até os músicos vão ter que tomar consciência do presente, não indo necessariamente atrás dele mas adaptando-se. A abordagem a estas questões não tem necessariamente que ser apocalíptica. E um dos exemplos dado por este painel vai nesse sentido. “Toda a gente dizia que o streaming ia ser a morte do jazz no Reino Unido. Hoje em dia é dos estilos mais ouvidos”.

As primeiras horas da manhã foram também de partilha e reflexão, desta feita pela mão de Peter Smidt, fundador do festival Eurosonic-Nooderslag, na Holanda. O empresário começou por explicar que teve uma banda com uns amigos, da qual era vocalista (fala, inclusive de uma crítica menos positiva feita a nível da imprensa na qual só o seu instrumento vocal fora elogiado), e rapidamente traçou o seu caminho até ao dia em que decidiu criar um evento não só focado em artistas do seu país, mas também com os olhos postos na realidade que se ergue para lá das fronteiras dos Países Baixos, onde Portugal surge como uma das nações referidas.

Foram vários os obstáculos no percurso de Smidt, da habitual procura de apoios ao próprio naming, que teve que ser alterado de Nooderslag para Eurosonic-Nooderslag, devido ao facto de “slag” representar uma ofensa na língua alemã, no entanto, 32 anos depois, eis que o festival se ergue como um dos principais acontecimentos na matéria. A prova que não se deve desistir nem quando as críticas ao nosso trabalho são menos positivas. Faz parte.

 


3º DIA CONFERENCIAS PRO (6)

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Depois de uma tarde dedicada aos concertos da WHY Portugal, que terão direito a um artigo isolado separado desta reportagem, cabe a Avec a tarefa de inaugurar os espectáculo em espaços de maior dimensão, neste caso o Grande Auditório do Centro Cultural Vila Flor, numa configuração fora do comum mas ainda assim interessante. Imagine-se o setup normal de um espectáculo em auditório. Está? Proceda-se a uma rotação de 180 graus entre público e músico, de forma a que as cadeiras sirvam de fundo à acção e que a audiência se concentre no fundo do palco. É mais ou menos isso…

Acompanhada por Ross Stanciu (baixo), Lukas Klement (bateria) e Andreas Häuserer (guitarrista de fita na cabeça a fazer lembrar o perfil de um tenista), Avec, cujo nome não gozará da maior ventura em solo português, trouxe ao Westway LAB um leque de canções, retiradas do seu ainda curto repertório, de sonoridade suave, algo sonhadora, muito próximas das paisagens percorridas por Lana del Rey. As influências não se ficam por aqui e, apesar de beliscar aqui e ali a obra de outras importantes cantautoras do universo pop, a artista austríaca, de apenas 22 anos, tem margem de manobra que chegue para criar algo seu, próprio, com uma assinatura única.

Arte e engenho não lhe faltam, prova disso é a forma como se atira à sua guitarra acústica, em “Love”, garantindo o sustento dos versos que entrega ao microfone. Um caso a acompanhar de perto.

Do grande para o pequeno auditório, directamente para aquele que terá sido, muito provavelmente, o melhor momento musical do dia, o dos Lobos Barro, projecto conjunto de Valter Lobo e André Barros. Convém frisar que nos encontramos na presença de dois músicos talentosos, com vasta experiência nas suas áreas – Lobo na voz, Barros no piano – e com um poder de encaixe surpreendente, como se as duas personalidades artísticas fossem, na verdade, peças recortadas de um puzzle previamente imaginado.

Secundados por uma projecção vídeo que tratou de ilustrar a música apresentada (os fragmentos visuais partem de um bolo de aniversário, passam por uma mulher a varrer a rua, por umas pernas embrulhadas em celofane, por um par de peixes dentro de jarras de água e voltam novamente ao bolo, qual película de Kubrick), os dois músicos embrenharam-se numa intensa e ao mesmo tempo profunda melancolia de gelar o coração, onde cada palavra e nota se fizeram sentir no seio da plateia. São oito o total de canções servidas ao público presente, mas, a avaliar pelos aplausos recebidos no final, podiam muito bem ser oitenta ou até infinitas.

 



Se há projectos com pernas para andar, este é certamente um deles.

O derradeiro testemunho da noite faz-se ao som dos Molly, novamente no palco do Grande Auditório do Centro Cultural Vila Flor. As referências que evocam nas suas músicas, que podem ir de uns Sigur Rós à faceta mais profunda e depressiva dos Radiohead ou ainda a uns Tame Impala, são bem mais heterogéneas do que o seu repertório de canções que, em abono da verdade, soa sempre igual. Ainda assim, elogie-se a execução, onde os contratempos de bateria e a voz carregada de efeito assumem um papel fundamental. Nada de muito especial.

 


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