Tender Grasp // Tender Grasp EP

tender grasp review

[TEXTO] Diogo Pereira 

O vaporwave está de regresso. Muitos vaticinaram a sua morte, depois de ter atingido o seu auge por volta de 2012. Mas a boa arte nunca morre, muito menos uma tão prazenteira como esta, e o género ainda sobrevive em editoras especializadas como a Dream Catalogue.

Em Portugal, o estilo não foi muito explorado, tirando o vídeo de “Pacotes”, dos Corona, e o vídeo-álbum O Último Tango em Mafamude, de David Bruno, bem como os artistas da portuense 1980, como Tugalife e User_145.

Os Tender Grasp, dupla alfacinha de beatmakers, vêm agora preencher essa lacuna com o seu homónimo EP de estreia, focando-se em particular num subgénero mais festivo, menos melancólico e, digamos, vaporoso do vaporwave: o future funk.

Se a maior parte do género é conhecida por se focar na melancolia e no saudosismo como principais espaços emocionais, esta especialidade põe de parte o torpor e a languidez para se focar na alegria e no prazer. Esta música é cintilante, leve, divertida, despreocupada e quase infantil, apelando à criança dentro de nós, que quer dançar no recreio e não regressar à sala de aula.

Mas voltemos ao início: os dois produtores têm percursos e passados diferentes.

Enquanto a primeira beat tape de Iminente, lançada em 2013, bebia do jazz e da soul e reflectia um amor ao lado mais clássico e à era dourada do hip hop (e a produtores como Dilla e Madlib), com uma produção cheia de baixos líquidos, órgãos e guitarras solarengos e vozes soul alimentadas a hélio, em cima de batidas boom bap crocantes a tempo médio, semelhantes ao trabalho de dB, por exemplo, aqui faz uma incursão surpreendente pelo mundo da música de dança.

E se algumas faixas como “Robotnik” e “Aletheia” já acusavam uma vontade de explorar o universo da electrónica, foi em 2016, com os seus EPs Love Will Find Its Way e Vector Maze, que veio o interesse pelo vaporwave, patente nos caracteres asiáticos dos títulos das faixas e no grafismo retro. Ambos são vaporwave mais tradicional, calmo e sedativo, semelhante à obra de artistas pioneiros do género como Macintosh Plus, Infinity Frequencies ou Chuck Person, com samples fogosas de R&B e pop nipónico dos 80s cortadas aos pedaços e abrandadas a velocidade hipnagógica, misturadas com sons de chuva a cair e vozes de anime japonês.

A ele juntou-se Combo Capsule, autor de faixas de future funk como “Nightrider”, “Denver is Dancing’” e “My Summer Vacations”.

E nada melhor para um grupo a estrear-se que a honra de ter a sua música no canal de YouTube Artzie Music, considerado a meca do género, e um lugar de culto para descobrir música de qualidade, que publica músicas de future funk acompanhadas de gifs feitos de loops de cenas de anime.

 



Resgatar um género que já é de nicho e que já passou o seu auge é um jogo arriscado, mas por isso mesmo louvável.

No cume da sua popularidade, o vaporwave desdobrou-se em vários subgéneros, todos a olharem para o passado. O vaporwave vive de uma obsessão nostálgica, e se o mallsoft, por exemplo, olha para os aspectos mais lounge e corporativos, o future funk olha para o disco, o funk e a house como fonte de inspiração. E é mesmo a música de dança a principal referência evocada aqui, em todo o seu esplendor acetinado, desde o Italo disco de Moroder ao french touch dos Daft Punk, com um piscar de olhos à música de videojogos e à pop japonesa.

É isso que ouvimos ao longo destas cinco faixas: batidas de dança “four-on-the-floor”, sopros de festa, cordas disco, riffs de guitarra funk, vozes femininas alimentadas a hélio, baixos rítmicos, e, em geral, uma estética que, seguindo a tradição da boa música de dança, assenta na fusão de batidas potentes e aceleradas a tempo elevado com sons e vozes suaves e melodiosos. E como não podia deixar de ser, também ouvimos a presença daquele filtro tão ubíquo, usado e abusado pelo disco francês, em que a música começa por se ouvir ao longe, como se estivéssemos debaixo de água, até vir ao nosso encontro. Todos os bons músicos ostentam com orgulho as suas influências, e estes rapazes não escondem as suas.

As técnicas de produção também são as mesmas, incorporando a estética da música de dança do passado com as tácticas do vaporwave: o loop, o pitch-shift, o corte e a colagem.

A participação do rapper Lé Real na canção de amor delicodoce “Megane” (que inclui o bonito verso “If I was an alcoholic, you’d be my cup of rum”) acrescenta uma ligação ao hip hop, mas esse elo é ténue num EP que é sobretudo de electrónica.

Cheio de ritmo, melodia, groove, luz e cor para dar e vender, este EP de estreia da dupla alfacinha mostra talento e promessa. Este é um álbum para ouvir à noite, a conduzir um descapotável de capota aberta numa metrópole asiática, com os arranha-céus e os néons a servir de pano de fundo. Ou como acompanhamento sonoro de um VHS de exercícios da Jane Fonda, com uma bola de espelhos no tecto.

Os Tender Grasp têm uma sonoridade familiar mas promissora, e embora talvez não tenham tanto carisma para serem editados pela Dream Catalogue, têm tanta qualidade como a música de artistas como Macross 82-99, Yung Bae ou Saint Pepsi, e revelam um interesse salutar por um género ainda pouco explorado em terras lusas, o que só por isso merece louvor. Venham mais explorações.

 


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