Slow J, o herdeiro de Sam The Kid?

[TEXTO] Ricardo Farinha [FOTO] Hélder White

“O que eu acho é que já devia haver rappers, da nova geração, que me estivessem a envergonhar de tudo o que eu fiz. E não sinto isso. Não é ser gabarolas, mas não sinto isso. Eu sinto que aquilo que fiz, e que ainda tenho vindo a fazer, não tem sido superado. Ou nem me sinto picado. E não estou a dizer para fazeres o que eu faço — aí também me estás a “bytar” —, eu estou a dizer para fazeres a tua cena e inspirares-me tipo ‘Eia, este gajo está-me a matar, está a fazer sons de outros tipos'”. As palavras são de Sam The Kid, no podcast “Até tenho amigos que são”, de Rodrigo Nogueira, publicado em Março de 2015, antes de se referir a Allen Halloween como o último artista com quem teve esta sensação e sempre frisando o facto de não se considerar a si próprio o melhor no rap português.

O timing é interessante: um ou dois meses antes deste podcast, um jovem rapper desconhecido, como tantas outras dezenas, tinha feito o upload no seu canal de YouTube de um tema chamado “Portus Calle”. O seu nome era Slow J e poucos imaginavam que viria a ser, de forma consensual, o artista revelação de 2015. Muito poucos o conheciam, mas João Batista Coelho já circulava nos meandros subterrâneos do rap, estando a trabalhar como engenheiro de som nos estúdios Big Bit, onde, alguns meses depois, apresentaria o EP The Free Food Tape, que veio abalar o hip hop nacional.

Gente como Sir Scratch, DJ X-Acto, Factor (Grognation), Fumaxa ou Gson (Wet Bed Gang), entre outros, já fazia parte do lote de artistas que assistiam em primeira mão ao crescimento lento e sólido deste monstro chamado Slow J. Mais tarde, o jovem músico de Setúbal, que deu um dos seus primeiros concertos no primeiro festival Rimas e Batidas, seria parte essencial no novo álbum de NBC, por exemplo, além de estar a trabalhar em estúdio com Valete.

Mais de 15 anos antes — e apesar de eu, pessoalmente, não ter experienciado esse período —, uma das grandes revelações do fim do milénio foi Sam The Kid. Os tempos eram outros e assistia-se a um boom efervescente do rap português, passado alguns anos do êxito da compilação Rapública. O miúdo de Chelas aliava rimas, flow, técnica e um discurso a uma capacidade incrível para engenhar instrumentais da mesma qualidade a partir da sua MPC. Apesar de não ser o único a fazê-lo, tornou-se característico pela inclusão de samples de música portuguesa nos beats que se ouviram primeiro em demos na rádio, e depois em Entre(tanto), editado em 1999. Além das capacidades artísticas, existia — e persiste, evidentemente — uma dedicação suprema, um interesse platónico por uma “musa” chamada hip hop.

Sam The Kid não é só um dos melhores de sempre a fazê-lo, também é um dos que mais “knowledge” carrega desta cultura — o tipo de nerd com uma visão que o levou a registar e gravar momentos aparentemente banais (muitas vezes pessoais) ao longo dos anos, a partir da sua perspectiva privilegiada de interveniente directo, para todos estes anos depois lançar a TV Chelas, ou a Torre do Tombo do hip hop nacional, que olha para a história com registos da altura, autênticos tesouros, mas também com entrevistas aos protagonistas para esmiuçar as suas carreiras e apresentar as retrospectivas de um amor profundo. As coisas bem feitas não se fazem à pressa. E também é por isso que há vários anos esperamos pelo disco com Mundo Segundo, Beats Vol. 2, o sucessor de Pratica(mente) ou até o terceiro álbum dos Orelha Negra, que foi adiado para este ano. A perfeição demora tempo. E, afinal, o que se pretende aqui — tem sido um lema constante em toda esta jornada — é criar música intemporal.

Regressamos a Slow J e àquilo que Samuel Mira disse há dois anos. Não que acreditemos em profecias, mas será Slow J o artista que veio abanar e elevar o panorama o suficiente para que encaixe no perfil que STK traçou, de o desafiar? Slow J é, afinal, o protótipo perfeito de um artista de hip hop completo. Mesmo que tenha nas suas raízes ligações ao punk, ao metal e a outros géneros musicais, e possivelmente esteja mais afastado da cultura — afinal, é de uma geração onde as tribos urbanas se fundem, onde não existem separações rígidas e as fronteiras subculturais são mais ténues do que há 20 anos, quando o “pessoal do hip hop” era mesmo só o pessoal do hip hop. Claro que também é uma consequência directa do crescimento e massificação do género.

Sem se atirar à típica mixtape de estreia, contrariando os tempos, Slow J apresentou-se ao mundo logo com um EP rico de sete faixas, escrito, produzido e misturado pelo próprio. “O objectivo embora empírico/É contar uma história/Despir-me nesse anfiteatro/Ser criado p’rá glória (…) E ser artista é ser infante/E era tão contagiante/Que hoje eu vou contra gigantes/Sem temer cair”, rima em “O Objectivo”, a faixa introdutória de The Free Food Tape.

Slow J rappa, mas também ousa experimentar flows mais cantados ou registos mais parados e falados. Tem um discurso e uma mensagem que quer transmitir, mesmo que nem sempre seja literal e óbvia, algo que também representa nos seus videoclips. Não se limita a loops sequenciados com batidas e a composição estrutural da sua música é bastante mais complexa. Combina, como ninguém, instrumentação orgânica com elementos sonoros trap e mais electrónicos. É tão boom-bap como trap. Tal como Sam The Kid, é tão rapper como produtor. Além disso, é engenheiro de som. E já o vimos a “fazer o som” do seu próprio concerto, por exemplo, num showcase no Mercado de Música Independente, em 2015. Ao vivo, é alguém que sabe pisar um palco e cedo começou por fazer experiências fora do eixo clássico de MC-DJ. O que mais podemos exigir de Slow J?

Se 2016 seria o seu ano de afirmação e consolidação, esse plano ficou adiado para 2017, com a edição do esperado The Art of Slowing Down. Já conhecemos os singles “Vida Boa”, a demo de uma “Serenata”, e “Pagar as Contas”, com participações de Papillon e Gson, parte da vanguarda da nova geração do rap português. Mas não há ninguém tão completo e autónomo como Slow J. Será desta que Sam The Kid terá outra resposta para dar à mesma pergunta, feita há dois anos? Será altura de pagar as contas?


Ricardo Farinha

Ricardo Farinha

Jornalista. Colabora desde os 18 anos com várias publicações culturais — as rimas e batidas sempre foram inerentes à vida.
Ricardo Farinha