The Underachievers: o rap psicadélico que alimenta a alma

[FOTO] Direitos Reservados

Nascidos no início dos anos 90, AKTHESAVIOR e Issa Gold eram praticamente vizinhos em Flatbush, Brooklyn. O primeiro é, provavelmente, aquele que desde cedo mais perseguiu o sonho de se tornar num MC. Akeem Joseph ensaiou as primeiras rimas com apenas 11 anos e é dele que surge o nome para o grupo que mais tarde formaria com Marlon ‘Issa Gold’ Fung. Ainda nos tempos do ensino secundário, Akeem adoptou o nome de The Underachiever.

A relação entre os dois jovens tem inicio datado de 2007, altura em que criaram um laço de amizade devido ao interesse mútuo nas drogas psicadélicas. “Nascemos psicadélicos. Não havia pessoas como nós. Eramos weirdos, as pessoas pensavam que estávamos perdidos”, revelou Issa Gold numa entrevista para a Red Bull há três anos. Da amizade nasceu depois uma relação criativa que os levaria a formar a dupla. Gold, devido à falta de experiência, convenceu AK a deixá-lo participar em alguns dos seus temas de modo a ganhar alguma notoriedade. O bom resultado desta combinação fez com que rapidamente houvesse pedidos para se manterem enquanto duo. The Underachiever passou para o plural e juntos têm trilhado um percurso, no mínimo, interessante.

 



O nome tem uma explicação lógica. Os hábitos relacionados com drogas não são vistos com bons olhos pela maioria das pessoas. Por isso, The Underachievers foi escolhido para criar a ilusão do lado do ouvinte de que o resultado da música será abaixo do esperado. “As pessoas provavelmente vão conhecer-nos e a primeira impressão será algo tipo: ‘eles são apenas ganzados’. Depois, se falarem connosco, vão achar algo do género: ‘ok, eles são inteligentes’. Por isso, mesmo que tecnicamente estejamos a fazer algo abaixo do esperado, estamos a trazer energia positiva”, explicou Issa Gold.

Em 2012, surge o primeiro videoclipe. “So Devilish” integrou também a primeira mixtape da dupla. Estrearam-se em grande estilo com Indigoism, o projecto foi editado pela Brainfeeder. Flying Lotus não precisou de muitos argumentos para os assinar na sua label dada a qualidade dos singles que iam adiantando. Fez-se assim a ligação entre a costa este e oeste, já que a Brainfeeder se encontra sediada em Los Angeles – o epicentro criativo da beat scene a nível mundial. “Herb Shuttles” continua a ser o grande êxito do grupo: neste momento, conta com mais de 25 milhões de plays no Youtube.

 



Seguiram-se depois as parcerias. O novo sangue do hip hop de Brooklyn uniu-se para dar vida à Beast Coast. Os The Underachievers uniram-se aos Flatbush Zombies e editaram o EP Clockwork Indigo. Um projecto de cinco temas lançado de forma independente. Joey Bada$$ e a Pro Era não quiseram ficar de fora, e os três grupos de Brooklyn chegaram mesmo a estar juntos em digressão em 2013. Nesse mesmo ano, chegou também a segunda mixtape de AK e Gold. Lords of Flatbush foi bastante aclamado pela crítica e contou com produções de Lex Luger, EFF.DOPE e Erik Arc Elliot, dos Flatbush Zombies. “N.A.S.A.” foi o single de maior sucesso do segundo projecto da dupla.

2014 foi um ano em grande. Além do álbum de estreia, os dois rappers conseguiram ainda editar cada um uma mixtape a solo. Mas o trabalho em grupo não parou: Cellar Door: Terminus ut Exordium contou com produções de Statik Selektah, Portugal The Man ou Lapalux. O sucessor veio logo no ano seguinte e marcou a transição para a editora RPM Music, também de L.A., ficando a Brainfeeder com a parte responsável pelo agenciamento do grupo.

 



Em 2015, chega Evermore: The Art of Duality, um álbum conceptual em que a primeira metade do alinhamento se prende a uma mensagem mais positiva, e a segunda evoca um espírito mais sombrio. It Happened In Flatbush, uma continuação directa de The Lords of Flatbush, surgiu em 2016 para dar continuação à carreira de AK e Gold, que insistem na estratégia de soltar um projecto grande por ano, no mínimo. “Play That Way” já vai com quase 4 milhões de visualizações no YouTube e é, sem dúvida, um dos singles mais fortes da dupla.

Acabamos esta viagem pelo percurso do talentoso duo em Renaissance, o álbum editado hoje por AKTHESAVIOR e Issa Gold e que, tendo em conta o extraordinário currículo discográfico que acabamos de descrever, merece a vossa total atenção. E a nossa, obviamente.

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira