Vince Staples no NOS Primavera Sound: sozinho contra o mundo

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTO] Pedro Mkk

Voltamos à mesma conversa de sempre (mas tem que ser): se as suas canções não passam na rádio e apresenta um grupo modesto de seguidores que o coloca longe (em termos de números) de artistas da primeira liga, de onde é que saíram todas aquelas pessoas que estavam a vibrar com o concerto de Vince Staples? O medo do vazio — não sabíamos a quantidade de fãs do artista em Portugal — no segundo dia transformou-se rapidamente em adrenalina para aguentar cada pancada sonora que o autor de Big Fish Theory aplicava através de um  aparelho vocal que nunca o deixou desamparado.

As músicas de Summertime ’06 transportam a imponência de estúdio para o formato live, mas, é importante reforçar que estamos num festival, os contornos “EDMescos” — de muito bom gosto, diga-se — do novo longa-duração do artista de Long Beach, Califórnia, elevam a fasquia e, contra todas as expectativas, obrigam-nos a fazer um reset: afinal de contas, é possível um rapper apresentar-se sozinho num palco principal e brilhar. “Só” precisa de ser incrível.

Com um colete à prova de bala vestido e um semblante sério durante a actuação, Staples mostrou que a palavra “underrated” assenta-lhe que nem uma luva. Os instrumentais monstruosos do seu álbum de estreia foram igualmente importantes: “Señorita”, “Lift Me Up” e “Norf Norf” são portentos cinemáticos que mereciam ser ouvidos neste volume. Mission accomplished

Manuel Rodrigues, colaborador do Rimas e Batidas que é igualmente um profundo conhecedor dos meandros do som (defeito profissional…), não se conteve — e bem — e fez uma publicação de imediato no seu Facebook pessoal que diz (quase) tudo:

“No exercício ao vivo, o hip hop não pede nada do outro mundo: equilíbrio entre graves, médios e agudos, para que o espectro de frequências se manifeste claro e possante, e a voz ligeiramente mais alta que o instrumental, para que se perceba o que o artista está a dizer.

Vince Staples está a ser, muito provavelmente, das melhores misturas dentro do género que alguma vez ouvi. É certo que se trata de uma voz e um instrumental. Mas por vezes, acreditem, é o mais complicado de organizar.”

Staples, qual atleta de alta competição, não mostrou sinais de cansaço e deu a impressão que poderia continuar a “cuspir” com a mesma ferocidade durante 24 horas seguidas. Se existem muitos performers do universo hip hop a fazer o que este rapper faz? “Boy yeah right, yeah right, yeah right”…