Sumol Summer Fest 2018 – Dia 1: do topo da town para o fundo do poço

[TEXTO] Ricardo Farinha, Núria R. Pinto e Alexandre Ribeiro [FOTOS] Hélder White

Não serão assim tantos os miúdos adolescentes em Portugal, por este momento, que nunca tenham ouvido um dos muitos hits dos Wet Bed Gang. A partir de Vialonga — que podia, na verdade, ser outro subúrbio de Lisboa — Gson, Zara G, Zizzy e Kroa criaram uma legião de fãs espalhada pelo país que poderia até não partilhar de várias das perspetivas dos rappers, dada a diferença natural de vivências. Um miúdo branco de Viana do Castelo, Albufeira ou da Ericeira provavelmente terá tido uma vida diferente daquela que os quatro MCs tiveram.

Isso não importa, e provou-se, como tantas outras vezes, no arranque do Sumol Summer Fest deste ano, esta sexta-feira, 6 de Julho. O festival da Ericeira, que desde 2015 virou progressiva mas rapidamente o seu foco do reggae e dancehall para sonoridades mais urbanas, nomeadamente o hip hop, estava praticamente esgotado para um dia que iria ter French Montana como cabeça de cartaz, além de uma batalha bem especial entre Brasil e Portugal no campo do rap. No entanto, não houve momento em que o público tivesse vibrado mais — e mostrado que sabia as letras de cor — do que o concerto dos Wet Bed Gang.

Ao vivo, os quatro rappers apresentam-se com a sua banda (Simão Chaves, bateria, Ricardo Malveiro, baixo, Rui Terruta, guitarra, e Conductor, DJ), o que acrescenta um elemento orgânico e musical ao espectáculo e às composições modernas e tendencialmente electrónicas do grupo. Depois de pouco mais de um ano intensivo na estrada, com dezenas de actuações, os Wet Bed Gang tornaram-se excelentes a deixar uma multidão em êxtase e a dominar o palco com a sua energia característica.

 



Contudo, o sucesso do grupo também tem muito a ver com o trabalho em estúdio, o produto pensado, a mestria de colaboradores — onde se tem destacado Charlie Beats –, e será sempre impossível (ou pelo menos muito difícil) transpor todos os pormenores dos beats, rimas e flows para um palco. Encontramo-los hoje bem mais perto desse nível, mas ainda haverá espaço para afinar a actuação — também não vai faltar tempo para isso. O auto-tune ao vivo de Zara G, por exemplo, não se compara com aquele que ouvimos quando carregamos no play no YouTube ou no Spotify, Gson também não estava com a voz ao seu melhor nível, mas temos a esperança de que haja essa consciência e que exista trabalho desenvolvido para se pensar numa melhoria constante — não duvidamos disso. O público, porém, parece não se importar nem um bocadinho.

O alinhamento é uma das melhores coisas do espectáculo — não faltam hits por onde escolher, e além de temas em grupo, de “Aleluia” ao novo “Mesa Oito”, passando pelos temas criados a meias com os Karetus, há ainda os singles a solo. “Sem Juízo”, de Zara G, é um deles, mas também “50/50”, que tem direito à presença de Giovanni ao vivo. Alguns dos que deixam o público em maior alvoroço são os temas do último EP, em colaboração com Charlie Beats: o banger “Chaminé” deixou milhares de pessoas a saltar em frente do palco. Os Wet Bed Gang e o seu rap, que fala de relações amorosas, festas para maiores de 18 anos ou da vida na estrada, são um fenómeno nacional — e não temos dúvidas de que teriam potencial para o mercado dos PALOP. O desafio para o grupo, numa era em que há tanta e tanta coisa diferente e boa a acontecer dentro do rap em Portugal, será manterem-se relevantes e reinventarem-se, ultrapassado o clima de febre que vivem neste momento. Por agora, a vista é boa no topo da town.

 



O apito inicial da partida, que iria juntar as duas equipas transatlânticas no “amigável” da Ericeira, ouviu-se perto das 23 horas. De um lado Gson, Holly Hood, Papillon, Sir Scratch e DJ Big. Pela selecção visitante, Rincon Sapiência, Drik Barbosa, Kamau, Rashid e DJ Nyack.

Moeda ao ar e são os portugueses que entram, para jogar em casa, confiantes de que não seria necessário arriscar muito para conquistar um público maioritariamente adolescente no Sumol Summer Fest. Não estavam errados.

Início da primeira parte começa bem para os portugueses que, em crescendo, vão agarrando a casa. Talvez a figura mais distante do imaginário de uma plateia bastante jovem, Sir Scratch entra, ainda assim, com o à-vontade que a maturidade lhe traz. “Metamorfose Fase II”, “Voar” e “Cobras e Ratazanas” são “golpes baixos” para a equipa adversária, percebe-se pela reacção eufórica do público. Aqui começa a desenhar-se a ideia de que, numa primeira apresentação, a tarefa dos brasileiros talvez não seja das mais fáceis… Muitas jogadas individuais, é certo, bem ao estilo daquilo a que Portugal nos tem vindo a habituar. Papillon destaca-se neste primeiro tempo: assertivo, seguro e impecável nos ad libs. Por outro lado, uma hora e meia de Wet Bed Gang acabou por trazer um cansaço visível ao rapper de Vialonga que teria beneficiado, também, de uma estratégia com maior apoio do colectivo. Holly Hood tem o público na mão e nem precisava de backing tracks para fazê-lo. 1-0 para Portugal. E o jogo vira.

 



A Ericeira não conhece este “Brasil” e, talvez por isso, a entrada seja tímida. Ao início do segundo tempo, no entanto, torna-se clara a ideia de que se é para vencer, a selecção canarinha tem que jogar coesa e é exactamente assim que entra em campo. O público dispersa, por momentos, mas é nos graves de “Meu Bloco” que se começam a sentir os primeiros remates para golo; uma boa parte da plateia não resiste ao “trap samba” de Rincon Sapiência. A partir daí foi sempre a subir e o Brasil, já se sabe, joga bonito.

“Estereótipo” ou “Aperta o Rec” são exemplos de verdadeiros bangers de mensagem e quem nos traz “Bum Bum Tam Tam” para abrir “Ponta de Lança” e nos põe a rebolar com “Vai Malandra” está, sem sombra de dúvida, a jogar ao ataque. Olhar para os ecrãs gigantes da Ericeira e ver Drik Barbosa, única representante feminina neste clash, a rimar sem espinhas ao lado de Kamau é um dos marcos mais bonitos da noite e talvez nem fosse necessário termos tido um elegantíssimo momento funky para ver o Brasil virar o jogo. 1-1 no marcador.

Kamau exímio na tarefa de se dirigir a um público que, claramente, não era aquele que merecia. E isso fica ainda mais claro quando, num momento em que pensávamos que o marcador estava fechado, nos apresenta aquele que viria a ser o homem do jogo e caso para se dizer “mete o Firmino!”. É um “DJ de verdade”, disso não há dúvidas. Pouco mais é preciso dizer de Nyack mas até esse rótulo nos parece curto. O Sumol Summer Fest assistiu, talvez sem saber, a um dos melhores momentos de um dos melhores do Brasil e, durante largos minutos, quase nos esquecemos de que estávamos na Ericeira. Karol Conká, Marcelo D2, Gabriel O Pensador e mais uma mão cheia de trunfos sem dó nem piedade. 2-1 em cima dos 90.

As substituições fazem-se rapidamente mas há pouca margem para que DJ Big consiga dar a volta ao marcador. Peca por apresentar tardiamente o que de melhor o hip hop tuga tem para nos dar e isso é visível quando o público respira de alívio por se poder entregar a Slow J ou Sam The Kid mas que também se confunde quando Carolina Deslandes se faz ouvir no recinto.

No fundo, este é um clash que de clash tem muito pouco – os portugueses talvez tenham sido aqueles que mais se arriscaram no formato enquanto que os brasileiros se debateram mais pela entrega em palco. As prestações de Holly Hood, Papillon, Gson, Sir Scratch, com uma perninha de Plutónio, foram pérolas para os ouvidos da plateia, previsíveis na sua eficácia. Do lado oposto, fica a clara sensação de que a armada brasileira precisa urgentemente de rumar a outro palcos do circuito nacional. O Musicbox já se torna pequeno para artistas com a dimensão de Rincon Sapiência e DJ Nyack merece, fácil, um espectáculo só seu na sala que ainda “ontem” recebeu gigantes como Alchemist.

 



French Montana era o nome que se seguia depois da celebração da língua portuguesa com os Wet Bed Gang e o Sumol Summer Clash. Olhando para a edição do ano passado, não é difícil encontrar pontos-de-ligação com o concerto que Fat Joe apresentou, principalmente a escolha do formato. No final, as conclusões são as mesmas: o “set de discoteca” não serve para este tipo de palco e cantar por cima das vozes pré-gravadas é um problema do universo rap que tem de ser resolvido urgentemente.

É importante, no entanto, separar o trigo do joio: Fat Joe é um MC competente (e com história no hip hop norte-americano) e teve alguma preocupação em “educar” o público. O autor de “Unforgettable” é… bem, é difícil descrever alguém que fez carreira através de participações em que, na grande maioria das vezes, não acrescentou nada. Não surpreende a pobre apresentação ao vivo na Ericeira, deixando os confettis, a DJ e as canções dos outros (ouviu-se Nirvana, XXXTentacion ou Lil Pump, por exemplo) fazerem o seu trabalho. Há artistas e “artistas”…

 


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