De Sol a Sol, por aquilo em que acredito

[TEXTO] Alexandra Matos [FOTO] De Sol a Sol

 

Cresci a ouvir ritmos africanos. Nas festas de aniversário dançávamos Banda Eva, Onda Choc e Michael Jackson. Nos CDs dos meus pais havia jazz, bossa nova, MPB, música portuguesa e tantas vezes Gabriel o Pensador e Kussondulola. Na adolescência passei pelo rap e lembro-me de uma apresentação na aula de português em que usei a música “Brilhantes Diamantes” do Serial com Maze e Ace. Isto para dizer que a pergunta “de que estilo musical mais gostas?” é muito difícil de responder. Não só porque oiço de tudo, mas também porque decoro mais facilmente ritmos e letras do que nomes de artistas e de bandas.

Prefiro as músicas pela mensagem transmitida pelo instrumental ou pela letra. Sim, sobretudo pela letra. Mas há mais uma vertente que pode explicar o meu envolvimento neste projecto, o De Sol a Sol: gosto de compreender o que me rodeia. O rap, ou algum rap, dá-me isso. A possibilidade de olhar, quem sabe compreender, uma realidade que não é a minha ou palavras para descrever a minha própria. Uma visão do mundo diferente daquela que tenho ou a metáfora ideal para aquela que tenho. É isso que me cativa no rap e foi por isso que quis agarrar este projecto.

Em Fevereiro deste ano, 2016, recebi um telefonema: “olha, gostava de fazer algo relacionado com hip hop e o Vasco Teixeira teve a ideia de fazer algo do tipo “um dia na vida de”. Como és a melhor produtora que conheço gostava que fizéssemos isto juntos. O que achas?”. O telefonema era do nosso editor, o Luís Almeida. Disse imediatamente que sim. Sempre acreditei que na minha área, no jornalismo, é difícil mostrarmos aquilo de que realmente somos capazes sem que o façamos de forma espontânea, autónoma e pelos nossos próprios meios. Estava ali a oportunidade de fazê-lo! E, como me ensinaram desde pequena, não é preciso ter força de vontade. É preciso ter vontade de fazer força.

Sentámo-nos no café perto do local onde trabalhávamos os três e do brainstorming surgiu o De Sol a Sol. Como dizemos, uma série documental que é uma versão ainda mais pessoal do hip hop. Em última análise quisemos fazer algo que, incluindo elementos da cultura, não falasse apenas daquilo que conseguimos ouvir e ler numa pesquisa simples na Internet. Quisemos mostrar que também no hip hop, como em tudo o resto, os preconceitos não nos permitem apreciar o mundo da melhor forma.

Começámos por escolher quem convidaríamos para participar na temporada de estreia da série. Visto que não somos conhecidos no meio o receio era de não conseguir quem alinhasse em ter a paciência de andar um dia inteiro com uma câmara atrás e disponibilidade para ser entrevistado por mais de uma hora sobre os mais variados temas relacionados não só com o hip hop, mas principalmente com a forma de estar na vida e de ver o que o rodeia. Olhámos para a rede de contactos que tínhamos e fomos atrás: Bispo, Holly, B-boy Jordan, Dj X-Acto. Não recebemos uma única nega! Acertámos datas (em folgas ou trocas com colegas compreensivos), produzimos o dia de gravações, fizemos a pesquisa para a entrevista. E partimos com gastos em combustível divididos irmãmente, sandes e garrafas de água na mochila, a ajuda de amigos em mãos para filmar e material.

O produto final está à vista. Num canal de YouTube independente, sim. Ciente das dificuldades que poderíamos ter para chegar às pessoas, mas confiantes de que aquilo que fizemos está interessante, bem conseguido e diferente. Não queremos chegar apenas ao público do hip hop, muito menos rivalizar com o que já existe, e bem, sobre a cultura. Porém, queremos contribuir para que o hip hop chegue a quem não o ouve, a quem não o conhece e mesmo a quem não goste. Se o conseguimos? O tempo o dirá! E, que fique sublinhado, não queremos ficar por uma temporada com quatro episódios. O hip hop é um mundo com muito para contar.

Não rimo. Não faço beats. Não sei fazer scratch. Não me equilibro só numa mão. Gosto de hip hop e dedico-me De Sol a Sol por aquilo em que acredito.

 


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