SOPHIE // OIL OF EVERY PEARL’s UN-INSIDES

[TEXTO] Miguel Alexandre

A axiologia da música pop é inerentemente ambígua: os seus próprios conceitos servem para abraçar, por um lado, o convencional, o mundano e o que constrói os seus padrões facilmente digeríveis e palpáveis; no entanto, é o seu outro lado que se mostra mais interessante: uma capacidade incontrolável de distorcer as próprias paredes do género e aliá-las a algo completamente dissociável, mas que, ao mesmo tempo, se encaixa tão bem por ser tão alienado. A postura com que a pop chega a 2018 não é muito diferente do que temos visto nos últimos anos. O género tem-se manifestado num híbrido entre as suas duas facetas, erguendo-se maioritariamente no feminino: O Melodrama de Lorde mostra a produção mais ousada que a rádio ouviu na Hot 100; Art Angels é a abordagem mais acessível de Grimes, mas que, ao mesmo tempo, manteve o misticismo e a peculiaridade de trabalhos anteriores; a estreia de FKA twigs é a mistura perfeita de sereno e subtil com audaz e voluptuoso. Agora é a vez de SOPHIE ter o seu momento e o convite está feito no seu álbum de estreia: OIL OF EVERY PEARL’s UNINSIDES.

SOPHIE não só questiona a natureza da música pop, como toma o seu corpo. Desde 2013, com o lançamento do seu single de estreia, “Nothing More To Say”, que a produtora estuda meticulosamente as componentes do género musical com o intuito de as distorcer, destruir, no final, refazer. Em 2015, lançou a sua primeira compilação, “Product”, recheada de sons tão frenéticos e contagiantes que se propagaram como vírus entre as redes sociais e chamaram a atenção de artistas como Madonna, Vince Staples, Charli XCX, Cashmere Cat e muitos outros.

O som pesado baseado em synths, baixos fortes e batidas distorcidas conjuga-se estranhamente com os vocais espumosos e andrógenos. A forma de cantar é descontrolada. A produção é atenta aos mais ínfimos detalhes. E o ambiente global é expansivo, mas ao mesmo tempo pós-humano. Não há rótulos nem géneros na música de SOPHIE, até porque tais insinuações são desnecessárias num ambiente que pretende desmantelar os conceitos da natureza humana. Nas primeiras faixas, mais especificamente em “Faceshopping”, a premissa é precisamente essa: desconstrução total do ser humano a protótipos anónimos sem identidade e sem qualquer tipo de personalização — “My face is the front of shop/My face is the real shop front/My shop is the face I front/I’m real when I shop my face”.

Já “Is It Cold In The Water?”, um dos momentos mais cristalinos do álbum, remete-nos para os primeiros trabalhos de Ben Frost, ou até mesmo Tim Hecker. A produção pede uma atenção acrescida, direccionada para os vocais de SOPHIE, que prologam propositadamente o título da música no refrão ao estender a palavra “cold” a vários tons. É agoniante; claustrofóbico, talvez, mas pinta esta imagem mais ominosa em que o álbum entrará. Em cada canção, ouvimos explicitamente a voz de alguém a exprimir complexidades relacionais e identitárias; porém essa voz é também utilizada por quem, à superfície, apresenta ser demasiado complexo para ser um mero humano. Há espaço para vulnerabilidades expostas; e é, aliás, esta espécie de sensibilidade que atribui à maior parte das canções uma carga emocional dual inesperada.

 



A voz humana vai-se perdendo ao chegarmos a “Infatuation”, uma carta aberta a alguém que admiramos de longe: tal admiração podia começar dentro da própria SOPHIE, mas o ambiente quase apocalíptico e os gritos fatigados e desvirtuados indicam que é precisamente a outra pessoa, a alguém que é uma versão completa do seu próprio ser – talvez mais nítida e descomplexada. Assim, OIL OF EVERY PEARL’s UNINSIDES é um registo íntimo cujas inflexões vocais nos levam a paisagens inexploradas, sempre entre o reino do real e do irreal. As transições entre ruídos amorfos e gritos quase de guerra são dos momentos mais satisfatórios aqui. Contudo, há um final mais coeso na sua narrativa. Em “Immaterial, as temáticas de auto-aceitação e de perseverança expressam-se no refrão “I can be anything I want” e assentam-se como o núcleo conceptual do álbum. Ao dissecarmos a música, reparamos que são as veias de uma canção da Madonna, na era post-disco, filtradas agora num novo contexto, apelando ao desejo de formar uma identidade, de querer fortemente ser alguém.

O processo criativo de SOPHIE provém claramente da sua cabeça, alimentada por cenários só seus. A produtora nunca se isola em si própria; muito pelo contrário, consegue criar espaços de respiração para fora e convida quem quiser a entrar nas suas fantasias. Neste primeiro trabalho oficial, não só desafia um género em constante mutação, como nos mostra um mapa sónico singular. Enquanto grandes produtores apostam ainda hoje na nostalgia ou num alcance emocional e comprometido da sua audiência, SOPHIE foca-se em criar novos panoramas musicais que visitam os extremos da sua tristeza, do seu terror e do seu prazer.

 


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