Sem Cerimónias por Pedro Gonçalves

[TEXTO] Pedro Gonçalves [FOTO] Adriana Oliveira 

Estávamos em 1995, eu não tinha mais do que um ano de experiência de jornalismo musical e era, convenhamos, um ignorante. Rui Miguel Abreu, por seu turno, tinha ainda escassos meses de trabalho na etiqueta NorteSul (da Valentim de Carvalho) e era, convenhamos, menos ignorante do que eu em diversas matérias. Nomeadamente em matéria de hip hop.

Nesses idos tempos, a reacção ao trabalho crítico e ao jornalismo não era tão simples de realizar quanto hoje as redes sociais e as lixeiras das caixas de comentário dos órgãos de comunicação deixam perceber. Receber no (então semanário) BLITZ uma eloquente e estruturada missiva de três páginas a respeito da crítica a um EP não era, portanto, coisa de somenos. Rui Miguel Abreu estava indignado e demonstrou-o bem. Com argumentos, alguns deles demolidores, e com um Post Scriptum que atesta da elegância do próprio: “Espero sinceramente que nenhuma das linhas o ofenda. Achei que o reparo era necessário, mas quero que não fique a pensar mal de mim porque eu certamente não ficarei a pensar mal de si”.

Os Mind da Gap tinham acabado de publicar, pela NorteSul, o seu primeiro EP. E eu, destacado pelo BLITZ para discorrer sobre o objecto, não fui especialmente simpático com o dito. Entre (algumas) linhas que, a esta distância, me proporcionam algum embaraço, deixava eu como mensagem principal a ideia de que o grupo do Porto deveria ter esperado e amadurecido ideias antes de gravar e publicar o que quer que seja. Duas estrelas em cinco. A reacção de Rui Miguel Abreu não se fez esperar. E, segundo relatos de um camarada de redacção ao assistir a um concerto dos Mind Da Gap pouco tempo depois, a da banda também não. Ao que me relatou, fui veementemente visado em alocuções do trio num palco de Lisboa.

Dois anos depois, em 1997, quando editaram o seu primeiro álbum, Sem Cerimónias, os Mind da Gap foram entrevistados para o BLITZ. Recordo-me de, na distribuição habitual dos trabalhos para a semana na redacção de Cabo Ruivo, ser colocada em cima da mesa a questão “quem faz a entrevista?”. Não hesitei. Tinha que ser eu, em boa parte motivado pela sensação de ajuste. Assim foi. No velho bar do edifício d’A Capital, Ace, Presto e C-Real sentaram-se comigo em ambiente dotado de ligeira tensão. O que, espantosamente, foi coisa rápida de debelar durante a conversa, uma conversa naturalmente maior do que a entrevista publicada mostrou. Dessa ocasião retenho algo de particularmente importante: o respeito mútuo. Sem qualquer hostilidade, encerrámos o encontro com o maior respeito de uns pelos outros. E isso é coisa que, pensasse eu o que pensasse sobre a música dos Mind Da Gap (pensamento que mudou do primeiro EP para o primeiro álbum), vale mais do que um beat de um milhão de dólares.

 


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