Stephen Witt // How Music Got Free

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[TEXTO] Rui Miguel Abreu

Na lista de melhores álbuns do ano encontram-se trabalhos como The Life of Pablo de Kanye West, Coloring Book de Chance The Rapper ou Blonde de Frank Ocean. Em comum, estes registos têm, entre outras coisas, o facto de estarem, para já pelo menos, limitados a uma existência espectral de zeros e uns na Internet. Nenhum deles foi oficialmente lançado em qualquer suporte físico. Todos estão, no entanto, ao alcance de um clique, “livres”, disponíveis em múltiplas plataformas de streaming.

Como é que se chegou aqui? O hip hop foi sempre terreno de artefactos sagrados: o break secreto que circulava entre iniciados na arte do beat diggin’ em ultra-valorizados pedaços de vinil, a cassete de produção caseira com a mixtape que todo o bairro precisava de ouvir, o álbum, o maxi single com os instrumentais e os acapellas para os DJs cortarem, o CD carregado de snippets significantes… A história do hip hop é, também, como aliás cabalmente demonstrado no impressionante tomo de DJ Semtex, Hip Hop Raised Me, a história destes artefactos. Que caminho, então, se trilhou até chegarmos aqui, a este presente despojado de existência física, de circulação livre de música?

Essa é a pergunta de biliões de dólares a que Stephen Witt procura responder em How Music Got Free – The Inventor, The Mogul and the Thieflivro de 2015 que este ano mereceu edição britânica na Vintage. Witt é descrito como um membro do que ele mesmo apelida como “a geração pirata”. Nasceu em New Hampshire em 1979 e graduou-se na Universidade de Chicago em Matemáticas. Trabalhou para fundos de investimento, esteve em África envolvido em projectos de desenvolvimento económico e, em 2011, acrescentou à sua formação mais uma licenciatura obtida na prestigiada Universidade de Columbia, desta vez em Jornalismo. How Music Got Free é a sua obra de estreia. E é impressionante.

Witt relata a história do colapso e da reinvenção da indústria fonográfica através de três personagens centrais, gente real que existe mesmo já que nada neste extraordinário documento é ficcionado: o primeiro é Karlheinz Brandenburg, o inventor a que se refere o subtítulo do livro, o alemão responsável por liderar uma vasta equipa de investigadores que legou ao mundo uma extraordinária e verdadeiramente revolucionária criação – o mp3; o segundo, o mogul, é Doug Morris, um judeu de Long Island que liderou várias majors, incluindo a Warner, a BMG e, até muito recentemente, a Universal, sendo duplamente co-responsável tanto pelo colapso da indústria de biliões de comércio da música como pelo seu posterior renascimento, quando se começou a entender que seria possível ir buscar dividendos à Internet – foi ele o criador do canal Vevo no YouTube, por exemplo; e o terceiro, o “ladrão”, é Dell Glover, empregado da linha de empacotamento de uma fábrica de CDs na Carolina do Norte, negro, fã de hip hop (e de country…) que na segunda metade dos anos 90 se impôs como uma das principais fontes dos leaks que levaram dezenas de milhares de títulos discográficos a chegarem à Internet de forma ilegal e gratuita, muitas vezes antes da data de edição.

Através destes três elementos basilares, Stephen Witt tece uma teia complexa de factos que passam pelo desenvolvimento da tecnologia e pela mudança de atitude de toda uma geração em relação à música. E há, para lá desta trama central, toda uma série de dramáticos acontecimentos paralelos: da ascensão de Steve Jobs depois do seu regresso à Apple ao aparecimento da Interscope de Jimmy Iovine, o produtor co-responsável com Dr. Dre pela criação posterior da marca Beats, passando, mais tarde, pelo fenómeno conduzido por Lil Wayne que a dada altura resolveu começar a colocar mixtapes para download gratuito na Internet.

O hip hop, depreende-se da leitura de How Music Got Free, foi um dos motores principais da transformação de paradigmas na indústria da música. Esta cultura foi sempre capaz de impor modelos de negócio alternativos – do hustle de bairro de venda de mixtapes de mão em mão à criação de plataformas editoriais independentes, como a Aftermath de Dre ou a Cash Money de Birdman – que se apoiaram em especificidades regionais para conquistarem o mercado nacional americano e, por conseguinte, o mercado global mundial. A sede de milhões por discos de Tupac e Eminem, de Lil Wayne e Jay-Z, de Outkast e Dr. Dre foi um dos grandes impulsos para a criação da “geração pirata”, apoiada primeiro nas secretas organizações nascidas no IRC, testada depois com a criação de plataformas como o Napster e, mais tarde, afirmando-se absolutamente vitoriosa com a invenção das tecnologias peer to peer e bit torrent.

Witt escreve o seu livro com um estilo claro e directo, quase como uma obra de true crime, conduzindo-nos pelos labirintos complexos de uma revolução que mudou o mundo, dando conta das movimentações da indústria, através da RIAA (Recording Industry Association of America), e do estado federal americano, por mão do FBI, para tentarem travar o que a história provou, afinal de contas, ser inexorável. Ao longo de quase 300 páginas, nesta versão paperback de bolso, Stephen Witt desenha um claríssimo retrato da transformação de um paradigma que a todos nos toca. Ler, How Music Got Free depois de livros como Perfecting Sound Forever de Greg Willner ou How Music Works de David Byrne é ir, afinal de contas, resolvendo o complexo puzzle em que todos nos encontramos representados., em que todos temos um papel activo.

Na capa, Nick Hornby, o escritor responsável por Alta Fidelidade, por exemplo, garante que How Music Got Free é um “livro fantástico, informativo e certeiro”. Os aplausos da generalidade da imprensa, da Record Collector ao New York Times ou Financial Times, deixam enfim claro que este é um documento importante para quem gosta de música, para quem procura entender o funcionamento da sociedade, da economia, para quem procura entender as dinâmicas de crescimento do hip hop. Este é, podemos conclui-lo, um livro para entender o nosso tempo. E assim nos prepararmos para o futuro.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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