Pára tudo! Agora o rap também é dado à expressão emocional?

[TEXTO] Diogo Santos [FOTO] Direitos Reservados

Era só o que nos faltava, malta do rap com sentimentos como aqueles que todos nós temos quando passamos por adversidades. Mas isto não era um universo cheio de durões? Bullies da rua? Atiradores de curto e médio alcance? Misóginos? Oh diabo… Mais tarde ou mais cedo, isto iria acontecer. Afinal, o género anda há uma mão cheia de anos para cá a romper as teias da cultura popular. E a equação não poderia ser mais simples: mais gente a ouvir, mais gente a fazer, e potencialmente mais gente a querer fazer diferente. Aconteceu assim com todos os géneros, sobretudo com os mais populares: o pop e, sobretudo, o rock. De cabeça, quantos prefixos e sufixos conseguem associar ao rock? Cinco? Dez? Pois. Não é de 2010 para cá que o hip hop tem os seus sub-géneros, claro. Mas o facto de só “agora” se tornar género com capacidade para ombrear com a claque do rock, ajuda a que essa fome para engavetar seja também maior. Sempre assim foi, nós humanos compreendemos melhor as coisas quando as simplificamos e as categorizamos – nem que seja para evidenciar perante a matilha que dominamos a terminologia. E se hoje – talvez mais do que nunca – o rap está a passar por esse processo de quebra de fronteiras e de noções, então mais natural é que alguns dos que estão atentos ao fenómeno sintam a necessidade de sub-categorizar, para melhor compreenderem o que está à sua frente. No limite, é só música. Num outro limite, é apenas hip hop. E noutros limites, é hip hop com toques ou emo, ou hardcore, ou rock, ou sei lá eu o quê… Isto será a categorização de um processo de complicação? É uma caixa de Pandora.

Os artistas não aparecem num vazio, sobretudo nos dias de hoje. Eles são produtos do que os rodeia. Temos a tendência natural para imitar, faz parte do nosso processo de aprendizagem. É assim que aprendemos a fazer as necessidades fisiológicas na sanita, por exemplo, ou num exemplo menos escatológico a desenhar as primeiras letras. E hoje, dada a quantidade de material que nos chega aos ouvidos e aos olhos, é meio complicado estabelecer o momento Y como a raiz do que quer que seja. Depois, no limite, o que distingue o artista X do Z, é mesmo só a sua capacidade enquanto… artista. Recordo-me perfeitamente de uma banda portuguesa, os Fonzie, que um dia confrontados com a pergunta, “Então, mas se as vossas referências são Iron Maiden, Sex Pistols, The Clash… porque razão não fazem música mais parecida com a deles?”, responderam “porque não sabemos mais”. E a verdade é que a música dos Fonzie até tinha algumas semelhanças com estes e outros supracitados, mas também eles – como tantos outros – se viram na embrulhada dos rótulos: pop, rock, punk, punk pop, punk rock, emo punk … continuem que o exercício é fácil. Ou, se querem outro exemplo extra hip hop, a forma como surge o selo pós-rock ali pelos anos 90, quando a música semelhante àquela já se fazia nos anos 70…

 



…E tudo isto para? Simples, para acabar desde já com a ideia de que esta supostamente recente ideia de rappers que expressam emoções nasceu ontem ou há cinco ou dez anos. Ou que é fácil, ou sequer possível, definir o local e a hora em que tal sub-género viu a luz do dia. Esteticamente, ainda vá, que hoje é mais fácil comprar roupa, maquilhagem e tinta para os cabelos. Agora, se estamos a falar de temáticas sensíveis e fracturantes, quer-me parecer que isto, de forma bem simplista, é a definição de hip hop. Já agora, em que categoria cabe o 808s & Hearbreak do Kanye West? Ou o tão velhinho “I Need Love” de LL Cool J, tema lançado quando o rapper contava apenas 17 aninhos e ninguém fazia canções de amor?

Mas regressemos ao presente para pegar simplesmente em três artistas sensivelmente na casa dos vintes – XXXTentacion, Lil Peep ou Lil Uzi Vert – aparentemente insuspeitos nesta cena do “emo rap”, e fazer um curto exercício, nada científico, mas de lógica muito básica e apoiada nas referências dos próprios. De uma forma muito geral, partem de influências muito parecidas. Isto é, acho que ninguém vai torcer o nariz se escrever que no que diz respeito à bagagem e ao transtorno emocional, a música de Kurt Cobain e Marilyn Manson tem pontos em comum. E estes são dois nomes insuspeitos quando a temática é a perturbação, sobretudo a interior. Depois, se recuarmos até meados de 2005 ou 2007, mais ou menos quando estes três rappers tinham ali idades a rondar os 10 ou 12 anos, facilmente nos deparamos com o apogeu de bandas como os My Chemical Romance, ou os Green Day. Até aqui, tudo bem? Pronto. Estes dois últimos nomes que muitos associam quase que inequivocamente a movimentos emo e punk, eram ou foram as vozes de muitos dos garotos que hoje têm 20 anos, sejam eles brancos ou negros, de Rio Tinto ou de New Jersey. Então e a expressão emocional no rap? Já lá vamos.

 



Em podendo, coloquem a tocar a “Song Cry” do Jay-Z, malha de 2002. E a partir daqui, passem pelos Drakes desta vida, pelo Kid Cudi, pelo Kanye, pelo Tyler, e porque não pelo Kendrick. Ou seja, como que de repente, o hip hop viu-se assaltado por malta que em vez de sair à rua de pistola em riste, vai para o bairro de coração na boca. Sem medos. Sem preconceitos. Agora e mais do que nunca, os jovens podem encontrar no rap o que antes só encontravam às pazadas nos rockeiros – o romance de colégio com a Anita, a vontade parva de colocar termo à vida porque a Anita fez olhinhos ao Paulo, a raiva que é escutar o aspirador às 8 da manhã de sábado, etc. Uma vez mais, para o mal e para o bem, é muito normal que sejamos a soma de tudo aquilo que nos rodeia. E, quando o que nos rodeia já não é estimulante, vamos timidamente/corajosamente à procura de mais e de diferente. Melhor e mais confortável, quando o afago está num género e numa cultura que tão bem conhecemos.

A expressão emocional, tal como a estamos a abordar aqui nesta prosa, no hip hop é uma coisa recente. E isto seria tema para discussão sem fim. Será fácil concordarmos que o hip hop, sendo sobretudo uma cultura com génese na rua – com tudo o que nela existe de bonito e de perigoso – tenha tido ao longo das últimas três ou quatro décadas preocupações maiores do que as corriqueiras dores de corno. Não desrespeitando estas últimas maleitas, parece-me fácil aceitar e compreender que o hip hop teve e tem missões maiores. Aliás, é precisamente por ter assumido esse papel maior que hoje se encontra em processo de amadurecimento. Sendo inclusivo e compreensivo com aqueles que estando mais confortáveis com a sua pele/credo/orientação sexual, já não têm qualquer pudor em mostrar as suas fragilidades interiores. É que bem vistas as coisas, um(a) rapper também chora.

 


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