Soulection: 5 anos a olhar para o futuro

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTO] Direitos Reservados

 

Cunhar um termo não é fácil. Mais difícil é transformar a ideia em bruto num produto de sucesso. A Soulection é a editora com que todos devem aprender, saindo de um podcast para uma empresa onde a imagem acompanha os sons que têm moldado o que se vai ouvir amanhã.

Joe Kay é o cérebro que engendrou a plataforma que veio proporcionar que Sam Gellaitry da Escócia, Evil Needle de França e IAMNOBODI de Berlim fossem responsáveis por mandar cá para fora o seu trabalho através de uma corporação que os entende. Andre Power e Guillaume Bonte estiveram a seu lado no início e foram dois dos impulsionadores da ideia. A Soulection é agora uma marca com milhões de plays no SoundCloud, milhares de fãs nas redes sociais e uma das mais requisitadas editoras a circular por todos os continentes.

Cinco anos a apalpar terrenos da electrónica e hip hop que são influenciados pela L.A. Beat SceneLow End Theory, Stones Throw Records ou Brainfeeder -, mas também a olhar para fora de caixa e encontrar mágicos das rimas e da produção como MF Doom ou J Dilla. A Beats 1 da Apple, guiada de forma exímia por Zane Lowe, não escapou à febre e convidou o grupo-fenómeno a ter a sua curadoria, lado a lado com nomes como Drake, Q-Tip, Pharrell ou… Elton John.

GoldLink, MC que teve o apoio de Rick Rubin e lançou o seu álbum de estreia pela Soulection, Mr. Carmack,  Lakim ou Esta são outros dos muitos artistas que se vão juntando à equipa, entregando sempre algo de diferente e único. Numa altura em que as pequenas editoras brotam como flores na Primavera, a marca criada por Joe Kay é um dos epicentros da criação musical a olhar para o futuro. Tendo isso em conta, escolhemos 5 lançamentos que, de certa forma, caracterizam o “Sound of Tommorow” que define esta marca.

 


 

[SOULECTION] White Label Series

Começamos não por um lançamento em específico, mas por uma série deles. A White Label Series é uma resposta rápida à necessidade dos produtores com qualidade terem um espaço para “regurgitar” as faixas que vão criando à velocidade da luz – um reflexo do fluxo de informação que podemos ver todos os dias.

As faixas são comprimidas em grupos de 3 ou 4, sendo atiradas para a blogosfera à espera da recepção calorosa do público-alvo. As edições de marca branca são como embriões à espera de serem algo mais. Por exemplo, Sivey, produtor de Manchester, foi o responsável pelo último lançamento de 2015 nesta série – já tinha lançado Constructive Interference a meias com Evil Needle pela editora. O seu trabalho a solo está resumido a 4 faixas e é o 17º lançamento da Soulection, encerrando em si um conjunto de batidas futuristas com alma de quem está a tocar jazz de fusão – a pescar um pouco do que Flying Lotus vai fazendo em Los Angeles. Tudo criado no FL Studio, conta o próprio.

Este tipo de liberdade criativa abre espaço a uma maior amplitude sonora e é o espelho de uma das mais claras vantagens de pertencer a este colectivo de criadores com olhos postos no futuro.

 


 

[TA-KU] 24

Ser clássico e moderno ao mesmo tempo. Ta-ku é um produtor australiano que aperfeiçoou a sua arte a ouvir os mestres J Dilla ou DJ Premier. O ex-aluno da Red Bull Music Academy, classe de 2008, tem na vitalidade que apresenta no seu som um dos pilares da permanente sensação de redescobrimento que nos assalta enquanto o ouvimos. 2011 marcou o início da parceria com a Soulection e logo com 13 faixas a demonstrar o ouvido apurado do CEO Joe Kay.

24, nome do registo, é um conjunto de faixas onde podemos perceber a afinidade com o som de Dilla ou Preemo. As drums a cheirar a analógico, linhas de baixo a entrarem-nos pelo ouvido com mira certeira e os teclados a terem mil vidas através de ambientes tão díspares como o clássico erudito ou o psicadélico.

Ta-ku tem-se mantido bastante activo, sendo responsável por beat tapes em homenagem a Dilla – provavelmente o seu maior ídolo – ou Nujabes e EPs como Songs to Break Up e Songs To Make Up. As produções com sonoridades vívidas são o principal porta-estandarte de Regan Matthews, o nome que tem impresso no passaporte, e o seu avanço discográfico pela Soulection é um belo exemplo disso.

 


 

[EVIL NEEDLE] Mood

A criar ondas a partir de França, Evil Needle não tem mal que se sinta na obra. O produtor lançou Mood pela Soulection e mostrou que o seu background é apenas uma folha a preencher uma história que toma várias formas ao longo do tempo.

Pharcyde e Wu-Tang Clan são referências dadas por Evil Needle, mas a única ligação que encontramos é a forma cinematográfica como as produções nos são propostas. As texturas em cima de texturas criam uma obra que tem de ser absorvida em diversas abordagens, dando sempre azo à descoberta de um som escondido.

O quinto lançamento da editora é também um dos primeiros a criar ondas e a conquistar o espaço para que os mais novos pudessem brilhar, aproximando-se da marca global que agora todos reconhecemos.

 


 

[SANGO] Da Rocinha

E se o baile funk tiver uma oportunidade de se reinventar através de graves omnipresentes e kits de hip hop? É este o tónico para a criação de Sango, um produtor de Michigan que encontrou o seu espaço através da sua conexão com esse género brasileiro em particular.

Da Rocinha já vai no terceiro volume, mas o primeiro é que o torna realmente marcante. Um diggin’ que ultrapassou a barreira dos discos e passou para a cultura, transformando este registo numa tese sobre o funk carioca. A visão pessoal insuflou-se em batidas com recortes cuidados nas vozes e sons brasileiros, juntando-lhes depois os sub-graves, responsáveis por abalar qualquer festa mais morna.

A escavação arqueológica na rica história da música brasileira foi um dos eventos mais interessantes e singulares da história da Soulection e esperemos que o seu interesse na memória musical do país da bossa e da MPB não se esfrie, pegando noutros pedaços da música que por lá se faz. Ou se fez.

 


 

[SAM GELLAITRY] Short Stories

O último lançamento que podemos encontrar no bandcamp da Soulection tem o cunho de Sam Gellaitry, prodígio escocês. No texto que acompanha Short Stories, pequeno retrato da electrónica do miúdo, lê-se que aos 16 anos já sabia misturar e masterizar, mostrando desde cedo aptidões para exercer com autoridade a sua sensibilidade musical.

Se falamos de Escócia, falamos de Hudson Mohwake, outrora um dos prodígios escoceses do universo hip hop. Short Stories vai beber aos TNGHT e cria produções que nos colocam em ambientes díspares, levando-nos do momento mais solitário até ao pico da festa. A alma, ou soul, que sentimos pela pequena mas intensa obra é um testamento da era digital e do que este talentoso produtor pode trazer de novo.

Jamiroquai, Madlib e Flying Lotus são três nomes obrigatórios quando falamos de Gellaitry, tal como o baixo, a guitarra e os sintetizadores, três amigos inseparáveis do produtor. A Escócia nunca esteve tão perto dos centros mais inovadores da produção e Joe Kay soube caçar o jovem na altura certa.