Scúru Fitchádu // Scúru Fitchádu

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[TEXTO] Diogo Santos

Que se lixem os cânones. Scúru Fitchádu quer dizer, numa tradução nada académica e totalmente à toa, Festa Rija. Mas, e em abono da verdade, também se encontram pela Internet linguistas que apontem Marcus Veiga e Sette Sujidade como possíveis e talvez mais plausíveis associações. No fundo, temos de saber aceitar todas estas diferenças de pensamento. Até porque não há outra forma quando ao barulho está um EP deste calibre.

Scúru Fitchádu, EP que adopta o nome do autor, é aquilo a que na gastronomia se denominou chamar de salganhada. Esqueçam é desde já as conotações negativas que possam estar associadas a este termo. Pensem mais na salganhada como resultado de uma daquelas pulseiras de resort que dão direito a colocar no mesmo tabuleiro, e sob o sempre inquisidor olhar de toda a sala, uma cachupa, um donut, uma pint e um frasco de álcool etílico para tratar as feridas pós-mosh. Ou seja, funaná, hip hop, punk e metal. “Ken Ki Frâ”, faixa de abertura, traduz-se para “Quem é que disse” e é, a partir de agora, a resposta a dar a todos aqueles invejosos que sussurram ao ver um bravo a comer fatias de melão com ovos mexidos. Ousado. Denso. Cheio de camadas. Nos samples de gaita típica do funaná sente-se uma espécie de urgência. Uma vontade de mostrar que para transformar basta querer fazê-lo. No caso, bem feito.

A receita desta destruição construtiva prolonga-se pelas restantes quatro faixas do EP. “Ravoluçan Ketu” lembra a certa altura aquele prato salgado tão típico de Braga, o Mão Morta. Sujidade por todo o lado. Já falámos em lo-fi? “S’Ama Laba Burkan”, à primeira, parece o resultado sonoro de uma lixa eléctrica a alisar tímpanos. À segunda, os ferros e a gaita — outra vez a gaita — já se apoderaram de tudo. Não dá para escutar com auscultadores. Nem é música para se ouvir sozinho. É um desperdício. Um crime, diria. “Scúru Fitchádu”, a quarta malha, prolonga a estética abrasiva e eleva-a a outro patamar. O sample de vozes parece sacado de um dos muitos concertos dos Metallica em Portugal.

“Lobus” encerra com uma pinta tremenda. O sample harmoniza a faixa. E, depois, é mais ou menos isto: estão a beber um aborrecido café em Montmartre, Paris, e de repente entra um Renault 5 desgovernado e rebenta com tudo. Corpos pelo chão. Faíscas saltam das torradeiras. Há fumo. O alarme já está a fazer um belo jogo de luzes. Os aspersores do sistema de incêndio disparam e há chuva no café. O rádio do automóvel continua ligado e parece estar a tocar uma espécie de A música cabo-verdiana a gostar dela própria. Damos por ela e estamos todos a dançar. “-Ressuscitamos?”, pergunta um jovem incrédulo a uma jovem espantada. “Ressuscitamos! Ressuscitamos!”, grita a pista de dança. Só vos digo isto: contado ninguém acredita.

 


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