Tyler, The Creator // Flower Boy

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[TEXTO] Samuel Pinho 

O ato de atingir uma meta é premonitório da inevitável reflexão que o acompanha. Pessoalmente, gostava de ser capaz de me introduzir na cabeça de Tyler, The Creator, após o próprio ter concluído o delicioso álbum que imaginou, escreveu e produziu. O miúdo progrediu, batalhou(-se) e surge hoje como uma das vozes mais influentes da sua geração. Há uma conclusão imediata, nítida como a mais pura das águas, a retirar deste Flower Boy e do inenarrável Blonde: aqueles putos da Odd Future nadavam em talento.

E a evolução do seu outrora frontman é por demais evidente: se no passado o ouvíamos repetir até à exaustão “faggot” e outras variações do termo, hoje é escutá-lo a anunciar com atípica pompa “I’ve been kissing white boys since 2004”. Lançou-se assim o alvoroço entre redes sociais e caixas de comentários do Youtube. De repente, todos tinham uma tirada insofismável a fazer acerca da vida amorosa de Tyler. Não sabemos se é ou deixa de ser, ou se já não é algo que nunca foi. Apesar dos rumores, do diz-que-disse, das indicações subliminares e das dicas sub-reptícias, só tenho como certeza que o culminar da carreira musical de Tyler está aqui e recomenda-se fortemente. E sob pena de “branquear” a total compreensão do álbum, deixo as assumpções de sexualidade para publicações da especialidade, certamente mais capazes de efectuar tamanho juízo.

 



Vamos à arte. E a de Flower Boy começa ainda antes do 1º acorde soar. O artwork é assinado por Eric White, artista oriundo de Michigan, célebre pelas suas pinturas em óleo sobre tela. Segundo o próprio, todo o conceito foi orquestrado por Tyler: depois, com base nos rascunhos do rapper e após constante troca de ideias, a pintura de 16×16 polegadas tornou-se realidade. Mais uma prova da minúcia com que Tyler talha cada produto que tem origem no seu ideário.

O processo de maturação foi longo, por vezes extenuante, quase sempre frutífero. As dores de crescimento também pontuaram o caminho: a interdição de entrada no Reino Unido e na Austrália marcaram o ponto mais rasteiro de uma (já) longa carreira, com o miúdo – à data, acabado de entrar na casa dos 20s – a ser tratado como um autêntico terrorista. Nada disso o parece ter abrandado. Desde 2009, ano da edição de Bastard, brinda-nos com projecto novo a cada par de anos: Goblin (2011), Wolf (2013) e Cherry Bomb (2015). Apesar de nem sempre – como em Flower Boy – ter sido tão óbvia, a obra do rapper sempre se soube dotada de um vincado traço autobiográfico. Hoje, esse exercício chega-nos sob a forma de uma meditação inconclusiva, de uma nostalgia e solidão profundas. É um álbum feito à imagem do autor: ecléctico e vibrante, muito gráfico, sobrando mais dúvidas do que certezas.

A arte faz-se para questionar a vida ou como resultado desse questionário? O Criador não quis dizer.

Logo no arranque, à boleia de um refrão hipnótico executado por Ocean com mestria, sugere uma ode breve à individualidade e liberdade de escolha de cada um: “tell these black kids they can be who they are / Dye your hair blue, shit, I’ll do it too”. Tema já abordado nesta plataforma, a apologia da masculinidade exacerbada é um estereótipo transversal à esmagadora maioria dos rappers, ou pelo menos encontra-se patente no seu trabalho, seja através de versos machistas e misóginos ou do relato aumentado de episódios íntimos tendencialmente heterossexuais.

 



Inflexão do rapper a nível de postura e mensagem veiculada e isso merece nota de apreço. Regozijo com o abandono dos laivos anárquicos – outrora erguidos como bandeira de protesto – em prol da crença decidida nas pretensões de cada um.

Mais, todo o novo álbum parece ser um assumir de erros perpetuados algures no passado, não fosse o tom confessional uma das constantes mais notórias desta (quase uma) hora de música.

Imediatamente depois, “See You Again” traz o timbre desafiante a reproduzir repetidos “okay” e o contraste drástico com os acordes que se seguem. A canção favorita de Tyler é amor à primeira audição, desarmando qualquer resistência que possa perdurar por escutarmos o californiano num registo tão sincero, transparente e sensível.

 



As colaborações também assumem papel central no decorrer da peça. Rex Orange County, Steve Lacy ou Kali Uchis pontuam o banco de featurings onde se destacam Frank Ocean e A$AP Rocky. O último assume a co-responsabilidade por “Who Dat Boy”, faixa que se apropria facilmente do estatuto de banger do cardápio. Ousadia, rispidez e braggadocio com instrumental à medida. Que suspense! O início soa à versão melhorada do trecho sonoro celebrizado por Psycho – lendário filme de Hitchcock – e a transição para um instrumental que nos rebenta nos tímpanos é inesperada, no mínimo. E ainda assim, com uma sucessão almofadada de rimas inflamadas, Tyler deita-se confortavelmente na cama sonora que ele próprio montou. Caso se perguntem, sim: é algures nesta faixa que ele se confessa na busca pelo “95 Leo” e fá-lo justamente depois de mandar às favas o aquecimento global. Ora, a interpretação é pessoal, e por isso, arrisca-se a pautar por tonta: o DiCaprio de Basketball Diaries preocupava-se bem menos com o degelo das calotas polares do que o actual Leonardo, principal cara – em Hollywood – do combate às alterações climáticas. Tyler pode só não ir a jogo com a realidade ambiental. Ou então querer mesmo jogar com um DiCaprio anterior. De qualquer forma, o verso é giro.

Porém, e como todo o paradoxo que se preza, este menino também nos oferece, de peito aberto, contra-sensos profundos. Tão depressa incorre no abraçar de um mortal aborrecimento através duma solidão suprema, como de seguida nos canta da falta de tempo. Em bom rigor, a sequência de faixas incorporada por “Boredom” – “I Ain’t Got Time” – “911/Mr Lonely” é a mais apelativa do projecto. Se as primeiras duas faixas contrastam entre si, a última é um combo em si mesma: a 1ª parte tem Steve Lacy, Anna of the North e Frank Ocean a pontuar de longe, abrindo caminho para os versos em catadupa que Tyler distribui na 2ª parte.

Já alguém havia conversado sobre solidão com esta destreza?

 


“They say the loudest in the room is weak
That’s what they assume, but I disagree
I say the loudest in the room
Is prolly the loneliest one in the room (that’s me)
(…)
“I know you sick of me talkin’ ’bout cars (skrrt)
But what the fuck else do you want from me?
That is the only thing keepin’ me company
Purchase some things until I’m annoyed
These items is fillin’ the void
Been fillin’ it for so long
I don’t even know if it’s shit I enjoy (ohh)” (…)
“I never had a dog
So I’ve never been good with bitches
‘Cause I never threw a ball, fetch
I never had a pet, that’s where it stems from, I bet
Treat me like direct deposit
Check in on me sometime
Ask me how I’m really doin’
So I never have to press that 911″.


A sequência frenética de versos não deixa ninguém sem fôlego, embora também não seja canção de embalar. À semelhança de todo o álbum, complica-se na hora de categorizar a música num género só: para todos os efeitos, é Tyler, The Creator.

Quanto à expressão da solidão, é óbvio que esta sentimentalização flagrante não era, de todo, inesperada. Era – isso sim – altamente improvável que ganhasse espaço naquele tom de voz ultra grave; no miúdo que sempre se escudou na arrogância, na postura superior, no destilar do desdém. É esse um dos primeiros trunfos que o rapper pode, e deve, ostentar: uma ambivalência musical sem precedentes.

Toda a produção ficou a cargo de quem melhor se entende com o liricista exímio que Tyler tem revelado ser: ele próprio. É estonteante notar a evolução consumada. Podemos não lembrar com precisão a parafernália cansativa de Goblin – sem espaço vago para que o virtuosismo lírico nos chegasse nas condições ideais – mas Flower Boy, inédito no registo musical, ouve-se demasiado bem e é distinto de tudo o que se fez antes. Este é um álbum cabal, sem nada por dizer e com quase tudo nas entrelinhas. Quanto de interactividade há em descobrir um álbum em camadas, com um detalhe a inaugurar cada repetição?

No seu todo, possui a coesão que sempre faltou à odisseia musical de Tyler, pois mesmo que não seja transversal ou uniforme na sua qualidade – por culpa de 2 ou 3 faixas menos bem-conseguidas – é bem passível de ser classificado como um dos álbuns do ano.

 


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